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RELIGIÀO

O papa e o tesão
Por Carlos Alberto Dória

Encíclica de Bento XVI propõe o saneamento de eros e da política para o católico vivenciar o desejo sexual e a ação social

Houve época em que uma encíclica não era pouca coisa. Mesmo para os não-católicos. Definia orientações políticas da Igreja como, por exemplo, ao tempo de João XXIII e a chamada “opção preferencial pelos pobres” que foi o ponto de partida da “teologia da libertação” e toda a mistura que se seguiu -esdrúxula, aliás- de catolicismo e marxismo.

Mas a Igreja era outra, assim como o indiferentismo religioso ou a influência de doutrinas não-cristãs sobre o mundo. Agora, parece que finalmente o papa foi substituído por um filósofo com uma razoável vaidade intelectual e na vestimenta (não nos esqueçamos dos seus sapatos Prada, cor vermelha...) e é este filósofo católico, Joseph Ratzinger, que se esconde sob as vestes de Bento XVI, que pretende conduzir o leitor a uma reflexão sobre o amor, sendo suas principais formas o amor erótico e a caridade.

Desta reflexão, espera o papa, deve nascer, de um lado, uma nova atitude diante do prazer e, de outro, uma nova institucionalidade da Igreja face às formas históricas de opressão que se expressam na pobreza e abandono das massas humanas. Neste sentido, a encíclica que agora aparece em língua portuguesa é, em suas quase 50 páginas, um esforço revisionista que se volta para a compreensão do outro, seja ele o amante ou o objeto do amor coletivo -a comunidade cristã. Na trajetória revisionista, Ratzinger tanto procura recuperar a reflexão sobre eros -abandonada pela Igreja- quanto se detém sobre as encíclicas mais “políticas”, editadas pelos seus antecessores das décadas de 60 e 70 do século passado.


A erudição como forma

Mas a encíclica “Deus Caritas Est” (“Deus é Amor”, expressão que, em português, fica parecendo um desses adesivos de carro que anunciam Deus como um aditivo) exige um conhecimento maior do que a fé. Conhecer Platão, Descartes, os pais da Igreja, ter um razoável domínio do grego, são requerimentos para quem pretenda discutir “de igual para igual”. Para os católicos, evidentemente, isso não é necessário, pois a autoridade de Sua Santidade faz o papel do convencimento. Porém uma visão crítica do texto papal é sempre possível.

Talvez a Igreja deste papa venha a ser aquela que renunciou ao populismo carismático, ao combates travados na história, ao corpo a corpo com os evangélicos que a ameaçam nos calcanhares, em prol de um elitismo esclarecido e sólido. A Igreja dos poucos, porém bons. De qualquer forma parece ser a primeira vez em que o mais alto nível hierárquico do catolicismo se detém sobre o entendimento do tesão ou da lubricidade, o que confere importância incomum a este documento.

Do ponto de vista dos problemas sexuais da Igreja é até um documento tímido, pois não cita uma vez sequer o celibato, o homossexualismo ou a pedofilia entre padres. Não são temas propriamente religiosos, mas estão ai, expostos, a desafiar a autoridade da Igreja e, claro, a fé dos fiéis. Restringe-se ao “amor entre o homem e a mulher” (eros), o que naturalmente exclui os que fizeram a opção pelo amor a Deus acima de todas as outras formas de amor. Outro silêncio importante, já que se propõe a criticar o próprio passado da Igreja, é a respeito do combate à contracepção, inclusive ao uso da camisinha, quando a Igreja associava sexo exclusivamente à reprodução.


O saneamento do impulso e do vício no amor

Na nova exegese do texto bíblico o papa nos explica que dentre as formas de amor expressas em grego -eros, philia (amor de amizade) e ágape— “eros” aparece apenas no Velho Testamento, sendo a palavra posta de lado nos escritos neo-testamentários apesar desta forma de amor corresponder a um arquétipo que ofusca todos os demais tipos.

Eros, reconhece o papa, não nasce da inteligência e da vontade, mas “impõe-se ao ser humano” e sua marginalização pela Igreja mereceu, da parte de Nietzsche, a acusação de que o cristianismo havia dado veneno para beber a eros. É desta condenação que o papa-filósofo quer redimir a Igreja em sua primeira encíclica.

Ao eros pré-cristão, que subjuga a razão, que se impõe como uma “loucura divina”, traduzido nos cultos da fertilidade ou na prostituição “divina” que prosperava nos templos, se opôs o Antigo Testamento na sua construção do Deus único. Assim, dirá o papa, ficou claro que “eros necessita de disciplina”, já que a infinitude que o amor promete só se alcança não se subjugando ao instinto.

“Nem o espírito ama sozinho, nem o corpo”, diz Sua Santidade, e portanto não é o cristianismo adversário da corporeidade, opondo-se porém à degradação de eros reduzido a puro “sexo” ou mercadoria“. O eros quer-nos elevar “em êxtase” para o Divino, conduzir-nos para além de nós próprios, mas por isso mesmo requer ‘’um caminho de ascese, renúncias, purificações e saneamentos”, pontifica.

Criticando as discussões filosóficas e teológicas anteriores, o papa vê no ágape a própria condição de existência de eros sem se degradar ou se perder, sem se tornar “vício”, dada a sua característica de um amor ambicioso e possessivo. No entanto, dirá, a fé bíblica é necessária para se ver o amor como “uma única realidade, embora com distintas dimensões”. E, de fato, não se pode imaginar que eros se submeta a qualquer fronteira senão por ação da auto-limitação do sujeito por renúncias, asceses e saneamentos auto-impostos, formas modernas de penitência e flagelação.


Uma compreensão materialista abandonada

É clara a opção do papa por combater à sombra e não debater as explicações de eros no pós-Iluminismo, particularmente nas versões materialistas, freudianas e pós-freudianas. É nesse período que eros se liberta definitivamente da religião, se apresentando como elemento constitutivo do humano tanto quanto qualquer forma de linguagem que nos molda.

Para o leigo que olhe para a história do pensamento é sedutor, por exemplo, o raciocínio de Anthelme Brillat-Savarin, autor do conhecido livro ‘’Phisiologie du gôut ou Méditations de gastronomie transcendante``, aparecida em 1825. Ele nos oferece uma reflexão sobre a questão do prazer em geral, seja ele gustativo ou sexual. Para Savarin, o gosto é uma espécie de “consciência do agradável”, estruturado como um sexto sentido, o “sentido genésico” ou erótico.

Savarin censura as ciências por terem praticamente ignorado este sentido que é responsável tanto pela reprodução do indivíduo quanto da espécie. Se não fosse ele, só comeríamos movidos pela fome, pela dor, como um animal. Mas a consciência do agradável nos move em busca do prazer. O mesmo se verifica em relação à sexualidade, sendo difícil imaginar a reprodução como fim consciente agindo em todas as relações sexuais e sem a interveniência do gozo, do prazer imediato.

Mas o sentido genésico não percebe o mundo por si só, visto que depende dos demais sentidos como guias para se situar em relação aos objetos externos. Ele é “o julgamento da alma sobre as impressões que o órgão lhe transmite”. Assim, tanto o comer quanto a reprodução são assegurados por um impulso em direção à saciedade, que, para Savarin, foi inscrito no homem por Deus para que ele realizasse a sua finalidade no mundo dos seres vivos. Em outras palavras, para Savarin há algo de divino no tesão, em toda a sua crueza.

Ainda que Darwin não abrace a teleologia de Savarin (o desígnio divino inscrito na espécie humana), ele procura demonstrar como age a seleção sexual enquanto fundamento da evolução da espécie humana, se sobrepondo ao princípio da “seleção natural” ou sobrevivência dos mais aptos na diferenciação dos seres humanos. A fêmea do pavão escolhe o seu macho pela beleza da cauda e o macho perdeu a condição de voar ao desenvolver a sua belezura e, do mesmo modo, o homem escolhe suas parceiras por atributos físicos, ainda que estes tenham sido desenvolvidos de modo cultural, ensina Darwin no seu ‘’A Origem do Homem e a seleção sexual``, aparecido em 1871.

Os atributos físicos do homem e da mulher são expressos no plano da linguagem como qualidades desejadas. É o modo como a cultura desenvolve os ideais de beleza, força, virilidade ou delicadeza em cada grupo humano mais ou menos isolado. As estruturas de poder dentro do grupo são, ao mesmo tempo, estruturas de apropriação desses atributos, determinando a sua distribuição desigual (o chefe que, por direito, tem mais mulheres) e operando como princípio ativo de seleção.

Assim, a visão puramente materialista das formas do desejo não deixa de estar contemplada no plano da vida simbólica que principia exatamente quando uma regra qualquer, como o tabu do incesto (“o homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne”, Gênese, 2,24), impõe ao desejo, antes puramente animal, uma direção cultural.

É nesta intersecção entre natureza e cultura que se situa o “Id” freudiano, e vários autores modernos puderam representá-la como um campo de tensões entre a animalidade e a linguagem, entre o instinto e as formas simbólicas do amor. Estas tensões se resolvem de várias maneiras, e esta é a riqueza do pensamento moderno: as soluções inventadas pelos homens não se resumem à forma mercantil do amor que a encíclica condena. E salta à vista, por exemplo, o quanto de religioso persiste em um sem número de representações profanas do amor, como na obra do Marquês de Sade.

Georges Bataille, em seu livro ‘’As lágrimas de Eros``, procura mostrar o substrato comum entre o sagrado e o profano no domínio da sexualidade. Ele aproxima, de maneira engenhosa, o êxtase religioso e o êxtase sexual ao ver estampado, no rosto da ‘’Pietà`` de Michelangelo, a expressão do gozo. Vê também na ereção de caçadores desenhados em pinturas rupestres uma excitação produzida diante do antegozo da morte. Aliás, o gozo, na língua francesa, recebe o nome de “pequena morte” (petit mort), evidenciando um trânsito diminuto, provisório, entre a vida e a morte, entre a individualidade momentaneamente suprimida e a integração com o outro, com o absoluto.

Ao escolher Nietzsche para encarnar a visão antitética do amor para a Igreja, Joseph Ratzinger passa ardilosamente ao largo da pluralidade de visões que a modernidade produziu, especialmente aquelas derivadas do materialismo, nele se incluindo a descoberta do inconsciente por Freud e as formulações mais “antropológicas” de Wilhelm Reich. Assim, por mais que modernize a visão católica sobre eros não deixa de nos propor um caminho anacrônico, situando o fiel numa tradição de pensamento que pouco diz sobre o seu tempo. É como se, de novo, Bento XVI pusesse seu fiéis diante do dilema vivido por Sansão, tal e qual permite uma leitura fundamentalista da passagem bíblica: ao se entregar a Dalila, Deus o abandona e Sansão perde a sua força, simplesmente porque um homem não pode servir a dois senhores -a Deus e à paixão por uma mulher.


A Igreja que se quer “terceiro setor”

Outra forma de amor analisada pela encíclica é a caridade -o amor ao próximo. Esta remete o filósofo ao momento igualitário da comunidade de cristãos, onde não existem as diferenças entre pobres e ricos porque tudo é partilhado. Quando este princípio é quebrado, a Igreja estabelece a “diaconia”, isto é, “o serviço do amor ao próximo exercido comunitariamente e de modo ordenado”, a caridade.

Ao mesmo tempo, “a caritas-agape estende-se para além das fronteiras da Igreja”, sendo ela a incubadora desta prática voltada para minorar os sofrimentos na pobreza. Neste ponto, Sua Santidade ataca o pensamento marxista, acusando-o de simplificação, já que “os pobres (...) não teriam necessidade de obras de caridade, mas de justiça. As obras de caridade -as esmolas- seriam na realidade, para os ricos, uma forma de subtraírem-se à instauração da justiça e tranqüilizarem a consciência, mantendo as suas posições e defraudando os pobres nos seus direitos”.

Não lhe ocorre lembrar que, para Marx, a pobreza era uma forma transitória da opressão a ser abolida como todas as formas de opressão, pois para o papa a “caritas-agape” tem na pobreza um estado permanente que, por isso mesmo, exige uma atitude de minoração dos sofrimentos que engendra. “Sempre haverá sofrimento que necessita de consolação e ajuda. Haverá sempre solidão.”

Embora se louve nas encíclicas “Mater et Magistra” (1961), “Populorum Progressio” (1967) e “Octagesima Adveniens” (1971), nas quais as causas da pobreza são explicitadas em termos históricos e sociológicos, empurrando a Igreja para a posição secularizada de um agente de mudanças, Joseph Ratzinger recua e agora situa a Igreja como grupo de pressão sobre o Estado para que este assuma a condição de verdadeiro promotor da justiça: a Igreja “tem o dever de oferecer, por meio da purificação da razão e através da formação ética, a sua contribuição específica para que as exigências da justiça se tornem compreensíveis e politicamente realizáveis”.

1 - Ver o texto na íntegra, em português, em http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est_po.html

 
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