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dossiê
CINEMAS DE AUTOR

Falha na conexão
Por Fernando Masini


Cena de "Eu, você e todos nós", filme de Miranda July
Divulgação

“Eu, você e todos nós”, primeiro filme da artista multimídia Miranda July, é destaque no cinema americano independente

Almas solitárias em busca de contato com o mundo, palavras soltas sem mensagem aparente, diálogos que não estabelecem encontros, comunicação cheia de ruídos e interferências. Assim é a vida e o primeiro filme de Miranda July, uma artista de vídeo americana que, aos 27 anos, resolveu embarcar num projeto mais ambicioso comparado às suas exposições audiovisuais precedentes de menor porte. Dirigiu o longa-metragem “Eu, você e todos nós” (“Me and you and everyone we know”). O filme foi exibido na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e sem previsão de estréia no país.

São várias histórias que tendem a se intercalar, mas por vezes os encontros são frustrados. Miranda July interpreta a protagonista Christine, uma motorista de táxi para idosos e artista experimental que cria seus projetos combinando meios. Ela tenta aproximar-se de Richard (John Hawkes), vendedor de sapatos recém-separado que mantém uma relação desafinada com os dois filhos, Peter, de 14 anos, e Robby, de 7.

Robby (interpretado por Brandon Ratcliff) gasta seu tempo no computador e por acaso participa de um chat erótico com uma internauta mais velha. Peter (Miles Thompson) gosta de Sylvie, uma menina obcecada por comprar e guardar no seu quarto utensílios domésticos. Apesar de flertar com ela, Peter acaba envolvido numa aposta sexual firmada por duas garotas da vizinhança. A partir de situações mundanas, a diretora insere elementos insólitos.

Richard, bem no começo do filme, ateia fogo na sua própria mão, logo após romper com a esposa. Numa corrida de táxi, Christine percebe que no capô do carro ao seu lado há um saquinho de plástico com um peixe laranja dentro, esquecido pelo motorista. Ela posiciona o táxi à frente e mantém velocidade constante para evitar que uma arrancada ou freada bruscas derrubem o peixe.

Miranda July revela o fantástico e o transcendental no cotidiano. Desperta o espectador para o estranho em acontecimentos corriqueiros, o imprevisível comportamento das pessoas no mundo contemporâneo. Apesar dos recorrentes atritos no momento em que as personagens pelejam por estabelecer conexões, há em certas cenas desenlaces ternos e atitudes compreensivas. Quando o pequeno Robby arma o encontro com a internauta -uma mulher de 40 anos interpretada pela atriz Tracy Wright- no banco da praça, o embaraço termina com um afago doce.

A perseverança de Christine na tela em demonstrar suas virtudes a Richard parece ser a mesma com que a diretora contou para emplacar seu projeto. Em 2001, ela começou a escrever as primeiras idéias para compor o roteiro do filme. Na época ainda vivia em Portland e tinha pouca noção sobre as técnicas para se redigir um argumento para cinema. Escreveu 60 páginas e enviou ao laboratório especializado de Sundance (Sundance Screenwriters and Directors Labs).

O diretor Michelle Satter recusou, alegando que as histórias eram desconexas e que não enxergava a maneira de alinhavá-las. July fez modificações e mandou-o de novo no ano seguinte. Mais uma vez, o roteiro foi rejeitado, mas Satter reconheceu qualidades na construção dos personagens. “Havia algo relacionado aos personagens e às situações criadas que eu nunca tinha visto antes. Miranda tornou-se interessante para nós, era questão de saber o momento certo em que poderíamos ajudá-la a passar à próxima etapa”, Satter disse à revista “Filmmaker”.

Foi na terceira tentativa que July obteve êxito e saiu em busca de recursos junto com a produtora Gina Kwon. O canal britânico Channel Four e a emissora independente IFC (The Independent Film Channel) fecharam acordo para produzir o filme. As filmagens aconteceram em Los Angeles, onde mora atualmente a diretora. Algumas cenas que insinuavam sexo oral geraram controvérsias e foram advertidas por estatutos de crianças e adolescentes. Até os produtores da IFC encasquetaram com a palavra “blowjob” e exigiram explicações da diretora.

“Eu, você e todos nós” entrou em cartaz no ano passado nos EUA e causou furor em festivais. Levou o Camera d’Or -prêmio de melhor filme para diretores estreantes- em Cannes e o prêmio especial do júri em Sundance, pela originalidade da obra. Agora, a diretora só pensa em driblar a fama e tocar seus projetos pessoais. “Eu estou apenas esperando meu tempo passar. O que eu faço é gerado de forma tão pessoal; eu não preciso de contato com ninguém. Eu só preciso de tempo para escrever em casa”, July disse em entrevista ao “The Observer”.


As primeiras mensagens

Diferentemente dos pais, ambos escritores e intelectuais acadêmicos, Miranja July confiou nas idéias mirabolantes que tinha na infância para trilhar seu próprio caminho longe das doutrinas escolares. Abandonou o curso na Universidade da Califórnia quando estava no segundo ano para dedicar mais tempo aos projetos de vídeo, áudio e às apresentações performáticas. Mudou-se para Portland e trabalhou como uma espécie de artista mambembe, expondo seus trabalhos.

Com o uso de diferentes suportes midiáticos, July exibiu suas idiossincrasias sem pudor e compôs um universo extraordinário de distúrbios adolescentes em ambientes de convivência inconfortável e embaraçosa. “July prefere histórias sobre personagens estranhos, pessoas desesperadas em busca de superar seus próprios complexos psicológicos como forma de encontrar caminhos para estabelecer contato efetivo com um mundo hostil”, escreveu Holly Willis.

No seu primeiro vídeo de dez minutos, “Atlanta” (1996), ela interpreta duas personagens, a nadadora Dawn Shnavel, que vai competir nas Olimpíadas, e a mãe superprotetora que enche a menina de conselhos. Em “The Amateurist”, de 1998, uma terapeuta interpretada por July controla por meio do monitor de vídeo outra mulher visivelmente perturbada que obedece às suas intervenções trancada num pequeno quarto. Algo como uma interação patológica por meio de sinais e números.

Assim como “Nest of Tens” -o terceiro curta-metragem da artista realizado em 2000-, seus primeiros filmes foram exibidos em Nova York, no MoMA (Museum of Modern Art) e no Guggenheim Museum. Durante a bienal de 2002, sediada no Whitney Museum, July surpreendeu o público com uma instalação de áudio transmitida nos elevadores do estabelecimento. “The Drifters” é uma série de 15 diálogos e monólogos com duração de um minuto cada produzida e interpretada pela artista. São vozes e efeitos sonoros que parecem retirados de um filme.

Em um dos pequenos excertos que compõem a instalação, chamado “The Chinese Fruit” (http://www.mirandajuly.com/sound/ChineseFruit.ram), duas mulheres aparentemente diante de um incêndio comparam a imagem que estão vendo com o formato de uma fruta. Em “God’s Love” ( www.mirandajuly.com/sound/GodsLove.ram), July forma uma “corrente de amor” ao pedir para que crianças fiquem de mãos dadas e levantem os braços. Outras histórias também foram veiculadas para o programa “The Next Big Thing” de uma rádio pública de Nova York.

Além de produzir seus próprios projetos, Miranda July abriu espaço para a publicação e distribuição via internet de trabalhos amadores. Com a colaboração do artista Harrell Fletcher, ela criou o site “Learning to Love You More”, cujo objetivo consiste em oferecer oportunidade para quem produz imagens, desenhos, vídeos e vinhetas sonoras. Um tema é sempre sugerido pelos autores, e os trabalhos são compilados e expostos na página. As propostas variam de forma e conteúdo: “Faça um trabalho em vídeo sobre crianças pequenas”, “tire uma foto do sol”, “fotografe uma cicatriz e escreva sobre ela”, “desenhe a cena de um filme que fez você chorar”.

Fundado em 1995, o projeto “Joanie 4 Jackie” mantém a mesma premissa: criar uma via alternativa para a distribuição de filmes independentes, embora haja a cláusula de que só podem participar cineastas do sexo feminino. Toda mulher que envia seu vídeo recebe uma fita com outros dez filmes dirigidos por outras participantes. Foi a maneira que July encontrou para promover interação entre as diversas cineastas diletantes espalhadas pelo mundo.

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link-se

Trechos dos vídeos de Miranda July: www.mirandajuly.com

“Learning to Love You More”: www.learningtoloveyoumore.com

“Joanie 4 Jackie”: www.joanie4jackie.com

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Fernando Masini
É jornalista.

 
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