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MODAS

A “língua do P” na moda
Por Carlos Alberto Dória

Daslu e Daspu disputam o monopólio do belo no verão mal comportado de 2006

“É a carnavalização”, sentenciará o antropólogo ou sociólogo bem treinado e capaz de reconhecer na oposição Daslu/Daspu um avesso da ordem colocando as manguinhas de fora. Os dois mundos invertidos podem ser acessados pela internet com a simples troca de uma consoante, como na “língua do p” dos jogos infantís (www.daslu.com.br/ www.daspu.com.br).

Mas há uma disputa, por trás do “p”, em torno de um vago direito ao belo e contra aqueles que querem exercer o seu monopólio. Tanto é que a Daslu sentiu o golpe e pôs seu advogado a dizer que se tratava de um "deboche, visando denegrir a imagem da loja". Inteligentemente não alegou concorrência desleal, visto que a camiseta da Daspu custa apenas R$ 20.

Denegrir é tornar negro o que é branco. O mesmo que aviltar, ou tornar vil o que é nobre. E, de fato, lá estavam as mulatinhas e as negonas, desfilando alegres as roupas da nova grife sobre os paralelepípedos das ruas do centro velho do Rio de Janeiro, cenário da vida profissional. Sim, há uma “denigração” em tudo isso.

Os idealizadores da boa sacada de marketing (inteligente pelo que tem de crítica social) não perdem a oportunidade para politizar a coisa. "É uma vitória contra a Daslu e contra tudo o que ela representa num país como o nosso", diz Gabriela Leite, presidente da ONG Davida, nos seus 15 minutos de fama fora do círculo de ferro do chamado “terceiro setor”. Mas, não há dúvida, o modo irônico da crítica social está valendo.

Mulheres boazinhas se vestem ou querem se vestir na Daslu. São mulheres bem comportadas e que só se movimentam no circuito do ar-condicionado: da casa para o carro, do carro para o shopping, do shopping para o restaurante e, de novo, para casa... É como quer ser Bruna Surfistinha, essa garota que não prestou atenção na fábula do Chapeuzinho Vermelho e para quem um laiser passer da Daslu teria sentido redentor: “Não importa o que fizemos, o importante é aprendermos com os nossos erros, corrigirmos e darmos a volta por cima!!” (sic).

Ao contrário, “Somos más/ Podemos ser piores” estampam no peito as dasputetes. Quase uma frase-paródia de “Todos os anões nascem pequenos” (filme de Werner Herzog, 1970), onde o líder da rebelião dos anões faz ver aos diretores do reformatório que o fato de serem bons ou maus não muda em nada o comportamento de terceiros em relação a eles. Então, por que seriam bons? Assim também são as prostitutas. As ditas “pessoas de bem” querem vê-las pelas costas.

“As mulheres boas vão para o céu, as mulheres más vão para qualquer lugar”, eis o programa das novas modetes das ruas. O céu, já advertia Fernando Pessoa, é muito chato. Lá, Nossa Senhora fica a tecer meias nas tardes da eternidade, enquanto o Espírito Santo, empoleirado, cata piolhos com o bico...

O incêndio parece inevitável. Betty Lago já mudou de lado e fez um bico no desfile da Daspu. Luana Piovani (moça inteligente e dedicada, gastou seus últimos seis meses a ler um livro “maravilhooooso”, “Cem Anos de Solidão”, e ficou apaixonada pelo Gabo...), já se diz cansada do narizinho lindo e vermelhinho de Gisele Bündchen. Monotonia há no céu e na terra. É contagiante. Ou bem se lê um pouco mais (por exemplo, “Memórias das minhas putas tristes”, do mesmo Gabriel García Márquez) ou bem se pega carona em assuntos momentosos.

Quando a Daslu era uma butique fechada, escondida, à qual só tinham acesso os (as) bacanas, a ninguém poderia ocorrer ter sucesso fazendo-lhe blague. A discrição de classe até parecia uma medida de cautela... Mas, quando a Daslu se tornou um estrondoso empreendimento público, esfregando na cara de todos que só quem tudo pode é que pode, sua marca passou a ser objeto de consumo geral, de desejo também de excluídos. Ninguém poderia impedir que a turma da arquibancada montasse o seu carnaval em torno do nome hipervalorizado através da mídia. Moda é isso: exclusão e inclusão permanente em domínios simbólicos considerados belos. Quem está fora de uma moda, inventa o cais e inventa mais.

A Daspu é uma grife que brota da economia informal. Como centenas de outras. Clones de Zoomp e Forum podem ser comprados livremente nos camelôs das grandes cidades. Assim é também no pólo de moda íntima de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Lá tudo começou com a falência de uma grande confecção, quando um grande comerciante de tecidos resolveu arrematar as máquinas de costura e revendê-las, financiadas, para as costureiras desempregadas. Hoje são 600 estabelecimentos de produção formal e informal que detêm 25% do mercado brasileiro de calcinhas e sutiãs. O grande fornecedor desta indústria é a Du Pont.

A lingerie que ali se produz é, em 70%, para o uso cotidiano; 6% para o uso noturno; 14% são as lingeries “sensuais” (que abastece as sexy-shop), e o restante para crianças inocentes e atividades aeróbicas de marombeiras. Diariamente, milhares de “sacoleiras” chegam a Nova Friburgo de ônibus, pela manhã, dirigem-se aos vários camelódromos, se abastecem e, à noite, quando a fiscalização é mais amena, voltam para seus estados. Um exército de formigas. Abastecidas, viajam pelo sertão, vendendo em prestações mensais de até R$ 1 para mulheres que, de outra forma, não teriam roupa íntima. A fonte do design da moda íntima informal é a cópia. Revistas sofisticadas, editadas no mundo todo, circulam de mão em mão entre as costureiras de Nova Friburgo.

A economia informal, aquelas atividades que o Estado não consegue alcançar com os tentáculos do fisco ou da polícia, corresponde a cerca de 37% do PIB brasileiro, segundo o Fundo Monetário Internacional. Fazem parte dela vários segmentos econômicos: clones de setores industriais (remédios, peças de carros, cervejas, CDs e DVDs etc.), a prostituição, o tráfico de drogas, a lavagem de dinheiro e assim por diante.

Curiosa é a posição invertida entre a Daspu e a Daslu em relação ao mercado informal. A ONG que lança a marca Daspu luta pelo “reconhecimento da profissão”; o direito de dar nota fiscal ou recibo e o de recolher contribuições para o INSS. Já a Daslu, segundo a Polícia Federal, foi flagrada montando ampla rede de negócios na economia informal. A revelação de que estariam objetivamente do mesmo lado talvez tenha favorecido a apropriação alegórica da marca pelas prostitutas.

É provável que a Daspu venha a ser a moda do verão 2006, enquanto a Daslu enfrenta sérias dificuldades para se firmar no mercado desde que abandonou a discrição para se tornar estrondosa. Será uma espécie de carnaval como há muito não se fazia, desde quando grandes marcas se assenhorearam da avenida, com seus camarotes vips, onde se acotovelam cinco séculos de ACMs -espécie de fantasma-que-anda da política brasileira, sempre disposto a falar grosso com o Estado, como no caso da ação da Polícia Federal contra a Daslu.

Do ponto de vista estrito da moda, o movimento de renovação é assim mesmo. As grifes vivem a ilusão de que “fazem a moda”, mas a moda é uma coisa objetiva, uma medida estatística: o ponto onde se aglomera o maior número de indivíduos de uma dada população. Se vendeu, é moda; se não vendeu, não é. Se, para atraí-los a este ponto, é preciso despender fortunas em publicidade, o fenômeno Daspu serve para mostrar que não há grana que supere a inteligência mercadológica quando o público quer mesmo é materializar a crítica social.

Se “gente da moda” já dá seu aval à Daspu é porque, objetivamente, o jogo já virou. Ao virar, não há dinheiro que salve as mulheres boas e o seu céu. As más vencerão, ainda que por um só verão. Mas não é caso de desespero. Se der certo, o big business da moda fará a contra-alegoria da rua. Afinal, tudo, na moda, é passageiro. Exceto os cobradores e os marqueteiros.

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Carlos Alberto Dória
É sociólogo, doutorando em sociologia no IFCH-Unicamp e autor de "Ensaios Enveredados", "Bordado da Fama" e "Os Federais da Cultura", entre outros livros.

 
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