CINEMA
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a.r.t.e.
MÚSICA

A diva globe-trotter
Por Carlos Adriano


A cantora Lica Cecato, que lança no Brasil o CD "Pimenta Rosa"
Fernando Torquatto/Divulgação

Mais conhecida no Japão do que no Brasil, a cantora Lica Cecato lança seu novo CD no país

O Brasil tem uma diva “globe-trotter”, biscoito fino de inconfundível som-cor local, que o tapado mercado tupiniquim teima em ignorar, apesar de seus mais de 20 anos de carreira. Do exílio ao idílio. A cantora e compositora Lica Cecato tem se apresentado em festivais, teatros e clubes ao redor do mundo e encantado com sua magnética performance, um canto cool como o mais preciso dos sushis e o charme sensual de uma presença de tirar o fôlego.

Ela chegou mesmo a ser aclamada “Brazilian diva” por uma das mais cultuadas e antenadas lojas de disco de Tóquio, especializada em música latina, a Disk Union (no centro da cidade, em Shinjuku). Na manhã de um domingo de 2004, ela topou com um “altar” na vitrine onde era incensado seu CD “Lica Cecato & Romero Lubambo: Live in Europe” (2003) e, ali reconhecida, teve de tirar fotos e dar autógrafos.

Linda e alta, fluente e falante em várias línguas, a musa mistura música, poesia, expressão corporal e artes plásticas em suas apresentações, quando não sola apenas com o violão. Embora tenha saído no Japão em dezembro de 2004, o mais recente disco de Lica Cecato, “Pimenta Rosa” (gravado entre Rio de Janeiro e Colônia), chega ao Brasil agora. A artista virá lançá-lo em show na Fnac Pinheiros, em São Paulo, no dia 16 de março.

Em 1986, quando estudava como bolsista integral no Berklee College of Music de Boston, ela recebeu o Sarah Vaughn Award. Seu primeiro disco saiu em 1992, “Our favorite songs”, gravado na Itália. Após “Pele” (1999, editado na Alemanha), veio “Constelário” (2001), seu primeiro disco lançado no Brasil (produzido no Rio de Janeiro), que recebeu uma indicação ao Grammy Latino. Em 2002, foi a vez de “Balan-Balancing New Bossa” (um ‘mix’ dos repertórios de “Pele” e “Constelário”), lançado no Japão.

Lica Cecato vive no Rio de Janeiro, em Milão e Colônia. Como ela tem domicílio fixo nestas cidades do Brasil, da Itália e da Alemanha, talvez seja mais adequado falar em viver “entre” para circunscrever suas viagens pelo mundo. Nas saídas de casa e chegadas a aeroportos, ela foi concedendo esta entrevista aos bocados, quase como se grava e mixa música hoje em dia. Aqui ela comenta seu trabalho, a ligação com a língua japonesa, a posição da música brasileira no exterior e a situação do estrangeiro na Europa.

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Fale de sua formação -acadêmica e artística- e das influências -movimentos e pessoas- que de algum modo a fizeram pensar em seguir a carreira musical.

Lica Cecato: Começa com o pai de uma amiga minha do pré-primário, quando eu tinha seis anos. Como eu nasci contralto, voz baixa, tinha muita vergonha disso. Esse tal pai, que foi buscar a filhinha na escola, me ouviu falar e disse: “Que voz linda, você vai ser cantora!”. Aí decidi que era verdade. Comecei me apresentando para minha enorme família italiana (uma vez contei 54 entre primos e primas, tias e tios etc.). Cantava algumas canções italianas, mas também adorava imitar Nat King Cole, pintando a cara de preto, e Celly Campelo e Rita Pavone, por causa dos gritinhos. Quando eu cantava em italiano, a família toda chorava. “Bello, bella, brava”, etc…

Mas o “sound” da voz, da minha voz, queria imitar o saxofone do meu pai. Me encantava ouvir horas a fio aquele som macio do tenor, fluindo de uma música à outra, por prazer de quem tocava e de quem ouvia. Acho que aprendi a cantar com o sax, com Ray Charles, Michael Jackson (quando ele ainda era de cor), Aretha Franklin, Elizeth Cardoso. Ah! Eu adoro todos eles. Ouço muita música e me melo no tom dos outros, mas a hora de soltar o meu tom, é que entendo o que significa felicidade.


Como você chegou à música? Algum fato marcou sua opção musical?

Cecato: Meu avô paterno foi para o Brasil do norte da Itália; minha avó era de Verona e ele de Vicenza -e eles foram parar em Jundiaí. Ele era maestro de orquestra e virou o maestro do coreto dessa cidadezinha que hoje cresceu. Como ele só conhecia música, todos os filhos viraram músicos, inclusive meu pai, que tocava saxofone e clarinete. Eu já nasci com a idéia de que fazer música era uma coisa de FOME, que não dava para ganhar dinheiro, a não ser com muito custo e sorte, mas ao mesmo tempo, nasci cantando em duo com o sax do meu pai.

Já a decisão de fazer música chegou muito depois. Na verdade, a vida decidiu por mim. Eu queria porque queria ser desenhista e fui para a Itália em 1978 para isto. Nunca rolou. Já com a música foi diferente. Desde que comecei a cantar profissionalmente, nunca parei, apesar de já ter pensado algumas vezes em parar. Cada vez que decido, a vida corre e me oferece uma nova luz no que venho fazendo.


Que análise você faz da música brasileira sob uma perspectiva estrangeira, de alguém brasileiro que viveu no exterior? Qual o "mercado" para nossa música na Europa? A natureza de repertório ou estilo determina as condições de trabalho lá fora?

Cecato: Nossa música popular e mesmo a mais sofisticada é bem vendida aqui fora, mas depende muito do distribuidor, do manager, da velha história infinita que compreende cada profissão. Acho que se pode dizer que hoje as artes plásticas -na área contemporânea- e a música brasileira são produtos de grande prestígio aqui fora.

De um certo modo, mesmo os ritmos mais ouvidos em discotecas e clubes, tem sempre um pouco de influência da música brasileira, tem um pé no Brasil. Difícil tarefa, a de analisar a música hoje, num momento de extrema crise da indústria fonográfica, no que concerne o mundo dos CDs, dos I-pods, dos MP3s, da guerra na web e nas ruas pela pirataria a todo nível, mas se for falar somente de música sem falar de mercado, a brasileira tem suingue que mesmo nas eletrônicas se faz notar.


Seu segundo disco, “pele”, traz canções em japonês: “Meditação”, de Gilberto Gil, e “De manhã”, de Caetano Veloso, com letras vertidas para o japonês por você, e “JapanRap”, poema de Hitomaro, traduzido por Haroldo de Campos e musicado por você, e sua composição trilíngüe “Salve! Welcome! Irasshai!” do CD “Pimenta Rosa”. Como se deu seu encontro com a língua japonesa?

Cecato: Meu encontro com a língua japonesa aconteceu em Veneza, cidade onde morei 13 anos e onde há uma ótima Universidade de Línguas Orientais chamada Cà Foscari. Estudei quatro anos, o curso era ministrado em língua japonesa e, depois de concluído o curso, fui pela primeira vez ao Japão em 1986.

Se a pergunta fosse relativa ao fascínio que a cultura japonesa causou em mim, daí começaria em 1973, com a macrobiótica em São Paulo, estudando com Kikuchi, que, generosamente, trouxe o Japão para conhecermos, através da música (koto), culinária, aiki-do, ikebana, shodo, e um etc. de delícias culturais. Os velhos quitutes japoneses de bom gosto.


Suas duas versões são absolutamente fluentes e integradas à melodia original. Na música, como se dá a relação entre línguas isolantes e não-isolantes?

Cecato: Em relação às versões, tanto a de Gil, quanto a de Caetano, peguei canções onde rítmica, métrica e uma aproximação de significado, pudessem “caber” na composição, num todo bastante satisfatório. Minha intenção era de mostrar uma certa bossa na língua japonesa, que muitos consideram que não exista.

Já o “JapanRap” foi diferente. Parte saiu de um sonho, como muitas das minhas composições e/ou poemas. Parte foi escrita pelo insubstituível Haroldo de Campos, parceiro de cabeça e de alma no que se refere ao Japão, e que faz muita falta. Em 1990, conhecemo-nos na Itália, e no dia que nos conhecemos, passamos seis horas mergulhados no mundo ideogramático.

Em 1991, dediquei a ele um livro/objeto chamado “SongBook”, e usava a métrica dos haikais, mas não a filosofia. Haroldo me dedicou uma folha inédita então, de uma transcriação sua da coleção de poemas japoneses “Man-yo-shuu”. Um dos poemas virou parte do “JapanRap”. Uma história longa e prazerosa.


O japonês tem um lado “fanopaico” bastante explícito, por conta dos kanjis e da arte caligráfica. Mas você considera uma língua musical? Em suas versões, você explora os lados sonoros e visuais desta língua?

Cecato: O difícil de entender em uma língua é o seu humor, os gestos e sons. Como estrangeiros diante de uma língua muito difícil de aprender, a gente muitas vezes não alcança o universo cultural japonês. Quem sou eu para julgar, mas, seguindo um princípio oriental, onde há silêncio há som, e vice-versa. Na sonoridade, vejo parecenças com a nossa, brasileira. Acho que dá para gingar em japonês.


Suas apresentações combinam música, poesia, performance corporal e artes plásticas. Como você busca integrar e fazer interagir essas disciplinas?

Cecato: Sou ligada a isso tudo. Em 2002, consegui realizar um espetáculo, que era quase utopia, em termos de Brasil. A concepção do espetáculo “Caleidocosmos” era unir várias manifestações artísticas, usando profissionais maravilhosos.

Aconteceu no MAM do Rio de Janeiro, escolhi 17 poemas do Augusto de Campos e do Haroldo de Campos, que se relacionassem à arte ou artistas contemporâneos, a escultora Iole de Freitas instalou uma de suas “velas” fantásticas, Vania Dantas Leite compôs a música eletroacústica, Gisela Maria Moreaux fez a coreografia, eu cantei e me relacionei com a escultura e com a música, como se fossemos um só corpo.

Mais recentemente, conheci a Mana Bernardes e fui no ateliê dela. Adorei tudo e acabei usando, na festa de lançamento do meu último CD (“Pimenta Rosa”), no Rio de Janeiro, luvas e cenário feitos por ela. Gosto de estar envolvida com esse mundo.


Seria possível falar em influências ou referências desses outros campos em sua música, seja nas apresentações ou em suas composições?

Lica Cecato: Poderia citar inúmeros artistas de outros campos que me influenciaram: Mirian Muniz, Flávio Império, Ivaldo Bertazzo, o desenho de Escher, os quadrinhos de Eva Furnari, de Crumb, a artista Annie Lennox, Ito Band (Japão), Ryuichi Sakamoto... Posso citar inúmeras influências, mas se a gente não restringir, vai passar a borda e só vai acabar no ano que vem! Admiro e sou influenciada por muita gente. Sou filha da antropofagia e uma consumista do que amo, e não é pouco.


Você disse já ter pensado algumas vezes em parar com a música mas, cada vez que decide, “a vida corre” e “oferece uma nova luz” no que vem fazendo. Você pode dizer quais razões a “desanimaram” e quais voltaram a lhe “entusiasmar”?

Cecato: O dinheiro e a solidão no produzir as coisas, esse fato de levar tudo no muque, me cansa muito. Mas não consigo parar e me lembro sempre do Mallarmé: um jogo de dados jamais abolirá o acaso. Quando você é fascinado pelo jogo, não pára. Eu sou fascinada pelo que faço e não paro, apesar da batalha e da canseira que às vezes um guerreiro sente.


O que você acha de uma certa “apropriação” da música brasileira (como “standards”, não só de samba, dos anos 50, 60 e 70) pela cena eletrônica européia.

Cecato: Conversei muito sobre isso com meus amigos na Europa e no Japão. Apesar de que mistério não se explica, e de que há o caso de fenômenos comerciais muitas vezes serem inexplicáveis, eu não me considero uma expert no assunto, mas diria que a nossa Bossa Nova é leve, as letras são muitas vezes descomprometidas, o ritmo é calminho, e acho que é o que os europeus e japoneses precisam agora, isto é, combina com eles.

É como se, por exemplo, existisse um medidor de bossa... A bossa que eles gostam é comedida, contida, e a mistura da eletrônica com os nossos hits do passado, os tais Brazilian standards, combinam muito. Para o Brasil, isso é sempre bom, mas já existiram momentos melhores, em que o músico brasileiro atuava mais ao vivo. Não é nostalgia, mas é puxar a corda para a música ao vivo! Viva a música! E, por agora, vamos esquecer os problemas de mercado. Hora de gozo não é hora de choro.


Você foi o primeiro artista brasileiro e a primeira do sexo feminino de qualquer nacionalidade a participar do Festival de Jazz de Ancara, na Turquia. Como foi essa experiência?

Cecato: Inicialmente tive receio, por ser uma terra muçulmana, eu ser mulher, indo fazer a apresentação para 700 pessoas, sozinha com meu violão. Na Turquia temos um embaixador que é um intelectual refinado, além de pessoa extraordinária. Chama-se Cesário Melantonio e nos conhecemos em Frankfurt, quanto Antônio (Dias, artista plástico, casado com Lica Cecato) fez uma exposição individual no Mathildenhöhe Institute, em Damstadt. Ficamos amigos, e foi também por mérito de seu estímulo e energia em tentar levar um pouco de Brasil para a Turquia, que me ajudaram a ir, a topar a parada. Meu contato direto com a organizadora do festival, Ozlem Varoglur, foi também muito positivo.

 
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