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Neste ponto, o papa se socorre na visão neoliberal sobre o Estado para justificar a necessidade do chamado “terceiro setor”, onde a Igreja se inscreve. Um Estado que busca atender a todas as necessidades humanas “torna-se no fim de contas uma instância burocrática” e, por isso, “não precisamos de um Estado que regule e domine tudo, mas de um Estado que generosamente reconheça e apóie, segundo o princípio de subsidiariedade, as iniciativas que nascem das diversas forças sociais e conjugam espontaneidade e proximidade aos homens carecidos de ajuda. A Igreja é uma destas forças vivas”.

E justamente porque não se deve esperar do Estado que seja eficaz, “nasceram e desenvolveram-se numerosas formas de colaboração entre as estruturas estatais e as eclesiais, que se revelaram frutuosas”. Organizações caritativas, filantrópicas, diversas formas de voluntariado, correspondem às formas históricas de engajamento dos católicos na busca de “soluções satisfatórias” face aos problemas sociais e políticos; formas que o papa valoriza na história da instituição para vê-las renascer, agora à sombra do Estado

Este desengajamento dos católicos da política, oferecendo-lhes um mergulho no chamado “terceiro setor”, deve produzir um efeito oposto àquele que se seguiu às encíclicas “políticas” -como a “teologia da libertação” e o forte engajamento dos quadros leigos e religiosos da Igreja nas lutas sociais. A compreensão papal do “terceiro setor” como espaço de caridade e de colaboração com o Estado corresponde também à afirmação doutrinária de que a pobreza é eterna, assim como o seu oposto, a riqueza. Mais uma vez, a Igreja que Sua Santidade pretende reformar se projeta na história como um dos pilares da ordem. Difícil imaginar como eros, em sua “loucura divina”, possa ser tão complacente ao se integrar no mundo.

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Carlos Alberto Dória
É sociólogo, doutorando em sociologia no IFCH-Unicamp e autor de "Ensaios Enveredados", "Bordado da Fama" e "Os Federais da Cultura", entre outros livros.

 
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