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entrevista
BIOGRAFIA
O desafio de Freud “Estão tentando domesticar a psicanálise, que é na essência subversiva”, diz o psicanalista francês René Major Os psicanalistas franceses René Major e Chantal Talagrand preparam o lançamento de uma nova biografia de Sigmund Freud, neste ano em que o mundo inteiro comemora os 150 anos do nascimento do criador da psicanálise. Eles não pretendem, no entanto, escrever uma biografia convencional. Querem mostrar sobretudo por que Freud continua a ser atacado pelo caráter subversivo de sua descoberta.. “O livro começa pelo auto-da-fé em Berlim. Mas, se levarmos em conta o inconsciente, a cronologia rígida não tem mais muito sentido. A própria história em geral e a historiografia no que concerne a psicanálise não pode mais ser escrita como se fazia antes de Freud. Ele revolucionou até mesmo a maneira de se escrever a história”, assegura René Major, fumando um charuto em seu consultório, de frente para o rio Sena. Ele foi o idealizador dos Estados Gerais da Psicanálise, grande encontro de psicanalistas ocorrido em 2000, em Paris. Sem citar nomes nem entrar em detalhes sobre as rivalidades em relação à herança de Jacques Lacan, Major critica a necessidade de vassalagem nos grupos lacanianos e a “posição de soberania que se transmitiu na herança lacaniana e continua a causar problemas hoje”. O lançamento da biografia está previsto pela editora Gallimard para maio, mês do nascimento de Freud. Na entrevista a seguir, Major, autor de “De l’élection” (Da eleição), defende o engajamento político dos psicanalistas e suas responsabilidades com a história, comenta o livro “Moisés e o monoteísmo”, de Freud, e explica que a teoria da raça ariana pura entrava em colisão com a tradição religiosa da eleição do povo judeu. * Qual é o principal enfoque de sua biografia de Freud? René Major : Chantal Talagrand e eu decidimos descobrir como e por que periodicamente querem queimar Freud. Queremos mostrar que hoje as hostilidades se revelam de forma particular com o retorno de um neopositivismo, a idéia da eficácia terapêutica, da avaliação, do que seria a ciência. Querem tirá-lo da universidade e da psiquiatria. Estão tentando domesticar a prática psicanalítica, que é na essência politicamente subversiva. A psicanálise incomoda por causa do pensamento sociopolítico de Freud. Vê-se através de seu percurso como isso acontece e como ele pôde dizer: “Eu lutei toda minha vida contra minhas ilusões pessoais e contra as ilusões da religião e da política”. Através dessa biografia, vamos tentar mostrar, ao contrário da maioria das biografias de Freud que se desenvolvem da forma histórica clássica no plano cronológico, como a introdução dos tempos misturados faz com que possamos iniciar não no começo, porque o começo já estava também no fim. O livro começa pelo auto-da-fé em Berlim. Mas, se levarmos em conta o inconsciente, a cronologia rígida não tem mais muito sentido. A própria história em geral e a historiografia, no que concerne à psicanálise, não pode mais ser escrita como se fazia antes de Freud. Ele revolucionou até mesmo a maneira de se escrever a história.
Major : Há diversas maneira de ter uma participação política. Pode-se escrever um artigo sobre os acontecimentos políticos e pode-se tomar posição com um manifesto. Freud não fez declarações intempestivas sobre o que se passava no plano político. Ele fez uma análise. Na sua correspondência com Einstein ele não diz: “sou contra a guerra” ou “sou contra a pena de morte”. De maneira mais exemplar ainda, em “Moisés e o monoteísmo”, ele divulga outra versão para a história de Moisés, contrariando uma parte dos pensadores judeus. O que ele faz? É um texto muito complexo, que tem vários níveis de leitura. Para tomar apenas um, ele mostra Moisés como um nobre egípcio, que retoma o monoteísmo egípcio que tinha sido esquecido. Freud faz de Moisés alguém que reabilita no povo judeu o seu amor-próprio, esmagado no Egito, e o leva para a terra prometida. Mas, como a época em que escreveu o livro è também a do crescimento do nacional-socialismo –e na correspondência de Freud ele fala disso o tempo todo-, há uma pergunta absolutamente exemplar: por que o judeu é objeto de perseguição e por que mais que nunca se vive a pior barbárie, com uma regressão a uma época pré-histórica? Porque o nacional-socialismo desenvolve uma idéia delirante de ciúme em relação ao povo judeu. Freud diz: “Como se eles acreditassem na crença do povo judeu de que ele é o povo eleito”. Freud diz, em suma: “Os judeus não podem pretender que eles são o povo eleito”. Foi Moisés quem disse aos judeus que eles eram o povo eleito para restaurar o seu amor-próprio. Hitler afirma explicitamente: “Não pode haver dois povos eleitos, ou eles ou nós”. Hitler, no fundo, retoma a idéia de que a raça ariana é a detentora da eleição divina. Essa análise de Freud chocou muito, embora ele nunca tenha sido sionista, mesmo que nunca tenha negado sua origem judaica. Freud desconstrói a idéia de eleição do povo judeu. Como hoje, poder-se-ia fazer uma análise do que se passa na periferia de Paris, buscando, e isso seria uma análise freudiana, sobre o que essa violência repousa há duas ou três gerações de imigrantes. E é realmente possível que, depois de uma geração silenciosa, uma outra geração se revolte contra essa idéia de não ser realmente levada em consideração pelos outros franceses, de não ser recebida da mesma forma no trabalho, na hora de alugar um apartamento. Nesse caso, o psicanalista pode assinar uma petição, protestar efetivamente ou também fazer a análise histórica. É verdade que a grande maioria dos psicanalistas, e isso é grave, não leva em conta que essa prática é essencialmente política, na medida em que ela visa a liberdade do sujeito, e que esta liberdade não é totalmente independente da liberdade do cidadão. E como é possível que a maioria dos analistas possa embarcar, como os outros cidadãos, nessa espécie de neofascismo galopante em nossa época, tanto mais eficaz porque aprovado pela maioria da população? Acho que a psicanálise, através dos psicanalistas, tem uma responsabilidade considerável.
Major: Acabo de escrever uma conferência sobre as ambigüidades do retorno a Freud. Penso que era necessário, mas é preciso perguntar a que ele serviu. Acho que é o retorno a Freud é o retorno do próprio Lacan a Freud, é uma apropriação de Freud. Mas isso é a história da leitura feita por Jacques Derrida em seminário sobre “A carta roubada” e da instituição que Lacan fundou com o nome de Freud. Ele tinha razão em querer salvar ao menos em parte a psicanálise na França. Mas ele usa palavras muito duras. Diz que é preciso “limpar os estábulos de Augias”, o que é um julgamento um pouco sumário. Eu estava no Instituto de Psicanálise nessa época. Havia grandes nomes, como Schlumberger e Pasche, sobre os quais não se pode dizer que desonravam a psicanálise. Isso tudo foi vivido como uma luta política no interior da instituição psicanalítica e do movimento psicanalítico na França, que é preciso reconstituir no seu contexto, o que é muito complicado.
Major : Sim, mas ao mesmo tempo eu diria que a contribuição de Lacan, com a discussão que ele introduz –e sua confrontação com a literatura, a filosofia, a antropologia etc.- foi muito importante para a implantação da psicanálise na França no plano cultural. Desse ponto de vista, não teria havido essa implantação aqui, se as coisas tivessem se passado como na Inglaterra ou mesmo nos Estados Unidos, onde a psicanálise ficou fechada sem se difundir na cultura. Isso é muito importante, e acho que Lacan teve nisso um papel essencial para que tenha existido posteriormente Deleuze, Ricoeur, Derrida e muitos outros, que foram impregnados pelo pensamento psicanalítico, o que não aconteceu em outros países. Se examino o que se tornou o movimento lacaniano hoje, a partir da fundação da Escola Freudiana, vejo que Lacan se apropriou do retorno a Freud de uma maneira soberana, sem dividir jamais essa soberania. Há uma frase, por exemplo, da sua correspondência com Perrier, no momento em que Perrier, Piera Aulagnier, Valabrega e outros deixam a Escola Freudiana por causa do passe. Lacan escreve: “Vocês me deixaram sozinhos quando da fundação da escola” -o que é discutível já que eles foram co-fundadores. Mesmo na adversidade não se funda uma associação sozinho, funda-se com outras pessoas. Eu compreendo essa declaração de outra forma: “Fundo sozinho, como sempre estive na minha relação com a psicanálise e como cada um é sempre sozinho na sua relação com a psicanálise”. Daí essa declaração de Lacan de que “o analista na prática só recebe autoridade dele mesmo e não da instituição”. Nisso, claro, estou totalmente de acordo. Mas, no momento dessa cisão, ele escreve: “Ou vocês estão todos comigo ou todos sem mim”. Então, é preciso fazer vassalagem, e é essa posição de soberania que, penso, se transmitiu na herança lacaniana e continua a causar problemas hoje.
Major : A priori, penso que não, porque se tratava de uma conjuntura excepcional, como acontece uma vez por século, quando todas as condições são reunidas para que algo se passe. Schorske descreveu perfeitamente o que era a Viena do fim do século XIX e início do século XX, onde não havia uma tradição filosófica, mas havia Wittgenstein. Em Viena, a irmã de Wittgenstein faz sua análise com Freud. Há um ambiente cultural favorável ao nascimento da psicanálise. Não é suficiente, foi preciso que houvesse o gênio pessoal de Freud e foi um caminho muito complicado, sinuoso que o conduziu à invenção da psicanálise, depois de passar pela hipnose, pela catarse etc. Mas o que acho muito importante do ponto de visto político, e penso que em Freud isso está presente do início ao fim, é o que ele diz numa carta a Romain Rolland de maneira exemplar: “Passei minha vida me desfazendo de minhas ilusões e das ilusões da humanidade”. Isso é verdade, tanto na prática analítica quanto no plano sociopolítico. Penso que não há ruptura no que Freud diz sobre a prática analítica e sua análise do coletivo, da guerra, do mal-estar na civilização ou na religião. É a partir do momento em que ele se liberta progressivamente de todos os condicionamentos, de tudo que limita _ a hipnose limita, a catarse também _ que ele finalmente encontra o que limita menos, o que deve libertar o sujeito. Esse é o caminho excepcional de Freud. Então, é preciso analisar suas relações pessoais com a família, sua cultura, esta facilidade de se desfazer muito rapidamente, mesmo com erros, de tudo o que o marcou no início.
Major : Na época do lançamento do livro, o jornal “Libération” me pediu uma crítica. Eu perguntei qual era a opinião deles. Disseram-me que achavam o livro medíocre, detestável. Eu lhes disse que eles é que deveriam escrever isso. E tive prazer de ver duas críticas que não vinham de psicanalistas, principalmente a do editor do jornal “Charlie Hebdo”. Cabe à imprensa tomar posições, pois os psicanalistas podem parecer que defendem seus interesses, o que não impede que desenvolvam argumentos contra o que se passa com esse gênero de fenômeno. O que é interessante no editorial de “Charlie Hebdo” é que ele mostra que não é um fenômeno que diz respeito apenas à psicanálise, mas existe também em relação à literatura, à filosofia -no centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre, “Le Nouvel Observateur” publicou na capa “É preciso queimar Sartre?”. Jean-Luc Nancy mostrou no “Le Monde” como atacam sistematicamente Heidegger e Freud. Ora, o que os cognitivistas ressuscitam é o respeito ao código positivista com o menosprezo de tudo o que o pensamento freudiano desenvolveu e que não se reduz nem se resume à metafísica, nem à ciência, no sentido que se dá ao termo até Freud. Querem recuar um século.
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