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audiovisual
TRÓPICO NA PINACOTECA
A revolução da TV digital Saiba como foi o debate com o cineasta Roberto Moreira e a jornalista Mara Gama A televisão está prestes a passar por uma grande transformação: trocar o padrão analógico pelo digital. Para refletir sobre a TV digital e o futuro da difusão maciça de imagens, Trópico realizou, em parceria com a Pinacoteca do Estado, um debate com Roberto Moreira, diretor do longa-metragem “Contra todos” (2004) e professor do departamento de cinema, rádio e televisão da ECA- USP, e Mara Gama, jornalista, gerente geral de entretenimento do UOL. Segundo a mediadora do debate, a antropóloga Esther Hamburger, co-editora de Trópico, a definição de um padrão para a TV digital no Brasil envolve tópicos como o grau de interatividade e mobilidade, a qualidade da imagem e a possibilidade de conexão direta com a internet. O governo brasileiro irá optar por desenvolver um modelo próprio levando em conta as especificidades do país ou adotará um padrão já usado internacionalmente? Para ela, porém, “mais complicadas do que as questões técnicas são as políticas”. Está em jogo o estabelecimento de jurisdições, dos limites da ação das companhias de telefonia, das emissoras de TV a cabo, a definição sobre quem irá difundir o conteúdo, entre outros temas que dizem respeito ao interesse de grandes corporações.
“Eu acho que a TV interativa é um fracasso”, disse Roberto Moreira, abrindo o debate de forma polêmica. Ele ressaltou que, durante os anos 80, foram feitas algumas experiências com TV interativa que nunca deram certo. “É importante lembrar disso, pois há, em relação à televisão, uma vontade de enfiar nela algo que ela não comporta”, afirmou. Para Roberto, a TV é uma mídia extremamente centralizada que alcança milhões de espectadores, o que a torna pouco propensa à interatividade. “É na internet que a promessa de interatividade se realizou de uma maneira muito mais forte que nos modelos que as emissoras de televisão pesquisaram”, disse. Ele lembra que o Netscape foi lançado em 1997 e, em menos de dez anos, a internet penetrou em nosso cotidiano. O que se pensava, no início da internet, era que ela seria uma espécie de televisão, com algumas poucas corporações produzindo conteúdo e milhões de pessoas pelo mundo recebendo esse conteúdo. Mas aconteceu algo completamente diferente: são as próprias pessoas que estão construindo ativamente a internet. As corporações que controlam os processos de distribuição e produção são importantes, mas não respondem pela totalidade do conteúdo. “Eu acho que devemos começar a pensar a televisão e a internet a partir dessa idéia da participação, da produção de conteúdo feita pelos próprios usuários. É um processo meio irreversível. Quem pular dentro desse vagão vai se dar bem e criar um modelo interessante. Já quem continuar no modelo centralizado vai acabar ficando para trás”, afirmou. Roberto Moreira disse estar desanimado não apenas com a lentidão do processo de adoção da TV digital no Brasil, mas também com o debate a respeito. “Vemos uma discussão política que contamina o tempo inteiro as decisões técnicas.”. Em sua opinião, o melhor modelo é o japonês, pois permite a transmissão para celular. Hoje, as distribuidoras, quando pensam num novo filme, já discutem as estratégias para celular. “Acho que a nossa televisão tinha que dar um salto e já pegar uma tecnologia de ponta”, defendeu.
O diretor apontou como a digitalização afeta as diferentes etapas do audiovisual: produção, exibição e distribuição. Com relação à produção, ele acha que daqui a cinco ou dez anos a digitalização vai ser total. Ele lembra que já há câmeras sendo usadas em programas de TV cuja imagem tem uma definição tamanha que vai além do que nós somos capazes de perceber. A rede Globo está produzindo hoje alguns de seus programas usando uma câmera de altíssima definição. “Em dois ou três anos, todos vão usá-la, o processo é muito rápido”, disse. Para Roberto, a exibição é um problema que começa a ser resolvido. Os estúdios e a indústria eletrônica conseguiram, após quatro anos de negociação, chegar a um consenso sobre o formato de conteúdo para exibição no cinema. Tal concordância era difícil devido aos interesses conflitantes dos dois grupos: enquanto os estúdios estavam preocupados com a pirataria, o pessoal da eletrônica queria vender aparelho. “A briga foi forte, mas há poucos meses chegou-se a esse consenso que era o grande impedimento político para começar a exibição digital.” Agora o debate está voltado para a criação um modelo de financiamento que possibilite a troca dos projetores tradicionais pelos digitais, mas, ainda assim, a substituição do equipamento deve ser bem lenta devido aos custos elevados. Roberto acredita que o ponto mais confuso ainda seja a distribuição, justamente porque a tecnologia abre muitas possibilidades. Mas ele identifica hoje uma certa inclinação do mercado para deixar que o consumidor escolha a melhor forma. O exemplo usado por ele para falar sobre isso foi a diminuição do tempo (“janela”, na linguagem audiovisual) entre a exibição do filme no cinema, seu lançamento em DVD e sua veiculação na TV. A tendência é que comece a acontecer tudo ao mesmo tempo. “Isso é bem revolucionário, mas não sei se vai colar”, disse. Ele acredita que o caminho, para quem trabalha com audiovisual, seja achar um modelo em que a pirataria seja desvantajosa. “Tem que ficar simples, barato e prático baixar um filme na internet.”
A jornalista Mara Gama iniciou sua fala com um dado concreto: 2006 é o ano da implementação da TV digital no Brasil. “O ministro das Comunicações disse que não vai postergar o prazo”, ela lembrou. “A Copa de 2006 é um grande espetáculo televisivo. Tanto as empresas que fazem TV como os detentores dos direitos da Copa, que são milionários, pressionam para que essa definição venha logo.” As declarações do ministro, segundo a jornalista, também são claras num outro sentido: ele tende a enquadrar a TV interativa, seja qual padrão for adotado, na legislação da radiodifusão. A TV interativa, então, não trará nenhuma mudança no sistema de distribuição e veiculação com relação ao modelo atual. Mas algo diferente ocorrerá com os novos aparelhos: eles vão ter que ser pelo menos um pouco mais interessantes do que os de hoje em dia para que façam sucesso com os consumidores. Para Mara, “do ponto de vista político, a TV digital traz a possibilidade de mudar a correlação de forças entre quem manda e quem distribui informação”. Ela afirmou que, na discussão entre uma TV com maior interatividade (modelo japonês) ou com maior qualidade de imagem, as emissoras tendem a ser a favor da segunda, porque as mudanças são menores e a relação com os anunciantes não se altera. “Na TV interativa você pode bloquear os anúncios. Essa questão da publicidade é muito importante também porque está obrigando as empresas a imaginarem outro tipo de propaganda”, afirmou.
Mara ressaltou que a TV digital terá que conviver com esse novo meio que é o celular. A tela da TV ficou muito grande, mas as telas do celular continuam crescendo para que se tenha uma boa experiência visual. Um exemplo dessa tendência é fornecido pela rede inglesa BBC, que disponibilizou 50% da programação de outono para download gratuito na internet, ao mesmo tempo em que trechos dos melhores programas de humor estão disponíveis para download para celular. Para os executivos da BBC seus produtores têm que pensar num ciclo de vida para os produtos: TV, celular, DVD, games etc. Os novos projetos já têm que ser planejados nessas várias mídias. “Seja qual for o formato da TV digital, o que importa para os produtores culturais -com a internet, o celular e a possibilidade de interagir na TV- é que existem novas narrativas e é preciso pensar nelas, pois será um desperdício não utilizar tais ferramentas”, disse a jornalista. . Thais Rivitti
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