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novo mundo
TRENDS

O micromínimo comum
Por Giselle Beiguelman

Dispositivos móveis ditam as tendências no meio digital e desespetacularizam a criação

Chegou a hora renovar o vocabulário das artes digitais. Depois de anos falando sobre web arte, arte transgênica, realidade virtual, robótica, live images, sampleagem e outras modalidades de criação não menos importantes, vamos ter que atualizar os sentidos.

Microcinema, machinima, dsp (digital signal processing) sounds e locative media são alguns dos termos que definem tendências que se anunciam e outras que se consolidam.

Com a popularização dos dispositivos móveis com câmeras e tocadores de vídeo, é inevitável que o microcinema -filmes curtos e para serem vistos em telas pequenas- seja uma das vedetes do ano.

O cinema ganha espaço também no mundo dos games com a onda dos machinima, a arte de criar filmes a partir de cenários de games, enquanto o vídeo digital vai se convertendo em arte nômade, alavancado pelos celulares e pelo novo modelo do iPod, da Apple, que é player portátil de MP3, vídeo e álbum de fotos.

Nesse contexto, os vlogs –videoblogues- tendem a crescer e notabilizar as perfomances remotas, por um lado, e criar, por outro, um possível modelo de televisão independente para web, com programação segmentada e, provavelmente, muito conteúdo local.

No campo da música eletrônica, todas as formas de microsound -isto é, baseadas na exploração de ferramentas de processamento de sinais digitais, entre as quais se destaca o glitch, uma espécie de estética da falha, devem ocupar o espaço do remix, que parecia ter se tornado o paradigma da criação com meios digitais.

Mídias táticas também devem se reconfigurar, infiltrando-se nos novos sistemas de rastreamento baseados em tecnologias móveis como as radioetiquetas (RFID) e as locative media arts (arte com mídias de localização), como as baseadas em tecnologias de GPS e, novamente, câmeras de vídeo e foto para celular, vão se tornar mais corriqueiras.

Isso tudo indica que logo teremos novos tipos de festivais surgindo por aí e, o melhor, a emergência de novos criadores e novos atritos críticos.


Arte para não ser vista

São modalidades de criação que atuam imbricadas aos equipamentos de que se valem para serem produzidos. Vão exigir criadores bem preparados tecnicamente e críticos de arte competentes para diferenciar aqueles que sabem apenas utilizar as funcionalidades já dadas pelos programas e equipamentos, daqueles que as transformam e as recodificam.

Em seu conjunto, todas essas vertentes apontam também para um processo de desespetacularização da criação com meios digitais. Não pelo porte minúsculo das telinhas de celulares e outros dispositivos portáteis, mas pelo contexto de fruição pautado pelo nomadismo da cultura da mobilidade.

Arte para não ser vista, que se confunde com os meios em que se dá a ler e a ver e que é experimentada em situações de trânsito e em equipamentos que servem a inúmeras funções, falar, acessar horóscopo, consultar agenda e, por vezes, também funcionar como interface da criação artística.

Arte que explora o ruído em detrimento da harmonia, que aposta no anonimato, na confusão de autoria entre homem e máquinas, mas não na “esperteza” das estratégias de mixagem aleatórias e por vezes irresponsáveis.

Uma criação que é parametrada pelas grandes corporações e fabricantes e que se inflitra aí para criar um universo midiático paralelo, fenômeno que os Podcasts, que trazem embutido o nome do atualmente mais famoso e rentável produto da Apple (o iPod), comprovam diariamente, fazendo o contraponto dos grandes serviços noticiosos e da mesmice das FMs.

Com tudo isso, uma criação respeitosa, que vem procurando rasgar a caixa-preta dos ambientes, via de regra, ascéticos das novas mídias, insistindo na mediação entre as redes on e off line, e daí a importância dos projetos de locative media nesse emergente contexto.

Respeitosa, mas também sem vergonha de arriscar no que não é novo e nem por isso não pode ser reinventado. Falamos aqui da narrativa, of course, essa velha senhora que teima -ainda bem- em ressuscitar entre machinimas e microcinema, como aposta no grande micro mínimo comum.

Confira a seguir alguns sites que se alinham com essas tendências:

Microcinema - Com curadoria de Patrick Lichty, editor da revista “Intelligent Agent” e curador da primeira exposição de arte wireless – “[re]distributions”, 2001, o festival “mobile exposure” apresenta os selecionados da edição de 2005 e abre inscrições para 2006:
http://www.microcinema.com/programResult.php?program_id=438

Machinima -Tudo que você sempre quis saber sobre machinima e não tinha nem idéia como perguntar, está aqui: http://www.machinima.org/.
Melhor do que isso, só checando o artigo do especialista no assunto, Diego Assis, em http://netart.incubadora.fapesp.br/portal/Members/doassis/machinima

Glitch - Da pasteurização do remix à estética do glitch no discurso sem concessões de Kim Cascone em artigo antológico publicado na prestigiosa “Computer Music Journal”:
http://netart.incubadora.fapesp.br/portal/referencias/x.pdf

Perfomance remota - Universal Acid: Vlog caprichado dos mestres Rick Silva e Marisa Olson, brindando, publicamente, o ano novo. Quem leu “O Grande Vídeo”, de Marcus Bastos, aqui na Trópico, sabe que a dupla arrasa no quesito on line perfomance:
http://universalacid.net/

TV independente - Minesotta Stories: É um mix de programa de TV on line, com Vlog, com Podcast (agora que o termo se expandiu para transmissão de arquivos de som e vídeo). Pena que não moramos em Minesotta. Fica aqui a idéia para alguém fazer algo assim em “brasileiro”:
http://mnstories.com/

Sabotagem da vigilância wireless - Preempive Media: http://www.preemptivemedia.net/

Mais informações em: http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2675,1.shl

Locative Media - “Mobile Realism”: Reflexão bem documentada com muitos links de Chris Byrne:
http://www.a-r-c.org.uk/weblog/index.php?p=17

Podcast do contra - Audio Activism e CounterHegemony são dois bons pontos de partida pra entender a ironia de chamar tudo de Podcast:
http://www.audioactivism.org/

http://www.odeo.com/channel/29745/view

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Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Criadora dos premiados "O Livro depois do Livro" e "egoscópio" e de projetos artísticos que envolvem o acesso público a painéis eletrônicos via Internet, SMS e MMS. É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico. Site: www.desvirtual.com

 
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