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entrevista
LITERATURA
O lugar incomum de Ivan Lessa “Prefiro ler a escrever”, diz o escritor, que está lançando “O luar e a rainha”, com textos feitos para a BBC O que dizer do escritor Ivan Lessa? Para um autor que cultiva a zombeteira arte de achar nas pedras do cotidiano a matéria de rimas desconcertantes sobre os desatinos humanos, transformando o óbvio imponderável em deslocado lugar incomum, poderia se dizer: é autor de provocações espirituosas destiladas em estilo preciso e coloquial, cravadas em textos que estão entre o que há de melhor na literatura brasileira. Mas seria suficiente? Leitor contumaz de livros sobre livros, um “não-escritor” que gosta de tomar notas (como se lê em seu “A difícil arte de não escrever”), suas idéias parecem uma original narração em off (ou, como ele diria, “é on o tempo todo”) de “Verdades e mentiras” de Orson Welles. A ironia como forma de sobrevivência, declara Ivan, “o terrível”, na entrevista a seguir. Ivan Lessa saiu do Brasil em 20 de janeiro de 1978, no dia de São Sebastião (“padroeiro da cidade do Rio de Janeiro, quando o Galeão ainda não era Tom Jobim”) e desde então nunca mais voltou (nem a passeio, nem pelo velório do pai) para o lugar que ele chama de “Bananão”. Hoje, em Londres, seu bairro “oficialmente” é Kensington & Chelsea. Entre 1968 e 1972, quando primeiro fez parte do staff da BBC, morou mais longe, em Willesden. Filho de Orígenes Lessa, Ivan nasceu em 9 de maio de 1935 em São Paulo, na avenida Brigadeiro Luiz Antonio. Aos sete anos de idade, já morava nos Estados Unidos; seu pai fora trabalhar para o Coordenador de Assuntos Interamericanos (leia-se “política da boa vizinhança”), Nelson Rockefeller. No Rio de Janeiro, morou na Zona Sul, Leblon e Leme. E o que dizer da lenda da imprensa (ele detestaria o aplicativo) Ivan Lessa? Para um raso rasante, basta mencionar alguns dos pontos onde bateu suas teclas: depois da revista “Senhor” e do jornal “Última Hora”, foi um dos fundadores e editores do “Pasquim”, redator da Rede Globo, cronista da revista “Status”, colunista da “Folha de S. Paulo” e do “Estado de S. Paulo”; e nos anos 2000 manteve no UOL uma coluna de troca de e-cartas com o jornalista Mario Sergio Conti. Apreciador especialista em sua obra, Conti assim o descreveu: “Fosse francês, Ivan Lessa seria um desconstrucionista de mão cheia, um guru de Derrida”. Seu primeiro texto publicado foi publicitário. O primeiro texto jornalístico apareceu em 1959, na revista “Senhor” -“acho que uma resenha ou do João ou dos Hi-Lo´s ou uma crônica sobre Billie Holiday”, contou Ivan num dos papos paralelos a esta entrevista. Hoje, a imprensa deste “país com péssimas legendas em português”, aliás, nem o publica. Afinal, “como tudo que se passa em português, não é a sério nem para valer” (para citar outra de suas frases). O leitor brasileiro pode ler Ivan Lessa em português, mas num sítio britânico, o da BBC, onde ele escreve três vezes por semana. Só mesmo um país com tantos literatos pode se dar ao luxo de esnobar essa prosa cheia de bossa. Também poderia se perguntar sobre a figura Ivan Lessa (que certamente não está no gibi), mas para não enrolarmos o gancho em praias descabidas, fiquemos com o pretexto do expediente jornalístico. Ele está lançando “O luar e a rainha”. O livro alinhava uma seleção de textos escritos por ele para a BBC, desde o ano 2000. No site da BBC, os textos podem ser ouvidos, pois foram retransmitidos pelo programa de rádio e na coluna virtual impressa há um link de acesso à audição. As colunas são uma espécie de observatório do cotidiano, onde, com instrumentos de precisão como lentes macro e zoom, ele extrai do mais prosaico o nonsense (ou suprasense) do extraordinário. E. B. White e S. J. Perelman (notaria Sérgio Augusto), artífices do refinado e do irônico paginados na efemeridade hebdomadária ao redor de alguma mesa redonda nova-iorquina, se orgulhariam de assinar as colunas de Ivan Lessa. Habitam nele (e também nelas, as crônicas dispostas em colunas) o talento e a inspiração de flagrar a minúcia despercebida e deflagrar o comentário irônico. Ou, num lance de espanto lacônico, despachos do “achado”. A recolha de assuntos triviais e inacreditáveis faria o Flaubert de “Bouvard e Pécuchet” corar de inveja. O “tolicionário” do século 21 inclui o insensato censo de estatísticas (como a origem do cubismo na enxaqueca) e estultícias estapafúrdias (como torneio de arremesso de celular). O criador das tresloucadas trips de Edélsio Tavares e dos impertinentes aforismos de “Gip-Gip, Nheco-Nheco” se dedica também a temas como o 11 de Setembro. Os admiradores irrestritos de Ivan Lessa (um “escritor de escritores”) conhecem seu entendimento do riscado da linguagem. Jogos jocosos, arroubos de sacadas, múltiplos sentidos camuflados em clareza expositiva são alguns recursos do arsenal que municia a anarquia virulenta dos textos made in Brazil e a melancolia irônica dos textos londrinos. Uma de suas proezas é dotar um texto de aparente simplicidade (a tal naturalidade do coloquial) com disfarçada elocubração, provando que cultura é conversa entre inteligências. Saber escrever com sabor e saber não é artigo dos mais fáceis de achar nos sequíssimos e molhados balcões de notícias. Como apontou Conti, seu texto é vazado de várias camadas sincrônicas e subvertidas, acionando “paródias, pastiches, alusões, eufonias, dissonâncias, aproximações surreais e, sobretudo, metalingüística de caráter crítico”. De seu exílio excêntrico, Ivan Lessa falou de literatura E do novo livro a ser lançado em 2006 (o tão aguardado romance). “Prefiro ler a escrever”, disse. Falou também sobre duas de suas paixões: música e cinema. Além de melômano-sem-melô, Ivan Lessa é um inveterado cinéfilo. E até já foi ator, em “Caminhos do sul” (1949, Fernando de Barros) e “Maior que o ódio” (1951), produzido pela Atlântida e dirigido por José Carlos Burle. Na entrevista, ele revela ainda que tentou escrever roteiros de cinema (foi um dos roteiristas “até certo ponto” de “Gordos e magros”, que Mário Carneiro fez em 1976). Ah, sim, e Ivan Lessa mais uma vez foi perguntado se volta algum dia para o Brasil. * Apenas três livros (e mesmo assim, coletâneas de textos) publicados em mais de 50 anos de labuta (“Garotos da fuzarca”, 1987; “Ivan vê o mundo”, 1999; e agora este “O luar e a rainha”). Para quem já escreveu: “Eu não tenho a menor confiança em livro” (“Livros e leituras”), pergunta-se: por que tal escassez ou desprendimento? Ivan Lessa: Prefiro ler a escrever. Ou ficar vendo televisão, ouvindo disco, por aí. A escassez é o resultado lógico da falta de produção. Só escrevi quando me pagavam. Infelizmente, na publicidade me pagavam mais. Só que era sacal demais. Então, já sabe, vamos de crônica, qualquer coisa de fôlego curto e que dê para viver. Um continho aqui e ali, só para bater ponto.
Ivan: Leio cada vez menos. Procuro reler em português do Brasil. Machado, Dalton, Drummond. Do que anda por aí gosto do Saramago, de quase ninguém aqui da ilhona, gostava do Paul Auster, mas baixou um caboclo chato paca nele.
Ivan: Nunca, nunca, nunca escrever sobre mim mesmo. Quando escrevo uma linha ou faço referência é invariavelmente mentira. Ou arredores. É dar muita confiança a leitor, raça danada de safada. O “eu” que acena de uma ou outra crônica é mero figurante pegando uns cobres para a cachaçinha na esquina.
Ivan: Vanguarda. À frente. Só para sair da lenga-lenga a que as pessoas mal acostumadas feito eu e que leram ficção demais e desordenamente. Pynchon já foi vanguarda, assim como Mário de Andrade e tanta gente. Hoje em dia, os vanguardistas não fazem mais que cumprir necessidades mercadológicas. E uma enorme vontade de aparecer. Já teve tempo em que era para inovar mesmo, dizer as mesmas coisas só que de forma diferente. Quero distância de vanguarda. A não ser que seja a linha de ataque de nossa seleção.
Ivan: Comecei o romance. Alguns capítulos. Depois reparei que na verdade eram contos. Não tenho fôlego para o romance. No ano que vem sou capaz de botar em ordem alguns desses capítulos, vesti-los com a fantasia certa. Ou seja, contos, claro. Eu disse capaz. Sou danado de preguiçoso e falta-me até a vaidade tão necessária ao verdadeiro escritor, que esse sim precisa porque precisa ser publicado. Com toda razão. Nesse sentido, não sou escritor.
Ivan: Escrevi em todos os chamados grandalhões, à exceção de “O Globo”. Em compensação, fui redator da rede do mesmo nome. Nosso jornalismo? Piorou muito. Como quase tudo o mais. Até o xarope de groselha já não é o mesmo.
Ivan: A internet proporciona a quem não lê a oportunidade de ficar “informado”, embora eu não saiba o que queira dizer isso. São infinitas formas de enganar e se enganar. Gosto de fazer o que chamam de “pesquisa”, assim mesmo, entre aspas. Procurar foto antiga, dicionários, origem das palavras. É o Thezouro da Juventude do Século XXI. Tudo bem. Para compra de livros e discos, em tendo o que comprar, formidável. Mesmo com as falcatruas a que estamos todos expostos. Ainda é melhor do que o cara nos peitar na esquina armado de revólver. Comprar pela net, é a que estou me referindo, lógico.
Ivan: Minha época de boemia está viva e cristalina. Tudo errado, claro, pois não tenho com quem conferir, trocar lembranças. Mas é bão.
Ivan: Não faço nem tenho como fazer comparações entre o ontem e o hoje. Tenho ao todo 32 anos de Inglaterra, 28 deles (a apagar velhinhas em janeiro) de enfiada. Deve ter muita gente tendo prazer e adquirindo conhecimento. Talvez até fazendo as duas coisas ao mesmo tempo. Parabéns.
Ivan: Não tenho o que achar do Brasil de hoje, de sua criminalidade, de seus modos. Pelo que vejo nas folhas parece que tudo piorou muito. Não tenho também motivo para discordar das notícias que os noticiários brasileiros me dão.
Ivan: Eu penso de político o que meu instinto sempre me levou a pensar e, até hoje, nunca me provou enganado: homem público? Tudo a mesma canalha. E desinteressante, o que é ainda mais grave.
Ivan: Acho chato viver ao lado da possibilidade de ou uma bomba estourar no vagão do metrô em que estou ou então um policial me mandar sete balas na cara. Também acharia chato levar um tiro em Ipanema. Cada um vive, em seu lugar, os problemas do lugar. Imigrante chegando aos borbotões (perdão pela expressão datada, feito dizem) também é chato. De imigrante, basta eu. O resto que vá se roçar nas ostras. Eu quero meus ingleses quietinhos nos lugares em que estavam quando aqui cheguei pela primeira vez em 1968.
Ivan: Não há possibilidade de voltar a viver no Brasil. Minha vida está aqui. Família, casa, essas coisas todas. Em algum lugar do Brasil deve haver um londrino há 28 anos que não pensa em voltar a Londres. Isso tudo é muito natural. Não vamos complicar. |