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dossiê
CINEMAS DE AUTOR

A amizade como resistência
Por Reinaldo Cardenuto Filho


Lázaro Ramos, Alice Braga e Wagner Moura em "Cidade Baixa", filme de Sérgio Machado
Divulgação

“Cinema, aspirinas e urubus” e “Cidade baixa” observam o relacionamento entre homens numa realidade miserável e esmagadora

Na revista “Carta Capital”, em novembro de 2005, a jornalista Ana Paula Sousa escreveu uma reportagem intitulada “Câmeras Afinadas”, em que apresentou e homenageou a amizade existente entre os diretores-roteiristas de “Madame Satã” (2003), “Cinema, aspirinas e urubus” e “Cidade baixa” (ambos de 2005). Para ela, a reunião de esforços entre Karim Aïnouz, Marcelo Gomes e Sérgio Machado, os diretores dos filmes, não rendeu apenas longas-metragens com valiosas qualidades artísticas, mas também o surgimento de um grupo de cineastas preocupados com uma linha autoral de cinema e integrados em um projeto capaz de fazer ressurgir, em nossa cinematografia, um “movimento” coletivo de criação.

Fora do eixo principal de produção e distribuição e impulsionados pela vontade em experimentar a linguagem audiovisual, os três formam um pequeno núcleo de produção que se posiciona contra as fórmulas que facilitam o acesso ao mercado e limitam o processo de desenvolvimento artístico. O que mais transparece na matéria da “Carta Capital” é a valorização de uma amizade criadora, capaz não somente de mover um desejo comum em realizar filmes instigantes, mas de criar laços pessoais que podem promover a defesa de uma cinematografia distante da hegemônica.

Essa amizade, um dos motores que impulsiona a expressão artística dos três, tão fundamental para a existência de um possível “movimento”, não se apresenta apenas como divisão de tarefas e de idéias no decorrer da realização de um longa-metragem. O relacionamento entre homens é um aspecto fundamental no enredo de “Cidade baixa” e “Cinema, aspirinas e urubus”.

“Cinema, aspirinas e urubus” é, basicamente, um filme sobre o encontro entre dois homens. O alemão Johann, que chega ao Brasil em meio à ascensão do partido nazista ao poder na Alemanha, ganha a vida vendendo aspirinas. Utilizando o caminhão cedido pela empresa, ele atravessa o interior brasileiro divulgando promessas de cura para quem adquirir o novo remédio e maravilhando, em cada cidade que passa, uma pequena platéia que pela primeira vez tem a oportunidade de assistir uma exibição de cinema -mesmo que essa seja apenas uma forma esperta de apresentar o produto e convencer o povo a comprá-lo.

Essa constante e ininterrupta trajetória pelo Brasil, oportunidade para o personagem de origem estrangeira interagir com diferentes aspectos da cultura nacional, é apresentada ao espectador como essencialmente solitária. Logo no início do filme, no meio do sertão nordestino, observamos um Johann isolado que, em seus afazeres cotidianos, em seus curtos encontros com a população local, se distancia figurativamente da aridez geográfica que o circunda. Não há dúvidas que aquele sujeito -com suas roupas, seu sotaque e seu caminhão- está deslocado de seu contexto de origem.

É no caminho para a próxima cidade em que pretende vender aspirinas que ele encontrará o personagem que se tornará seu amigo e assistente. Falador, desinibido em seus diálogos com a população nordestina e com pretensões de ir para o Rio de Janeiro, Ranulpho é um homem do povo que, desde o início, se assume como superior ao próprio povo. Seu comportamento, de constante negação e distanciamento para com a cultura local, deixa clara sua ambição em desviar do destino que mais facilmente o aguarda: a miséria não apenas material, mas a miséria de uma existência fadada ao completo anonimato.

É no encontro e no relacionamento entre os dois personagens que são despertados seus desejos em relação à vida. Ranulpho, que sempre viveu no sertão e considera as pessoas mesquinhas, urubus de si mesmos, não compreende como Johann, um estrangeiro que vem de um meio urbano em desenvolvimento, que se destaca perante a multidão de anônimos, pode sentir paixão pelo que encontra no caminho. Da amizade que surge entre representantes de dois universos culturais bem diferentes, percebemos a vontade cada vez maior do alemão em interagir com o cotidiano brasileiro e a vontade de Ranulpho em abandonar esse mesmo cotidiano. Um acaba espelhando o desejo do outro.

Uma das qualidades mais sensíveis do filme é permitir que, a partir de um encontro curto e fortuito entre dois homens, surja uma amizade arrebatadora que permita a eles satisfazerem seus desejos de transfiguração. O alemão, ao encontrar o brasileiro, passa a se relacionar mais profundamente com a população e a cultura nordestina. Desobrigado, por exemplo, de dirigir o tempo todo, é permitido a ele subir no capô do caminhão para apreciar, com mais tranqüilidade e atenção, a geografia que o circunda.

Sua interação com o local, quase nula no início do filme, aumenta conforme sua vivência com Ranulpho se torna mais forte e conforme suas obrigações diminuem. Em uma cena fundamental para compreender a mudança comportamental de Johann, o encontramos conversando e brincando com crianças, utilizando as lanternas do caminhão para projetar sombras com as mãos, enquanto seu companheiro trabalha para vender aspirinas.

Não se trata, obviamente, de uma relação entre colonizador e colonizado, em que o primeiro explora o segundo para conseguir benefícios. Quando Ranulpho aparece trabalhando para o outro é com contentamento, porque está satisfazendo seu desejo de distanciamento da cultura local. O nordestino não vê a hora de chegar ao Rio de Janeiro e cobrar a promessa feita pelo novo amigo: um cargo na empresa de aspirinas, o que lhe garantiria a tão almejada diferenciação social. Tanto é que, lá mesmo, no sertão, ele já aprende a dirigir o caminhão, elemento essencial não apenas para conseguir a vaga, mas para se aproximar cada vez mais do cotidiano de Johann.

Assim, “Cinema, aspirinas e urubus” desenvolve uma relação respeitosa entre os dois universos culturais. Se nos primeiros momentos do filme Johann aparece isolado em quase todos os planos, mesmo quando se relaciona com outros personagens (isso é notado, principalmente, nas cenas que acontecem no interior do caminhão), no decorrer da narrativa ele se aproxima da vida local (dorme com uma mulher, conversa com as pessoas, freqüenta bares e casas de prostituição), chegando, na última parte da história, a se transformar metaforicamente em um nordestino.

Para fugir de um destino possivelmente trágico, o de retornar para uma Alemanha em guerra, ele abandona seus documentos, seu caminhão e passa a se vestir como Ranulpho. Na seqüência final, quando parte em fuga para a Amazônia, temos um Johann que se confunde com a população local. É na estação e dentro de um trem que se realiza a tão desejada mudança de identidade.

O mesmo acontece com Ranulpho. Sua vontade de se distanciar da cultura local, que aumenta no decorrer da narrativa, é satisfeita quando seu companheiro, deixando para trás seus bens materiais (identitários), o presenteia com a chave de ignição do caminhão. O momento em que ele toma posse do carro é o instante em que, sem abandonar sua identidade, ele adquire a tão almejada diferenciação social. “Cinema, aspirinas e urubus” é um filme que trabalha o encontro e a troca cultural sem que um conjunto de valores se posicione como superior ou subjugue o outro.

Já no filme “Cidade baixa”, ao invés de uma vivência profunda de curta duração, nos deparamos com uma amizade que, amparada em torno da posse material, por vezes tornar-se instável, mesmo que os dois rapazes já se conheçam desde a infância.

Cercados por um cotidiano suburbano onde impera a violência e a pobreza, Deco e Naldinho se esforçam para manter um relacionamento sustentado não apenas pela amabilidade que sentem um pelo outro, mas pela necessidade de sobreviver em um ambiente informal e competitivo de trabalho.

Forma-se uma amizade fragilizada pelo jogo de interesses, no qual os dois dividem suas posses materiais com o objetivo de resistir à miséria existente na cidade de Salvador. Na cena em que ambos se encontram com Karina no píer e contam lembranças da adolescência, o espectador já sabe que eles possuem em comum um barco (ganha pão do dia-a-dia), que apostam o mesmo dinheiro na rinha de galo e que, quando jovens, costumavam roubar em parceria.

Essa convivência entra em choque quando Karina aparece na vida de ambos. A prostituta, inicialmente dividida entre eles como qualquer bem que sempre dividiram sem maiores problemas, torna-se o ponto de discórdia. Aos poucos, os personagens vivenciam o limite do laço que os une: são capazes de conciliar a posse de muitas coisas, mas incapazes de conciliar a posse de uma mulher que, obsessivamente, desejam monopolizar mais a cada dia.

Até o momento em que os amigos iniciam um jogo sensual com Karina em uma pista de dança e quase transam em conjunto com ela, o filme insiste em apresentá-los próximos, ocupando, em diversas cenas, o mesmo espaço do enquadramento. É depois desse ménage não realizado, quando fica nítida a impossibilidade de compartilhar a prostituta, que ocorre a separação crucial entre eles. O espectador já não os encontrará como parte única de um universo comum.

De um lado, Deco luta boxe para conseguir dinheiro, passeia solitário pelas ruas da Cidade Baixa e, entre uma transa e outra, convida Karina para viver com ele. De outro lado, Naldinho assalta uma farmácia para conseguir dinheiro, se une com malandros e, entre uma transa e outra, aluga um quartinho para viver com Karina. Quando se encontram em um mesmo ambiente, ou estão apenas de passagem, ou entram violentamente em conflito, ou participam de um jogo obsessivo e sensual. Jogo técnico no qual a câmera constrói um triângulo, separando radicalmente os personagens masculinos e sempre posicionando entre eles uma mulher encantada pelo laço que está prestes a romper.

Quando os dois se encontram na rua com a pretensão de resolver o impasse e disputar a posse exclusiva de Karina, o espectador acompanha uma cena que faz lembrar a rinha presente no início do filme. Deco e Naldinho, observados por uma indiferente platéia popular, se transfiguram em galo negro e galo branco que se bicam com o objetivo de ganhar uma recompensa. Entre socos, empurrões e pontapés, o desejo em sangrar o outro deixa entrever o momento em que ambos se animalizam ao extremo, em que parecem aceitar uma vida predestinada pela adversidade que os circunda. As relações estariam, invariavelmente, marcadas pela brutalidade de um cotidiano miserável e esmagador.

Entretanto, distantes de uma existência marcada apenas pela violência, os amigos de infância possuem a opção de desviar de um desfecho trágico que parece previsível em suas vidas. Quando ambos estão caídos no chão, fatigados pelo conflito e na iminência de um matar o outro, os olhares se cruzam, recordam das afeições em comum e se humanizam na tentativa de interromper o processo de animalização.

Nos instantes finais do filme, depois que Deco e Naldinho abandonam o confronto na rua, a ambigüidade que marca a amizade entre ambos se torna mais inquietante. Quando voltam a se encontrar, ensangüentados, no quarto da prostituta, o choque entre os dois deixa de ser corporal para se tornar pessoal, subjetivo. Explode a confusão que é parte do relacionamento dividido entre a afeição e a materialidade: aceitar, como bons companheiros, a posse comum de Karina; ou permitir que o destino malfadado exerça seu desejo pela tragédia, desejo pela morte?

Não há respostas para essa pergunta. Ao mesmo tempo em que “Cidade baixa” parece anunciar o término do conflito, com rostos que se desarmam pelo bem de uma amizade quase fraternal, o filme também parece anunciar a inevitabilidade desse mesmo conflito, com Karina representando um daqueles auxiliares de boxe que, enxugando suores e tratando de machucados, reanimam os lutadores para o próximo round. A ambigüidade entre os dois rapazes deixa de ser um aspecto apenas da construção dos personagens para se tornar um elemento fundamental da narrativa, aproximando o espectador de um universo cultural em que o amor e a violência são sentimentos que convivem com bastante proximidade.

Os protagonistas dos filmes de Karim Aïnouz, Marcelo Gomes e Sérgio Machado são parte do ´´povo´´, pertencem ao mesmo universo de pessoas que aparecem nas cenas documentais de “Cidade baixa”, que interagem com os atores na feira livre de Salvador, que presenciam a briga entre Deco e Naldinho e que, em “Cinema, aspirinas e urubus”, a câmera acompanha para anunciar a presença de Johann e Ranulpho. É este olhar sobre o povo nordestino, sem tons paternalistas, um dos principais empenhos criativos dos diretores-roteiristas.

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Reinaldo Cardenuto Filho
É jornalista, estudante de ciências sociais, pesquisador e programador de cinema do Centro Cultural São Paulo.

1 - Vale a pena ler o ensaio de Maria Rita Kehl, publicado no caderno “Mais”, da “Folha de S. Paulo”, em 13/11/2005. A autora defende a primeira opção como a mais viável, escrevendo que o filme “aposta, muito delicadamente (é possível, sim, falar em delicadeza em meio ao sexo e à fúria), que uma ética da amizade ainda sustente o que restou da civilização, entre nós. A cena final sugere um pacto fraterno selado com sangue, enquanto os olhares pouco a pouco se desarmam, se encontram, se amparam. Deco, Naldinho e Karina são heróis porque resistem contra o que parece ser, no Brasil, um destino, uma predestinação destrutiva”.

 
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