CIÊNCIA
O catálogo universal da vida, por Paula Sibilia
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entrevista
ECONOMIA

Muita arte e alguns vinténs
Por Carlos Adriano

Livro do economista holandês Hans Abbing procura explicar por que os artistas são pobres

Nascido em 1946, em Utrecht (Holanda), Hans Abbing é artista visual, economista e sociólogo. Essa confluência de especialidades será fundamental para sua principal contribuição às reflexões interdisciplinares. Em 1970 ele obteve o título de mestre em economia na Universidade de Groningen, e entre 1971 e 1976 trabalhou como pesquisador no Instituto de Pesquisa da Faculdade de Economia dessa universidade.

A partir de 1983, Abbing passou a exibir obras como desenhista e fotógrafo, cujos temas são o corpo humano e o retrato. Expôs em galerias européias (Berlim, Montpellier, Londres, Amsterdã) e recebeu por duas vezes as bolsas da Fundação Holandesa para as Artes Visuais (FBKV), por seu trabalho em desenho (1995) e em fotografia (2004).

Em 2002, no mesmo ano que recebeu o título de doutor na Universidade Erasmus de Roterdã, ele publicou “Por que os artistas são pobres? A economia excepcional das artes” (“Why are artists poor? The exceptional economy of the arts”, Amsterdam University Press, Amsterdã).

Às vezes ressentindo-se de um inevitável eurocentrismo e correndo o risco de escorregar no fatalismo liberal, o livro aposta em indagações curiosas, foge do estereótipo idealista do assistencialismo e chega a conclusões “polêmicas”, como o argumento de que subsídios às artes mais atrapalham a dinâmica da sociedade de artistas do que ajudam sua produção.

Nesta entrevista concedida por e-mail, Abbing comenta a contingência de pobreza entre artistas, a mudança trazida pelo fim do Estado de Bem-estar Social na Europa, os mitos permanentes do artista “marginal” em nichos do mercado mundializado e algumas das reflexões que aprendeu com a produção de seu livro.

Aqui, “artista” refere-se às artes ditas clássicas (pintura, escultura) e contemporâneas (instalação, performance) do “tradicional” sistema artístico, estranho ao mercado dos meios de comunicação de massa. Advertência necessária quando se fala em economia, pois estes não são os artistas da indústria do entretenimento (música pop, televisão, cinema) que tem como correlato redundante a celebridade midiática e as cifras milionárias do showbiz.

Abbing reparte seu tempo entre a criação e a academia. Desde 2005, é professor de sociologia da arte na Universidade de Amsterdã, na Faculdade de Ciências Sociais e Comportamentais e na Faculdade de Humanidades.

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A maioria dos artistas é pobre; entretanto, um contingente imenso de artistas aparece em cena a cada ano, mesmo reconhecendo a dura luta para construir uma carreira. Por quê?

Hans Abbing: Jovens que desejam se tornar artistas tendem a ser muito ansiosos e assim tendem a ignorar a informação disponível sobre as poucas chances de se alcançar o sucesso nas artes. Não é diferente do esporte. No entanto, no esporte a informação é mais clara e após algum tempo é mais difícil de ignorar. As exigências do esporte, incluindo sua própria realização, são mais fáceis de se medir, e logo a pessoa decide se juntar aos muitos amadores em lugar dos profissionais. Além do mais, as artes ainda têm uma aura romântica, que as torna mesmo mais atraentes.


Por que alguns desistem e outros continuam?

Abbing: É difícil dizer por que um artista desiste mais cedo do que um outro, enquanto ambos alcançam pouco ou nenhum sucesso igualmente. Suponho que devido à educação, alguns sejam mais teimosos e outros mais oportunistas, ou apenas mais sábios. Alguns começam a formar famílias, e enquanto um parceiro está disposto a apoiar o artista, outro parceiro exige que o artista traga dinheiro para casa também.


Como funciona essa fascinação permanente da arte e qual é o papel desta fascinação num sistema de compensações, que faz um indivíduo sobreviver no seu sustento de modo a realizar o sonho?

Abbing: A disposição dos artistas em trabalhar por remunerações baixas é compensada, ao menos em alguma medida, por outras formas de renda. Fazer arte talvez dê mais prazer do que fazer outro trabalho, e em média dá ao artista algum status especial. Freqüentemente, mesmo o artista fracassado ainda pode derivar algum “status” da condição de ser artista.


Ao mesmo tempo há artistas que são muito ricos. Como explicar essa dinâmica geral (o artista pobre, o artista rico, o contínuo movimento do sistema)? Esses elementos estão interconectados?

Abbing: Existe este mecanismo de que pequenas diferenças presumidas na qualidade podem causar imensas diferenças de rendimento. As pessoas investem nas estrelas. Muitas teorias podem explicar isso. Assim como empresas contratam um advogado que é um pouco melhor do que outros, as pessoas também vão buscar vencedores nas artes -tanto em âmbito local como mundial. Nas artes, mais do que em outras áreas, os muitos perdedores também aumentam a estima e a renda dos vencedores.


Transformações no sistema econômico podem interferir na economia das artes. Como o fim do Estado de Bem-estar Social na Europa “contribuiu” para a economia das artes?

Abbing: O Estado do Bem-estar Social na Europa tornou relativamente fácil a entrada no meio das artes e a permanência no ramo das artes. Desde que o Estado de Bem-estar perdeu a força, isso ficou mais difícil, mas não tanto. Em vez de artistas vivendo do seguro social em muitos países europeus, eles agora podem usar novos esquemas especialmente criados e destinados para aqueles que não podem viver das artes. Isso é mesmo mais atraente para os artistas interessados, porque, dentro de uma sociedade em transformação, receber benefícios sociais tornou-se menos aceitável moralmente para os próprios artistas.


Como a nova divisão do trabalho numa sociedade midiática altera o papel e a ideologia do artista? Não há mais espaço para o artista como visionário? Seria ele apenas mais uma engrenagem na indústria do entretenimento?

Abbing: Os papéis dos artistas estão sempre em movimento e certamente o estão numa sociedade que se torna mais e mais midiatizada. É também verdade que o apoio aos artistas visionários tornou-se levemente menos forte do que há 20 anos atrás. Além do mais, um pequeno grupo de artistas estabelecidos pode agora trabalhar para a indústria de entretenimento sem ser muito condenado por isso pelo mundo das artes. No entanto, tenho a impressão de que, como a Ordem Romântica ainda é muito presente em nossa sociedade, há ainda muito apoio e lugar para o tipo de artista anterior, e também haverá por um longo tempo.


Qual é o papel daquele mito romântico do artista iluminado, “le maudit”, “o marginal”, na corrente economia?

Abbing: Pode-se perguntar se, tanto na arte apoiada por governos como na arte financiada comercialmente, ainda há lugar para a arte subversiva. Observando as novas artes, como música pop, rap, quadrinhos, dança break etc., percebo que há um pouco mais de espaço para a arte subversiva em nichos de mercado do que em áreas financiadas pelo governo. Entretanto, o principal espaço para a arte subversiva é e sempre foi nas áreas voluntárias e não remuneradas da produção de arte, seja nas ruas ou num quarto de estudante, áreas que sempre precedem e prescindem do envolvimento do mercado e do governo.


Este mito do artista underground (e consequentemente) antiburguês e pobre chegou a um fim?

Abbing: Não acho absolutamente que esses mitos tenham chegado a um fim. Eles podem estar menos proeminentemente presentes no comportamento de importantes artistas e críticos -e não em seus pensamentos ocultos-, mas estão geralmente muito presentes em nossa sociedade. A principal diferença em relação a centenas de anos atrás é que naquele tempo somente uma minoria de artistas se via como boêmios, enquanto que agora quase qualquer artista se identifica com a ideologia boêmia. Nesse sentido, todos são antiburgueses, isto é, contra a velha burguesia.


A arte hoje é moeda corrente na economia globalizada (museus, galerias, leilões, centros de cultura), numa cadeia planetária de mercadorias. Haveria um modo para o artista entrar na indústria comercial sem o risco de perder sua identidade pessoal ou “marca registrada”?

Abbing: Como já deixei implícito, especialmente nos níveis menores e nos nichos do mercado globalizado há ainda bastante espaço onde o artista pode manter e desenvolver sua identidade pessoal e aquilo que quer comunicar. Isso foi, é e sempre será constituído por uma minoria de artistas. Não há nada de errado nisso. Afinal, a produção de arte foi, é e sempre será a criação de produtos de entretenimento acima de tudo.


Numa das parábolas introdutórias que abrem os capítulos de seu livro, você se refere a uma experiência ligada ao Brasil sobre a disposição de um grupo de artistas em manter sua condição “marginal”. Como foi isso?

Abbing: Escrevi parte do livro no Recife e conversei com muitos dançarinos brasileiros “à margem” do circuito oficial, mas isso não no Recife, e sim em Amsterdã. Nos anos 90 havia muitos dançarinos brasileiros tentando a sorte na Holanda, que era internacionalmente conhecida pelos generosos subsídios governamentais, dos quais estrangeiros também podiam desfrutar.

Durante um período de dez anos, pelo menos 30 jovens dançarinos brasileiros trabalharam para mim como modelos, de modo a sobreviverem na Holanda. Acho que ao final somente um deles conseguiu obter êxito neste país -isto é, 3%. Essa percentagem poderia ou não ter sido mais alta se eles tivessem ficado no Brasil; provavelmente seria um pouco mais alta. De fato, se é que estou certo, artistas tendem a ver horizontes mais promissores do outro lado da colina.


Que comparações você faz entre as situações do Brasil e da Europa? Quais são, se existem, as diferenças para um artista pobre viver num país pobre da América do Sul e um artista pobre viver num país rico da Europa?

Abbing: Eu conversava muito com esses jovens dançarinos. A impressão que tive então foi de que era ligeiramente mais fácil para um dançarino pobre viver num país relativamente pobre como o Brasil e ganhar sua vida como dançarino (mas não em “novas” áreas da dança). Num país relativamente rico como a Holanda, seria o oposto.

Entretanto, porque aqui o número de dançarinos dispostos a enfrentar o processo ultrapassa bem mais a demanda, parece-me que na Holanda é mais duro para dançarinos e outros artistas encontrarem trabalho remunerado. Aqui, porém, não achar trabalho suficiente e ganhar a vida com um segundo emprego é provavelmente mais agradável ou menos desagradável do que no Brasil.


Quais foram as conclusões mais intrigantes e surpreendentes que você descobriu durante a feitura do livro?

Abbing: A partir de minha própria prática, trabalhando como artista e tendo um segundo emprego na universidade, descobri que a preferência de trabalho não é apenas um conceito teórico, mas é algo que realmente se aplica a mim e a muitos de meus colegas. Por mais estranho que pareça, levei um longo tempo até perceber isto.

Quando, há 20 anos atrás, pude trocar um segundo emprego ruim e não tão bem pago por um pequeno emprego na universidade, usei o dinheiro extra não para comprar um carro ou algo similar, mas para aumentar as horas em que poderia trabalhar como artista. Por escolha própria, passei a trabalhar na universidade menos horas do que trabalhava antes naquele emprego de remuneração menor. Nunca tinha olhado para mim mesmo desse jeito.

Como artista, sempre fui a favor de subsídios governamentais para as artes. Assim, foi um pouco chocante descobrir que os subsídios às artes podem não ser de interesse dos artistas, porque, com os subsídios, as artes ficam ainda mais atraentes, e assim o número de artistas aumenta, o que torna mais difícil a tarefa de ganhar a vida como artista.

Aos poucos, mas isto não foi com o livro, também descobri que os artistas pobres não são tão pobres afinal. Na média, eles vêm de famílias prósperas e assim podem se permitir escolher uma profissão relativamente arriscada. Também percebi que as pessoas que abandonam as artes costumam encontrar outros empregos interessantes relacionados às artes.


Você tenta separar sua atuação em dois campos aparentemente tão diferentes como arte e economia?

Abbing: Sim, tento mantê-las separadas tanto quanto possível. Tendo mesmo a separá-las de modo bastante drástico durante um período de tempo, fazendo arte sem interrupções por alguns meses e daí então ciência por alguns outros meses. Acho que originalmente fiz isso para combinar com minha personalidade meio esquizofrênica; uma personalidade revirada para cima e para baixo, ou, de qualquer modo, inquieta. E ainda funciona bem.


A produção deste livro afetou sua produção como artista?

 
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