Leia um dos ensaios do livro "Céu acima", organizado em homenagem ao poeta Haroldo de Campos
Assim, libertado do grande público, libertado da crítica tradicional, que é, ao mesmo tempo, guia e escrava, livre da preocupação com a venda e sem qualquer consideração com a preguiça dos espíritos e os limites do leitor médio, o artista pode se entregar sem restrições às suas experiências.
Paul Valéry, "Variété"
Mais de dez anos antes de sua morte, e já envolvido com a tradução da “Ilíada”, com tudo que isso tinha, como se pode perceber agora, post mortem, de preparação da última viagem, Haroldo de Campos reivindicava o direito a uma certa “ciência”, e em nome disso a uma certa “impaciência”, e por conta de ambas antecipava muito do que viria a dizer naquela que parece ser a sua última entrevista. Essa entrevista, que começa com acentos intimistas, por uma apresentação, jamais feita antes, da família, meio irlandesa, meio quatrocentona, do poeta, e termina com um adendo, só aparentemente pequeno, a “O seqüestro do Barroco - O caso Gregório de Mattos na formação da literatura brasileira” -causa assim uma dupla comoção. De um lado, nos permite ouvir, materialmente falando, e como numa liturgia, a última voz do poeta. De outro, nos faz chegar às mãos, em testamento, suas últimas ciências e impaciências.
De fato, olhando bem, já estava tudo lá em “Crisantempo”, essa lira dos 60 anos de Haroldo, que deve ser, ao lado de álbuns como “Xadrez de Estrelas”, “Galáxias” e “A máquina do mundo repensada”, o que de melhor foi feito, em poesia brasileira, no último meio século, embora não se tenha podido perceber completamente isso ainda, até por falta de recuo temporal. Em certos belos versos melancólicos em que já o vemos querendo exilar-se em sua casa e em seu trabalho, de volta a Ítaca, finalmente, depois de tantas viagens. Versos como estes, da seção “personagens”:
mas vi tudo isso
tudo isso e mais aquilo
e tenho agora direito a uma certa ciência
e a uma certa impaciência
por isso não me mandem manuscritos datiloscritos telescritos
porque sei que a filosofia não é para os jovens
e a poesia (para mim) vai ficando cada vez mais parecida
com a filosofia
e já que tudo afinal é névoa-nada
e o meu tempo (consideremos) pode ser pouco
e só consegui traduzir até agora uns duzentos e setenta versos
do primeiro canto da “Ilíada”
e há ainda a vontade mal-contida
de aprender árabe e iorubá
e a necessidade de reunir todas as forças disponíveis
para resistir a mefisto e não vender a alma
e ficar firme
em posição de lótus
enquanto todos esses recados ambíguos (digo: vida)
caem na secretária eletrônica.
Ou como estes da seção “entre vênus e minerva”, em que nos fala da chatice da velhice:
a oca ocre o tédio
o eixo médio
o sem-remédio
o epicédio
É esse ennui que faz “ciência” rimar com “impaciência”. Até porque todos esses versos não escondem que são declinações de outros de um outro grande poeta brasileiro, dos mais presentes ao recolhimento final de Haroldo, a que os acontecimentos também entendiam (“les événements m´ennuient”, reclamava ele). Trata-se do Carlos Drummond de Andrade de “Claro enigma”, ele também posto “entre lobo e cão”, quer dizer, entre a noite e o dia, ou entre a morte e a vida, e igualmente pronto assim acusar o golpe da “terrível prenda da madureza”, que chama de “ingaia ciência”: “A madureza sabe o preço exato/ dos amores, dos ócios, dos quebrantos,/ e nada pode contra sua ciência/ e nem contra si mesma. O agudo olfato,/ O agudo olhar, a mão, livre de encantos, se destroem no sonho da existência”.
É de spleen que se trata em suma. E a arrastada e perfeccionista recriação de Homero, que se estende por mais de uma década, teria tudo a ver com essa gravidade “pós-tudo” de um Haroldo curado da doença infantil do modernismo, que agora se rende a uma filosofia “que não é para jovens”, como quem fecha o círculo de sua vida. De fato, desde “Galáxias”, obra-prima do começo dos anos de 1980, de que poderíamos dizer, em puro estilo haroldiano, que é mallarmeanamente um livro, ainda cheio de fé na modernidade, o concretismo, em que a crítica abespinhada continuou (e continua) a enclausurar toda a sua obra, já não descrevia mais o poeta por inteiro. Num inesperado recuo dos epigramas tão alegremente antidiscursivos do período rebelde, ele já se preparava aí, nesse flamejante poema em prosa de surpreendentes longuras narrativas para o nado de peito clássico que seria, a julgar pelas rimas dantescas perfeitas de “A máquina do mundo”, a sua última e irônica posição, de tradicionalista atemporal. Já largava mão de todos aqueles jogos formais ilustrativos do “fim histórico do verso” que se tornariam, findas as escaramuças da fase heróica, uma marca da poesia brasileira contemporânea, fazendo do concretismo uma das mais produtivas tradições recentes de nossa literatura. Mas se, à medida em que foi vendo “tudo isso e mais aquilo”, o poeta concretista foi ficando disfórico e filósofo antigo, como ele mesmo reconhece, é de se perguntar, então: nesse caso, “não vender a alma” seria persistir em quê? Que significaria, ao fim e ao cabo, permanecer impávido “em posição de lótus”? (A mesma posição atribuída por Haroldo a Severo Sarduy no elogio fúnebre “Para um tombeau de Severo Sarduy”, note-se). Que resta, enfim, no Haroldo que vai dos anos de 1990 ao novo milênio daquele ativista revolucionário que, como já se disse, só fazia sentido na radicalidade?
Muito do que é dito na entrevista que se segue pode e deve ser ouvido à luz desses momentos de “Crisantempo”, e vice-versa. Dada a Thelma Médici Nóbrega (que fez doutorado sobre Haroldo, comigo na PUC), numa tarde de maio de 2003, no sobradinho do bairro das Perdizes, com espantoso vigor agonístico para quem estava tão perto do fim, a entrevista reinterpreta esses versos, ao mesmo tempo em que esses versos a interpretam, e ambos nos permitem ler o poeta, como diria Valéry, por cima dos ombros. De fato, cotejadas as declarações do Haroldo tradutor que acaba de vencer a prova de fogo da recriação dos 24 cantos e 16 mil versos do texto-fonte com as palavras do Haroldo poeta de “Crisantempo”, o que se declara é a garra leonina (ele era, aliás, do signo de Leão!) do Haroldo crítico. “Manter viva a enteléquia”, depois de tudo, é não se conformar nunca com certas idéias feitas sobre a literatura brasileira, certa visão de nossas artes letradas nos termos exóticos de um caráter brasileiro -o “Guarani cavalheiresco”-, não só apartado do universal mas defasado em relação a ele. Daí um Haroldo-que-não vendeu-a-alma a afinar ainda suas armas críticas, e a nos ditar, em testamento, a continuação do livro em que mais firmemente se posiciona contra esse logos nacional: “O seqüestro do Barroco na formação da literatura brasileira - O caso Gregório de Mattos".
Na parte conhecida desse pequeno (só no tamanho) volume de 1989, que é o décimo- primeiro de uma série de 17 trabalhos de reflexão crítica publicados em vida por Haroldo, e que está hoje vertido para o inglês e o espanhol, sem que tenha deixado de causar um enorme mal-estar por aqui, o que explica a censura do silêncio que sobre ele continua pesando, o autor nos havia mostrado, ao arrepio da interpretação magistral da história da literatura brasileira por Antonio Candido, como a poesia trabalha contra as funções práticas do discurso ordinário, a referencial e a emotiva, ou a “comunicativo- expressiva”, e como ela é, assim, uma estranha língua desfuncionalizada, auto-referencial e metalingüística. Com isso, havia lançado uma suspeita em relação à tese de que nossas primeiras letras legitimamente nacionais seriam as que, ao cabo de uma aclimatação penosa e de uma evolução por saltos decisivos, enveredaram pela reportagem de temas locais, pondo-se a representar a realidade do país, e se ampararam na resposta de uma recém-formada camada de leitores, os consumidores de folhetins, na altura do romantismo. E tudo isso punha à prova a “Formação da literatura brasileira”, que, até então, só havia encontrado os seus Eckermann (para lembrarmos o amigo adulador de Goethe), mas não debatedores que lhe respondessem “às instigações mais provocativas”.
Como se pode depreender da entrevista que mais adiante se publica, se tivesse vivido para completar essas considerações, que vieram dar direito de cidade a um Barroco literário nacional, representado por um artífice sem público e sem papas na língua, mas nem por isso menos brasileiro, nem menos preparador de nossa modernidade -Gregório de Mattos-, estava em preparação, no produtivo canteiro de obras do mezzanino da casa da rua Monte Alegre, e talvez lá se encontre, ainda, neste momento, em alguma pasta, aguardando publicação póstuma, uma segunda rodada de reflexões, ainda mais atiladas, em torno de uma outra questão, a esta pertinente. A questão de saber se seria historicamente procedente a hipótese de Candido que nos inscreve na literatura portuguesa como num mau começo, segundo o seu bem conhecido enunciado, cheio de metáforas naturalistas: “nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas”.
Temos aí um dos motivos mais acatados de nossa historiografia literária. Mas, para Haroldo, que se põe a repensá-lo, em voz alta, na entrevista, uma formulação que não está à altura das melhores de um mestre que ele é o primeiro a homenagear, como na dedicatória da “Morfologia do Macunaíma”, e que segue em outros pontos, mas não nesse. O pequeno acréscimo trazido pela entrevista ao texto conhecido de “O seqüestro do Barroco” é sutil. Haroldo joga com o fato de que, por mais de meio lustro, de 1580 a 1640, Portugal foi espanhol, sob Felipe Segundo. É o que faz valer para argumentar que não era à literatura portuguesa que estávamos submetidos, nos primórdios letrados da colônia, como quer a “Formação”, mas àquela a que então se submetia, e de que então se nutria, a própria literatura portuguesa: a espanhola. Daí, segundo ele, os poetas mais referencialmente portugueses do período serem tão castelhanos. Não apenas isso, mas quando, no século XVII, aqui se implanta uma civilização barroca -que nos conquista tanto quanto a conquistamos, para pôr as coisas numa via de mão dupla-, a literatura espanhola em que nos inspirávamos estava em seu apogeu, num “século de ouro”.
Nessas circunstâncias, não seria assim tão tranqüilo tomar a literatura colonial brasileira como o ramo secundário de um outro ramo idem, fazendo dela uma espécie de cópia da cópia, mas conviria parar para pensar na importância da brilhante tradição de que ela parte. Nessa sua nova incursão ao pensamento de Candido, Haroldo vai “da fonte até o vale”, como recomendava Walter Benjamin, de quem ele é um atento leitor, que se fizesse. Revendo a ambientação histórica de nossa cena primitiva, pode assim substituir a habitual referência lusa por uma outra que a engloba e modifica qualitativamente e, ato contínuo, problematizar ainda mais a hipótese acerca da precariedade da vida do espírito aqui nas paragens americanas. De fato, se antes, na parte conhecida desta argüição, Haroldo desconstruía um certo enredo metafísico da “Formação”, convocan- do Jacques Derrida para destramar a narração das origens ali proposta, e verificava, graças a Roman Jakobson, que a leitura temático-nacionalista ali em vigor ignorava o autocentramento dos discursos literários, principalmente modernos, e privilegiava a comunicabilidade, mais própria das mensagens ordinárias, o que ele faz agora é ir às últimas conseqüências do argumento, sustentando, em tom elegante mas firme, que há na “Formação” um equívoco em relação... à própria formação, menos lusa que espanhola.
Seria ingênuo ver nesses propósitos de alguém que estava acabando, nesse mesmo momento, de traduzir a “Ilíada”, e que já sabia, de algum modo, de que não lhe restava muito tempo pela frente, um mero clima de opinião. Até porque Haroldo deixa uma obra crítica longa e consistente o bastante para que não lhe façamos a injustiça de tomar o que diz aí como uma malcriação (contra o Pai), mas como parte do desenvolvimento de uma linha reflexiva que tanto mais merece nossa consideração quanto originou, aqui, uma outra corrente de pensamento crítico, armada a partir de outros pressupostos, lingüísticos, filosóficos, estéticos, que não os de Candido, aos quais vem se somar.
Falemos de pressupostos estéticos. E a propósito, de um Haroldo francês, que, ao brigar assim com o texto seqüestrante, repercute idéias de um punhado de criadores de primeiro plano, que fizeram da dissidência, também no campo da crítica, o seu denominador comum.
1 - Haroldo de Campos, “Meninos
Eu Vi”, em “Crisantempo”, p. 92-93.
Trata-se de um poema do início
dos anos de 1990, como informa
uma nota à p. 355 de “Crisantempo”,
onde lemos que ele foi originalmente
publicado no antigo
suplemento “Letras” do jornal “Folha
de S. Paulo”, em 02/03/1991.
2 - “saturnum in aquario ascendentem”,
idem, p. 46.
3 - Tirada de um Paul Valéry
septuagenário, essa é a epígrafe
de “Claro enigma”. Falo mais longamente
sobre isso no capítulo
“Drummond Engomado” de meu
livro “Sobre a crítica literária brasileira
no último meio século”, Rio de
Janeiro, Imago, 2002.
4 - Carlos Drummond de Andrade,
“A ingaia ciência”, “Claro Enigma”,
Rio de Janeiro, Nova Aguilar,
2002, p. 248.
5 - Como demonstra a recorrência
da palavra “concretismo” no pequeno
livro de Manuel da Costa
Pinto, “Literatura brasileira hoje”,
São Paulo, Publifolha, 2004.
6 - “ele – herdeiro heráldico passeando
pela mão regedora do senhor
barroco/ seu voluntarioso principado
de jovem crisóstomo criollo/
até sentar-se em posição de lótus
no café de flore/ entre menta e
limões cortados que lucilam feito
cristais citrinos/ recolhendo no
vôo o debrum amarelo-fogo de
uma ouropêndula/ caligrafada
por tu-fu”. Cf. “Para um tombeau
de Severo Sarduy”, “Crisantempo”,
p. 113.
7 - Cf. Leyla Perrone-Moisés, “O
teórico e o crítico”, dossiê “Haroldo
nas Estrelas”, caderno “Mais”,
“Folha de S. Paulo”, 14/9/2003.
8 - “É preciso olhar os livros por
cima dos ombros do autor”. Paul
Valéry, “Rhumbs”, « Tel quel - Oeuvres,
II”, Paris, Gallimard/Pléiade,
1960, p. 626.
9 - “Da Razão Antropofágica: Diálogo
e Diferença na Cultura Brasileira”,
“Metalinguagem & outras
metas”, p. 237.
10 - “O seqüestro do Barroco na formação
da literatura brasileira - O
caso Gregório de Mattos”, 1989,
p. 27.
11 - Idem, p. 12.
12 - Antonio Candido, “Prefácio
da Primeira Edição”, “Formação
da literatura brasileira: Momentos
decisivos”, Belo Horizonte/Rio de
Janeiro, Itatiaia, 1993, p. 9.
13 - “o Barroco americano, como o
definiu Lezama Lima, é uma ‘arte
da contraconquista’. A esse processo
chamamos, desde Oswald de
Andrade, ‘devoração antropofágica’”,
em “O seqüestro...”, p. 65.
14 - Walter Benjamin, “Le surréalisme”
em “Mythe et violence”, Paris,
Denoël, 1971, p. 297.
15 - Trato disso mais detidamente
no capítulo “Notas para uma
conclusão” de meu livro “Sobre a
crítica literária brasileira no último
meio século”, aqui já citado.