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FHC fala sobre os medos do Brasil e diz que teme envelhecer
Por Esther Hamburger

Para presidente, o PT deveria ter a "sabedoria de não assustar os outros"

O medo predomina depois dos atentados aos Estados Unidos e dos ataques americanos ao Afeganistão. Medo do terrorismo, medo de avião, medo de viagens, medo de armas químicas, medo de uma imensa crise mundial.

Para os brasileiros, eles devem ser acrescentados aos nossos medos antigos e muito resistentes: medo da violência, medo da cidade, medo da polícia, medo do desemprego, medo da recessão, medo do presente e do futuro.

Nessa entrevista exclusiva a Trópico, o presidente Fernando Henrique Cardoso relaciona esses medos com a perda de paradigmas. A redefinição do papel do Estado, das nações, dos governos, da cultura, da escola, das corporações, da mídia e da família gera incertezas e inseguranças que inspiram medo, segundo ele.

Na conversa, o presidente equilibra a sua percepção como político com o raciocínio do sociólogo e autor de uma das principais análises do Brasil, expressas em livros como “Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional” e “Dependência e Desenvolvimento na América Latina”.

A um presidente, é preciso indagar sobretudo sobre o seu próprio país. É o que aconteceu na entrevista, feita em São Paulo. Fernando Henrique Cardoso fala sobre segurança pública, a relação entre pobreza e violência, a perspectiva de uma crise econômica no Brasil, a corrupção e as expectativas das eleições presidenciais.

Para ele, uma crise econômica de fato ameaça o Brasil: “Não há dúvida de que, se a recessão mundial se consolidar, será um problema”, afirma. Ele aconselha o Partido dos Trabalhadores nas eleições presidenciais: “A oposição mais passível de chegar ao governo, que é o PT, deveria ter a sabedoria de não assustar os outros”. Ele também critica setores da Igreja: “CNBB, MST são nesse aspecto, retrógrados, arcaicos, pertencem a uma outra etapa do capitalismo, outra etapa de luta”.

O presidente diz não ter medo de ficar para a história como um neoliberal _ele define o seu governo como social-democrata. E revela na entrevista o seu medo pessoal: “A coisa que eu mais temo é perder a capacidade de inovar ou de, pelo menos, entender a inovação dos outros, porque isso é um envelhecimento. Eu temo o envelhecimento.”


A violência tem aumentado muito no Brasil e na América Latina, gerando nas pessoas um sentimento constante de medo. Nos Estados Unidos, agora, o temor é de um novo ataque terrorista. Como o sr. interpreta esse crescimento da violência e do medo, bem como a ameaça do terrorismo?

Fernando Henrique Cardoso: Nos Estados Unidos, na América Latina e no Brasil, a sensação que temos é de insegurança. No cotidiano sentimos medo de muitas coisas, mas o medo mais elementar é o da violência _a violência física. Nos anos 70, isso era muito comum nos Estados Unidos. Nova York era uma cidade na qual não se podia andar. Os Estados Unidos eram o símbolo dessa violência gratuita. Em Nova York, isso vinha sendo resolvido por meio de medidas que aumentaram a segurança pública. A violência, na forma não-política, lá parou de crescer, para voltar agora na forma do terrorismo, que coloca questões para além da segurança pública, atingindo o âmbito da defesa nacional. De agora em diante, novos medos vão se espalhar, atormentando os americanos.

O que o Brasil e o mundo devem temer após os atentados aos Estados Unidos e os ataques americanos ao Afeganistão?

FHC: É preciso evitar que as medidas antiterrorismo limitem as liberdades civis e estimulem atitudes de intolerância.

Qual o papel do Brasil nessa situação?

FHC: O Brasil tem a vantagem do convívio entre religiões e culturas sem intolerância. É preciso estimular isso e proclamar ao mundo como uma virtude nossa.

O que se pode fazer para diminuir a violência nas cidades brasileiras e, consequentemente, o medo que ela produz?

FHC: Experiências internacionais mostram que medidas que aumentam a segurança pública são efetivas no combate à violência. É bom, por exemplo, estimular um convívio mais próximo entre a comunidade e o guarda. Em vez de estar trocando de guarda a toda hora, os mesmos guardas podem fazer o policiamento dos mesmos lugares. Esses guardas de quarteirão andam a pé, para poder ter mais relações com as pessoas. Num país como o Brasil, onde não há uma polícia efetivamente profissional, isso é mais complicado, porque as pessoas, as vezes, têm medo da polícia.

Especialistas, como Paulo Sérgio Pinheiro, afirmam que a polícia é responsável pelo aumento da violência. O que fazer para que ela deixe de ajudar a produzir violência e medo?

FHC: Há várias coisas a serem feitas, e a principal não é o aumento de salário. Por exemplo, o salário da polícia do Distrito Federal, em Brasília, ou mesmo de São Paulo, não é baixo. No Distrito Federal, o piso é R$ 1 mil. Em São Paulo, é próximo disso. O problema principal é a falta de profissionalismo. Não adianta dobrar o piso salarial, se o sujeito continuar a fazer bico, se ele continuar a ser, não propriamente um policial, mas um cara que se vira.
Além do mais, existem algumas polícias militares com uma diferença salarial muito grande entre o comando e a base. Isso gera insatisfação. Não é assim no Exército. Nas Forças Armadas, a diferença é relativamente pequena, e há uma preocupação em não aumentar essa diferença, para estimular uma solidariedade maior.
Em muitas das polícias militares, os de cima ganham muito, e os de baixo, proporcionalmente aos de cima, ganham pouco. Os de cima aspiram a ir logo para a reserva, e vão depressa, jovens, para trabalhar em empresas de segurança. E os de baixo já estão trabalhando nessas empresas, nas horas vagas. Aí a situação não tem jeito.
Um segundo problema é a tensão permanente que existe entre a Polícia Civil e a Polícia Militar. E, mais, a tensão com o Ministério Público. Isso teria que acabar. Nós agora temos o Plano Nacional de Segurança, que estipula que só daremos recursos adicionais para os Estados que tiverem pelo menos um comando único das duas polícias e tenham dado passos para que elas progressivamente se associem.
No Pará, no Ceará e no Rio Grande do Sul, já existem esforços nesse sentido. Enfim, há problemas que não se resolvem do dia para a noite, mas que são solucionáveis num certo prazo.

Além da violência pública, que outros tipos de violência e medo precisam ser enfrentados?

FHC: Falamos de violência física na rua. Mas em casa também há violência, por exemplo, a mulher que apanha do marido. Para casos de violência doméstica, tem que haver outros mecanismos de controle: a denúncia, a delegacia de mulher, campanhas da sociedade civil contra a violência... Agora, a esse medo físico se acrescentam medos mais complexos, o medo da falta de perspectiva, da falta de estabilidade. E estabilidade não só na economia, mas em tudo. Quando aumenta o desemprego, certamente deve dar uma angústia maior, aumenta o medo também. Quando diminui o desemprego, esse medo também diminui. Mas é gozado como o desemprego some rapidamente do noticiário quando ele cai.

Qual a relação entre pobreza e aumento da violência?

FHC: Não é verdade que exista uma relação direta entre pobreza, desemprego e violência. Achar que é o pobre quem rouba, que é o desempregado quem assalta, é preconceito e é mentira. Em muitas situações, como na África, por exemplo, em regimes tribais, com muito baixo nível de vida, não há violência. Mesmo em situações comunitárias, rurais, no Brasil, onde o nível de vida é baixo, não existe essa forma de violência. A violência doméstica, sim, essa existe nesses contextos.

A cidade antigamente era o lugar da segurança, como diz Teresa Caldeira em artigo para este site. O que ocorreu que elas se transformaram em espaço de violência e medo?

FHC: Na Europa medieval, principalmente, havia muito medo. Mesmo no século XVIII, na França, antes da Revolução Francesa, na época da grande fome, as pessoas tinham medo de andar nas estradas, porque havia assalto. Era muito maior o medo no passado. As pessoas têm a sensação de que está cada vez pior, o que não é verdade. Agora se tem acrescido problemas de medo relacionados, por exemplo, a assalto na estrada ou violência no trânsito.
A cidade foi criada para oferecer defesa aos cidadãos. Agora essa proposição se inverteu. E, como se tem uma estrutura de classes, os ricos se defendem, criando uma polícia própria. E muitas vezes essa polícia própria acaba sendo também um elo com o crime. Vê-se freqüentemente o seqüestro estando também ligado com o próprio sistema de segurança.

Segundo Max Weber, o monopólio da força é uma das definições do Estado. O que acontece quando o Estado perde o controle sobre a força?

FHC: É a anomia. Esse é um problema talvez mais difícil de se lidar na sociedade contemporânea, em países como o Brasil. Na Europa, você hoje tem muito menos isso. Depois de um certo nível de estabilidade e prosperidade, isso diminui muito. Aqui as pessoas têm medo da rua, embora não seja em toda parte. Eu não sei se há alguma pesquisa para verificar realmente a que corresponde esse medo, se corresponde a um risco efetivo ou a um risco subjetivo. Porque o medo e a violência se transformaram também em matéria comercial. A máquina de informação é muito grande e como ”good news, no news“, há uma espécie de exacerbação do foco das atenções na violência e no medo.

O que seria esse risco subjetivo?

FHC: Toda vez que você perde os paradigmas, o controle da situação, e não sabe o que vai acontecer, você tem medo. Desde que eu era estudante de sociologia caracterizávamos a nossa como altamente mutável. Isso também produz insegurança. E o que leva ao medo é a insegurança. As pessoas não entendem o que está acontecendo, não entendem os mecanismos.
Acho que numa sociedade como a nossa, de alta mutabilidade, a coisa mais importante para diminuir a angústia é aumentar a dose de informação. Mas não informação solta. É preciso mais explicação. Infelizmente, nós estamos assistindo a um crescimento da informação e uma diminuição da explicação - a informação é usada como escândalo, e não se dá a explicação, porque a explicação diminui a força do escândalo.

O sr. poderia citar um exemplo?

FHC: Com a crise da Argentina, e também a crise mundial, com a crise do apagão, era de se prever que a taxa de desemprego aumentasse. Bem, na verdade, nesses últimos tempos ela não aumentou. E o nível de emprego, que é outra coisa, tem aumentado, menos do que vinha em seu impulso inicial, mas houve um aumento. Qual foi a explicação que deram? Foi uma explicação catastrófica: a taxa de desemprego não aumentou porque, diante da gravidade da crise, as pessoas teriam desistido de procurar emprego.
Não há nenhuma base científica para dizer isso. É até provável que o desemprego aumente, daqui a pouco, mas o pessoal já vem com uma hipótese catastrófica, que não tem nada a ver com os mecanismos reais do que está acontecendo. E a hipótese catastrófica aumenta o medo. As pessoas ficam com tanto medo do que vai acontecer, que antecipam o acontecimento e inventam uma causa absurda para justificar a coisa. O antídoto para esses momentos de angústia, de aflição, é ter mais explicação.
O medo que as pessoas tinham das transformações na época em que surgiu a máquina a vapor deve ser semelhante ao medo que se tem hoje da globalização. Hoje as pessoas têm medo .... Os jornais anunciam a globalização sob a forma de catástrofe. A máquina a vapor, a industrialização, o desemprego, a tragédia, Dickens _aqui, no Brasil, não houve nada disso, nessa proporção. Por isso eu digo: é um engano pensar que estamos indo cada vez para o pior. Não estamos. Mas a sensação é essa. O que aconteceu? Rompido um paradigma, não se entende o que vem depois. E esse é o problema que dá mais angústia.

O que seria o novo paradigma?

 
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