CIÊNCIA
O catálogo universal da vida, por Paula Sibilia
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política
NATUREZA

A ecologia do fim do mundo
Por Carlos Alberto Dória

A indústria do medo que gera os negócios ambientais se apóia na ciência pré-darwinista

São reais as perspectivas de fim do mundo humano se não controlarmos riscos como o aquecimento global? A alta freqüência dos furacões no ano passado pode ser atribuida a danos irreparáveis que o homem produziu no clima? Uma recente Cúpula Mundial de Mídia e Ambiente, realizada na Malásia, nos sugere que estas possam ser mentiras midiáticas. Uma das causas dessa visão negativa é o fato de a mídia tratar como certeza absoluta estudos ambientais que têm a incerteza como um dado inerente.

Bem diversa parece ser a importância e o peso de advertências de um biólogo bem formado, com larga experiência como dirigente da WWF (World Wildlife Fund), cultor do método científico. Trata-se de Jared Diamond, que sentencia que “pela primeira vez na história enfrentamos o risco de um colapso global”. Ao mesmo tempo, ele nos oferece uma teoria sobre o colapso ambiental de civilizações passadas e nos leva a revisitar temas clássicos das ciências do século XIX que nos colocam diante de problemas ambientais que o capitalismo não tem conseguido superar.

Autoridades também possuem grande responsabilidade nisso que se atribui à imprensa e a alguns cientistas. “A expectativa de furacões mais intensos é apenas mais um dos terríveis exemplos de como a inação pode ser o custo mais alto com o qual teremos que arcar”, diz o secretário paulista do Meio Ambiente. Sua proposta é “trabalhar numa larga escala para reduzir a ameaça de aquecimento global e gerar vultosos benefícios econômicos”.

Supondo que a teoria de colapso global via aquecimento do planeta tenha alguma utilidade, as estratégias atuais para que escapemos dele indicam que, através do controle e diminuição da emissão de carbono, o aumento de temperatura da Terra poderá ser inferior a 0,1º C por década, em média, entre 1990 e 2100, permitindo que vários ecossistemas se adaptem. Paralelamente deve-se perseguir o desenvolvimento tecnológico no sentido da “desmaterialização” dos processos de produção para diminuir a pressão sobre o meio ambiente através do consumo de recursos físicos. Em outras palavras, a estratégia para se evitar o aquecimento traz o propósito de influir, ao mesmo tempo, no que os biólogos modernos chamam de “macroevolução” e “microevolução”.

Curioso é como algo que possa ser visto como ameaça real à humanidade tornou-se, rapidamente, uma espécie de moeda que resulta na financeirização da natureza. Fala-se em “crédito de carbono”, tornando o “mal” em algo financeiramente conversível. A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima assume, por exemplo, uma redução de 30% no ritmo de desflorestamento da Amazônia. Esta meta, contudo, não é desinteressada. O pacto que representa a Convenção de Kyoto reconhece que as florestas tropicais oferecem “ampla gama de serviços ambientais -diversidade biológica, conservação do solo e do lençol freático e retenção de carbono” e, portanto, “os países em desenvolvimento (todos tropicais) deveriam ser remunerados pelos serviços ambientais que prestam a todo o planeta”.

Inaugura-se então uma contabilidade perversa do tipo: “você polui, eu não poluo por você e você me paga”. Este negócio tem como base legitimadora o medo, fomentado por toda parte, de que o fim do mundo pode ser “antecipado” pela poluição e aquecimento global. Com base no medo, os homens de boa vontade são convidados a uma espécie de exame de consciência a respeito do que fazem e, assim, a adotar medidas apresentadas como capazes de adiar o fim.


O velho tema das catástrofes

Questões quase irrespondíveis, suscitadas nas discussões conjecturais sobre a extinção de tantas espécies, como os dinossauros, levaram os cientistas do século XIX a se digladiarem, contrapondo apaixonadamente “netunistas” -que acreditavam que, como o dilúvio bíblico, as catástrofes vinham do mar- a “saturnistas” -que acreditavam que elas foram originadas por meteoros que atingiram a Terra.

Apesar dos 200 anos que nos separam dessas polêmicas, a idéia de catástrofe ainda continua desempenhando um papel crucial na explicação das transformações do mundo natural. Modernamente, acredita-se que furacões, secas incomuns, extinção de espécies, pandemias, aquecimento atmosférico -constroem um quadro que parece corroborar a idéia de que Godzila finalmente acordou. A ação antrópica teria liberado forças terríveis contra os homens, pois diante do “descontrole”, ou da desarmonia, atribui-se à natureza uma força vingativa. Um filme como “Um dia depois de amanhã” (2004), do diretor Roland Emmerich, atualiza e populariza essa visão de catástrofes naturais irresistíveis.

As teorias das catástrofes são tão antigas na tradição ocidental quanto a bíblia. No século XX, os principais catastrofistas foram Oswald Spengler e Arnold Toynbee. Assim, não é a primeira vez na história que o futuro é visto como um ponto indeterminado e ameaçado por catástrofes, mesmo naturais. Elas são fenômenos de magnitude que quebram a “harmonia” que preside as relações dos seres vivos com o ambiente.

Joseph Virey (1775-1846), entre tantos outros, dizia no início do século XIX que a Natureza é “o princípio vital, ou alma, que possibilita o crescimento e a reprodução dos seres vivos que povoam a Terra”. A esse modo de ver as coisas, chamado “vitalismo”, na mesma época se contrapunha outra maneira, assim enunciada por Lamarck (1744-1829): “A natureza não é uma inteligência, não é um ser, mas uma ordem de coisas constituindo um poder em toda a parte sujeito a leis, a natureza não é pois Deus mesmo”. Virey coloca Deus dentro da natureza, ao passo que Lamarck entende a vida como um fenômeno exclusivamente físico.

Esta diferença de visões sobre a interferência divina na natureza permitiu a Lamarck construir suas hipóteses sobre a transformação dos seres vivos, conhecida como evolucionismo. Para Virey, a natureza tem uma intenção: atingir a perfeição, não produzindo nada de inútil; para Lamarck, a transformação é um processo errático, pois embora existam leis naturais existe também a influência das circunstâncias.

Mas o que conhecemos de fato sobre as grandes leis que movem a natureza? Ao presenciar um terremoto no sul do Chile, em 1835, Darwin se deu conta de que a Terra não estava “acabada” e que seus processos de mudança eram tão grandiosos que seria impossível conhecer-lhes as leis da perspectiva limitada do tempo histórico humano. O que determina as eras glaciais? Qual a periodicidade das acomodações nas placas tectônicas? A pretensão de se conhecer os “ciclos térmicos” de modo a afirmar categoricamente que vivemos um aquecimento global e progressivo por conta da poluição é algo que Darwin, modestamente, se recusaria a subscrever. Restaria ainda saber se seríamos capazes de intervir na natureza de modo a mudar-lhe o curso.


Uma natureza sem Deus e sem finalidade

Na versão moderna do catastrofismo -o aquecimento global e progressivo do planeta é a sua versão mais popular, graças ao tratamento da mídia- se atribui a originação do mal ambiental aos homens, portanto se acredita que estejamos diante de uma catástrofe evitável pela mudança de comportamento diante da natureza. “Por natureza entendo apenas a ação conjunta e o produto de muitas leis naturais; e, por leis, a seqüência de eventos tal como asseverada por nós", dizia Darwin em 1875. Esta foi, talvez, a sua maior descoberta e nela se apóia o corolário de que, ainda que a inteligência possa intervir em aspectos que incidem sobre o processo evolutivo, ampliando a plasticidade da espécie humana, a própria evolução carece de direção ou finalidade.

O princípio da seleção natural é apenas uma dessas leis que agem “sobre a inteira maquinaria da vida” e determinam o que modernamente se chama “microevolução”, isto é, o processo interno e ilimitado de transformação das espécies. A “macroevolução”, por sua vez, não se explica pela acumulação de variações genéticas e mutações dentro das espécies a ponto de responderem pela diversificação evolucionária.

Foi essa diferença entre micro e macroevolução que criou a necessidade lógica de conhecer os eventos que se situam no plano mais geral, além dos limites internos das espécies. Mas somente raciocínios apriorísticos conseguem estabelecer as relações entre a microevolução e as grandes linhas das transformações, conectando uma espécie a outra, supondo que nos vários intervalos existam “elos faltantes” -seres lógicos não encontrados no mundo material e afetados hipoteticamente por catástrofes. Assim, a dificuldade em se compreender as leis que governam a macroevolução limita o conhecimento do próprio funcionamento da natureza ou, como modernamente se chama, da ecologia.


A “falha metabólica” e os cálculos da sustentabilidade

É importante observar que não existe em Darwin -e, portanto, na ecologia - uma idéia de harmonia da natureza como em Lamarck. No reino animal, a desarmonia é expressão da própria luta pela vida. Mas quando se trata da humanidade, e especialmente sob o capitalismo, como apontou o economista austríaco Karl Polanyi (1886-1964), a conversão do trabalho e da terra em mercadorias, em “objetos de regateio”, destrói qualquer chance de harmonia com a natureza ao criar a “falha metabólica”, isto é, a impossibilidade de que a natureza saia incólume do processo de produção da vida material. Por isso o mundo industrial-mercantil converteu a ecologia numa doutrina ou ideal invertido do processo real: a busca do equilíbrio impossível. Já não se trata, é claro, da ecologia original como Haeckel decalcou das descobertas de Darwin, mas do “ecologismo” ou ambientalismo.

Mas a ilusão que o ecologismo projeta sobre a vida como um todo tem suas bases materiais. Em microescala, em sistemas ecológicos discretos, o equilíbrio parece funcionar, emprestando credibilidade ao ideal de harmonia. Ao se “salvar” um lago ou uma espécie animal, parece que se poderá preservar a natureza toda da “falha metabólica”, reciclando o capitalismo. Mas a economia da natureza não é isso. É um sistema em permanente desequilíbrio. No equilíbrio hipotético, a evolução não se processaria, e estaríamos diante de uma modalidade de “fim da história natural”, em que a natureza seria apenas um conjunto de formas fixas, uma moldura para a vida humana.

O caráter utópico do ecologismo moderno se mostra com clareza nos discursos sobre o desenvolvimento sustentável ou ecodesenvolvimento. Eles têm por base a ética ou política, não o conhecimento exaustivo das leis que presidem a economia da natureza, que se situam no tempo geológico onde o futuro da Terra é inacabado e incerto.

Com esta ressalva, é preciso reconhecer que o desenvolvimento sustentável é uma meta de mudança do metabolismo da produção capitalista (a redução do “consumismo” é essencial para ele), como forma de introduzir um novo tempo na economia da natureza, imaginando que ela possa retribuir a dádiva com uma sobrevida para a espécie humana. Como diz um importante estudo do moderno ecologismo, “o conceito de sustentabilidade implica na reconciliação do desenvolvimento de longo prazo com os objetivos ambientais; ele está relacionado com o futuro”. Não se cogita, contudo, sobre a necessidade de pôr fim ao capitalismo no traçado de cenários humanos menos catastróficos. Aos neo-utopistas o capitalismo parece mais sólido do que clima.

Sob a visão instrumental que o ambientalismo lhe impõe, a natureza ganha uma forte premissa antropocêntrica: o homem é capaz de destruir o planeta ou inviabilizar a sua própria vida nele ou, inversamente, salvá-lo, ao mudar de atitude face aos recursos naturais. O limite mais avançado desta relação que converte a natureza em aparato adaptativo do homem encontra-se, hoje, na transgenia. Seu objetivo é aumentar a independência dos seres vivos aprisionados na cadeia produtiva do capital em relação à natureza. Na mesma linha, a eugenia, um ideal de microevolução humana, se converteu numa modalidade de manipulação da vida através da qual se pretende escolher horizontes de seleção para a nossa própria descendência. Nessa perspectiva, o homem se projeta como um dia projetou o frango -ou como os pombos que Darwin estudou como exemplo de seleção artificial.

Estas “domesticações” da natureza criam a ilusão de que toda ela possa ser submetida, contornando-se a noção de finitude. Se o mico-leão-dourado é mantido sob proteção, impedindo que outras espécies ocupem o seu lugar, tem-se aí uma natureza onde fazemos o papel do Deus. Ao elegermos uma natureza composta por micos, baleias, araras azuis etc., é porque, objetivamente, a natureza foi cindida.

1 - Reinaldo José Lopes, “Imprensa ambiental exagera”, “Folha de S. Paulo”, 5 de dezembro de 2005.


2 - Jared Diamond, “Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso”, Rio de Janeiro, Record, 2005.


3 - Alan Lloyd e José Goldemberg, “Sem motivo para adiar”, “Folha de S. Paulo”, 8 de dezembro de 2005.


4 - Paul Raskin et alli, “Bending the curve: toward global sustainability”, Global Scenario Group - Stockholm Environment Institute, Estocolmo, 1998, págs. 16-17.


5 - Joseph E. Stinglitz, “Ação brasileira gera importante avanço”, “Folha de S. Paulo”, 28 de dezembro de 2005.


6 - O “catastrofismo” foi expressão cunhada por Georges Cuvier, o mais importante geólogo do século XIX, para explicar as mudanças geológicas da Terra. Segundo o seu modelo, só as catástrofes explicariam a extinção dos dinossauros a partir das evidências fornecidas por ossos fossilizados, preservando-se assim, na história natural, a idéia bíblica de criação singular e fixidez de todas as formas vivas.


7 - Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, “Lamarck, Virey e a concepção da natureza: uma comparação”, in Pablo Lorenzano (org), “Filosofia e historia de la ciencia en el cono sur”, Bernal, Universidad Nacional de Quilmes, 2002.


8 - Charles Darwin, “A origem das espécies”, Rio de Janeiro, Ediouro, 2004, pág. 95.


9 - “Por ecologia nós entendemos o corpo do saber relativo à economia da natureza (...) o estudo de todas essas inter-relações complexas a que Darwin se refere como as condições da luta pela existência. Esta ciência (...) constitui até o momento o principal componente do que é comumente conhecido como ‘história natural’”, escreveu o biólogo alemão Ernest Haeckel (1834-1919), principal divulgador de Darwin e quem cunhou o termo ecologia.


10 - Gilberto Gallopin et alli, “Branch points: global scenarios and human choices”, Stochholm Environment Institute, Estocolmo, 1997.

 
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