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entrevista
ETNOGRAFIA
A democracia vista de perto O antropólogo Marcio Goldman estudou durante seis anos o envolvimento político de um grupo social em Ilhéus, na Bahia O que a antropologia tem a dizer sobre o comportamento dos eleitores e, de modo mais amplo, sobre o funcionamento da democracia? Esta é a pergunta e o desafio assumidos pelo antropólogo e professor do Museu Nacional (UFRJ), Marcio Goldman, em um livro ainda inédito (e à procura de uma editora): “Como funciona a democracia: uma teoria etnográfica da política”. Levando adiante a tradição antropológica, firmada sobretudo na etnografia e no trabalho de campo, Goldman procura pensar um problema “grande” -o funcionamento do sistema político moderno, a democracia- por meio de um recorte “pequeno” -no caso, o envolvimento político de um grupo de pessoas que vivem na cidade de Ilhéus (sul da Bahia) e integram um segmento do movimento negro, além de serem adeptos do candomblé. O primeiro passo para uma análise como essa, ressalta o autor, é levar a sério o que essas pessoas -não apenas eleitores, mas atores da cena política local- têm a dizer, ainda que o seu discurso possa contrastar com os pressupostos da democracia representativa. A finalidade de uma tal abordagem, sugere Goldman, é produzir uma “teoria etnográfica”, fazer com que as idéias do analista sejam “afetadas” pelas idéias dos outros e, no caso, problematizar a democracia como ideal abstrato a partir da descrição de seu funcionamento concreto, envolvendo pessoas e situações concretas. O trajeto que conduziu a este livro remonta ao início dos anos 1980, quando Goldman realizava pesquisas sobre a noção de pessoa entre os adeptos do candomblé em Ilhéus. Aos poucos, ele passou a se interessar pelo modo como essas pessoas viviam e interpretavam os processos políticos de sua cidade e de seu país. Depois de realizar uma longa incursão pela história e epistemologia da antropologia -que resultou no livro “Razão e afetividade” (Editora da UFRJ, 2004), estudo sobre a obra do antropólogo Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939), e na coletânea “Alguma antropologia” (Relume Dumará, 1999)-, ele voltou a Ilhéus, em 1996, ano de eleições municipais, para iniciar a pesquisa sobre política, apenas concluída em 2002, quando da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. “Como funciona a democracia” não se limita à descrição das situações relacionadas às eleições municipais e nacionais, apresentadas de modo não cronológico. O livro promove um debate intelectual instigante, cruzando a etnografia com as idéias de autores, como Jeanne Favret-Saada, Michel Foucault, Paul Veyne, Pierre Clastres, Gilles Deleuze e Félix Guattari. Dos dois últimos, parceiros na autoria do “Anti-Édipo” e dos “Mil platôs”, Goldman toma emprestado alguns conceitos-chave, como o de “segmentaridade” e de “aparelho de captura”. O livro de Goldman pode, finalmente, ser lido sob a chave da atualidade. Num tempo de crise e decepção na política, como aquela desencadeada pelo PT no ano passado, o problema de como funciona a democracia parece fazer todo sentido. Poderia essa teoria etnográfica, desenvolvida a partir da pesquisa de campo em Ilhéus, lançar luz sobre alguns dos acontecimentos que marcaram a “grande” política brasileira nos últimos tempos? Este é um dos pontos desenvolvidos por Goldman na entrevista que segue. * Você afirma que a idéia de escrever este livro foi despertada pela vitória de Collor sobre Lula em 1989. Você poderia falar mais sobre a relação entre os acontecimentos de 1989 e a pesquisa que você passou a realizar, a partir de 1996, em Ilhéus? Marcio Goldman: Em 1989, eu estava escrevendo minha tese de doutorado sobre história da antropologia, mais especificamente sobre a obra de Lévy-Bruhl. A campanha eleitoral de 1989 foi uma coisa muito forte e, contra todas as expectativas, houve o segundo turno entre Collor e Lula; e, ainda contra todas as expectativas, o dia da eleição chegou com as pesquisas dando um empate. Mas o resultado, como se sabe, foi a vitória do Collor. Evidentemente, a minha primeira reação, como a de muitos outros, foi me perguntar por que as pessoas tinham votado daquele jeito, por que tinham votado em um sujeito duvidoso, ligado às elites, e não em um representante das classes populares ou dos dominados. Acreditávamos que o povo deveria ter votado no Lula. E as explicações para isso eram muitas: os eleitores foram enganados, são alienados, mal informados etc. Do senso comum às explicações ditas científicas, a argumentação parecia ser sempre do mesmo tipo: os eleitores foram manipulados pela mídia, o debate foi editado pela rede Globo etc. Num determinado momento, no meio desta confusão emocional, me ocorreu a idéia de estudar esses processos. Este seria um tema interessante a ser pesquisado por meio de técnicas antropológicas tradicionais, que envolvem pesquisa de campo. Eu queria entender aquilo do ponto de vista das pessoas que estávamos acusando de terem votado errado, entender o que elas tinham a dizer a respeito de tudo isso. Eu tinha uma relação já antiga com um grupo de pessoas de Ilhéus, no sul da Bahia. Boa parte delas faz parte de uma grande família, de uma seção de um bairro pobre da cidade, tendo ligações com o candomblé e com o movimento negro. Eu sabia que elas tinham algum envolvimento político, embora não soubesse, na época, exatamente como isso se dava. Eu sabia também que elas tendiam votar de um modo que eu considerava, digamos, conservador.
Goldman: Se bem me lembro, Collor venceu as eleições em Ilhéus. Mas, entre as pessoas com quem eu viria a trabalhar, a diversidade dos votos foi maior do que eu imaginava. Muita gente votou no Lula, e muita gente votou no Collor. A proporção entre eles era, creio, como a proporção dos habitantes da cidade e do país. Não havia nada especialmente significativo no modo como eles tinham votado. Eu já tinha contato com eles havia mais de dez anos, então pensei que poderia fazer uma pesquisa sobre política, tentar entender como o voto funcionava do ponto de vista deles. Em 1996 houve eleições municipais, e fui para Ilhéus para acompanhá-las. 1989 já estava muito longe, mas descobri que as pessoas tinham muito mais a dizer sobre a política e as eleições do que os cientistas sociais costumamos imaginar, e que, se não reduzíssemos as coisas que essas pessoas diziam àquilo que já acreditamos saber -ou que imaginamos que eles não saibam-, poderíamos apreender certas dimensões do processo político para as quais o nosso ponto de vista de cidadãos de classe média, eleitores de uma certa tendência política, nos torna mais ou menos cegos ou tímidos. Isso tudo foi resultado de uma experiência curta de campo: passei menos de dois meses lá, mapeei o envolvimento deles nas eleições municipais. Eles falavam muito da eleição municipal de 1992, pois ela tinha sido muito importante para o movimento negro local, que teve então uma participação decisiva.
Goldman: As pessoas com quem eu tenho relação fazem parte de um segmento do movimento negro, que se autodenomina movimento afro-cultural e que é diferente da seção local do MNU (Movimento Negro Unificado), que eles classificam como movimento político. O MNU sempre tendeu, em Ilhéus, a acompanhar o PT enquanto o movimento afro-cultural tinha uma tendência a ficar com políticos de outros partidos; em geral, de “direita”. 1996 foi um momento singular, pois o candidato apoiado por eles era do PSDB e o vice, do PT. Peculiaridades do PSDB baiano, que era contra a coligação do PSDB com o PFL, partido do ACM. Então o PSDB de Ilhéus acabou se juntando com o PT, mas isso durou muito pouco. Em 1998, com as novas eleições nacionais, o prefeito de Ilhéus se aproximou do PFL e passou a apoiar o governo FHC mais claramente. E aí o PT rompeu a aliança. Em 2000, o mesmo prefeito se reelegeu, não mais numa coligação com o PT, mas com o PFL. O meu maior tempo de campo foi próximo das eleições nacionais de 1998. Eu fiquei uns seis meses em Ilhéus, acompanhando o envolvimento dos membros do movimento afro-cultural no processo eleitoral. É claro que isso era uma parte muito pequena do que eles faziam, eles não gastavam tanto tempo assim com política. Eu queria fazer uma etnografia no sentido tradicional: queria entender o que as pessoas faziam, o que elas pensavam. A vida delas envolvia candomblé, apresentações de música, mas também relações com os políticos. Eles são contratados para se apresentar em comícios, em shows etc. E dizem muita coisa sobre o processo político.
Goldman: Desde o começo a minha questão básica era: será possível levar a sério o que essas pessoas têm a dizer, não apenas sobre candomblé ou sobre manifestações “afro-culturais” -isso os antropólogos aceitam com mais facilidade, ainda que seja para tomá-las como crenças dos outros-, mas sobre a democracia? O que eles dizem sobre a democracia que, nesse caso, é a minha crença? Há uma inversão engraçada: quando eu estudei candomblé, eu tinha diante de mim a situação clássica da antropologia: eles são os crentes, eu sou o analista. Mas quando eu falava de política com eles, eles me tratavam como crente, e me perguntavam o tempo todo: “Você acredita nisso mesmo?”, “Você acha mesmo que se os caras ganharem a eleição, alguma coisa vai melhorar?”, “Eles não são todos iguais?”. Enfim, eles falavam coisas que todo mundo fala, e nós, analistas, temos o hábito de desqualificar imediatamente proposições como estas. As pessoas dizem isso, pois são mal-informadas, mal-intencionadas, manipuladas, enganadas, alienadas, sofrem da falta educação política etc. Um discurso como esse se encontra em diferentes lugares: na sociologia eleitoral, na ciência política, nos jornais, nos partidos políticos etc. O que há de comum entre todas essas visões é que ninguém está a fim de levar a sério o que essas pessoas estão dizendo. Vou dar um exemplo grave. Uma frase que todo mundo já ouviu e acha repugnante é a seguinte: “Todos os políticos são iguais”. Quando eu cheguei a Ilhéus essa era a frase que mais me fazia tremer, era como que a condensação da alienação política. Mas devemos lembrar que o desafio da antropologia é levar a sério afirmações “aparentemente irracionais”. Essa frase toca num valor muito quente para o antropólogo enquanto cidadão. Minha aposta era: será que consigo levar a sério o que essas pessoas têm a dizer não apenas sobre os orixás, mas também sobre a democracia? E se fizéssemos uma experiência e tudo se passasse como se elas também estivessem qualificadas para falar sobre democracia? Aprenderíamos algo sobre o modo de funcionamento desse sistema? Acredito que essas pessoas são capazes de nos revelar pedaços dessa máquina e desse funcionamento, que nós geralmente não enxergamos justamente porque temos um comprometimento excessivo com eles. Neste caso, essas pessoas parecem ter algo de antropólogos, devido à sua posição de distância em relação a valores, que temos como absolutos -a democracia, a justiça social etc.
Goldman: Eu fui progressivamente descobrindo que eu não estava estudando o movimento negro de Ilhéus. Na verdade, o meu objeto -e o título do livro traz isso- é o sistema político dominante e não as relações de poder que essas pessoas mantêm entre si, tampouco as relações que elas mantêm com o sistema político dominante. Se eu tiver de apontar qual é o objeto de minha investigação, eu diria que este é a democracia, o sistema político ocidental. Se os antropólogos podem estudar os sistemas políticos africanos, podem também estudar os sistemas políticos ocidentais. Há várias maneiras de fazer isso, é claro. Eu escolhi uma delas, que foi fazer uma espécie de triangulação com pessoas que estão envolvidas com esse sistema, mas que têm uma posição mais distante, excêntrica, e cujo olhar pode ajudar o nosso, próximo demais desse sistema e dos valores que o norteiam. Eu chamei isso de “desvio etnográfico” -desvio no bom sentido da palavra, isto é, caminho alternativo. Tudo o que eu falo sobre o movimento negro, sobre os terreiros de candomblé, sobre as relações daquelas pessoas entre si não é tanto o objeto de investigação, mas uma espécie de “desvio etnográfico” necessário para poder falar do verdadeiro objeto que estava em jogo, o sistema democrático.
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