CIÊNCIA
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a.r.t.e.
ORQUESTRA

Populismo brega
Por Matheus G. Bitondi

CD que reúne a Osesp e a Banda Mantiqueira não tem nada a acrescentar à música brasileira

Desde que se criou um consenso a respeito da qualidade da música popular brasileira, tenta-se freqüentemente vesti-la de terno e gravata e empurrá-la à força para dentro de salas de concerto.

Exemplos desta tentativa de arrancar cruelmente a nossa música popular de seu habitat natural e confiná-la em ambientes eruditos não faltam. Eles vão desde arranjos orquestrais de sambinhas de roda até longas análises de letras de rock sob o prisma da semiótica nos anfiteatros da USP. Na grande maioria das vezes, os resultados destas incursões podem ser qualificados com o também popular e nada eruditizado termo brega. Nada disso é diferente no que se refere a um recém-lançado CD que tenta somar os esforços da eruditíssima Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo aos da popularíssima Banda Mantiqueira.

Mesmo sendo tão popular, é bom que se defina o referido termo. O brega se caracteriza justamente por juntar coisas incompatíveis sem qualquer motivo, ou ainda por apresentar-se de maneira inadequada ao contexto ou ao ambiente. Exemplos clássicos ilustram bem a situação. Usar calças estampadas com bolinhas e camisa listrada é brega. Da mesma forma, comparecer trajando um sobretudo plástico amarelo em uma festa de gala é brega. Caso se iniciasse um incêndio na festa, seria inapropriado classificar de brega um bombeiro trajando o mesmo sobretudo amarelo, uma vez que a situação passa automaticamente a justificar seu uso. Há ainda outros termos que se referem às mesmas atitudes, como o germânico e bem mais erudito kitsch, sobre o qual o dicionário Houaiss acrescenta: “Fazer uso de estereótipos e chavões inautênticos”, e dá sua etimologia: “Juntar restos ou objetos inúteis”. Definido o termo, voltemos ao nosso disco.

Não há qualquer dúvida acerca da qualidade das execuções musicais das peças, tanto por parte da orquestra, como da banda. Deve-se destacar ainda o mérito do maestro Roberto Minczuk, que conseguiu fazer as tão típicas síncopas serem tocadas com naturalidade pela orquestra, acostumada aos ritmos precisos da música européia e, além disso, composta por vários estrangeiros, principalmente eslavos.

Apesar de tudo isso, o disco não define seu propósito. Se era a intenção dos organizadores promover um diálogo entre banda e orquestra, contrastando suas diferentes cores e universos musicais (como sugere o encarte que acompanha o CD), esqueceram de avisar os arranjadores.

Na maioria dos arranjos, a orquestra desaparece por detrás da banda. Seus sopros são utilizados apenas como um desnecessário reforço aos da banda. Durante os improvisos dos músicos da banda, a orquestra se porta apenas como figurante e chega mesmo a sumir durante longos trechos, sendo apenas lembrada por algumas poucas e secundárias melodias tocadas pelas cordas. Estas, aliás, sempre que se fazem soar remetem ao estilo estereotipado daquelas trilhas de antigos filmes americanos, o que, por sua vez, nos lança de volta ao brega.

Se o tratamento dado às peças deixa a desejar, o que dizer do passo anterior: a escolha do repertório? A resposta a esta pergunta é a mais óbvia que se pode imaginar. O disco se inicia com a esperadíssima “Aquarela do Brasil”, a música brasileira mais tocada nos quatro cantos do mundo segundo pesquisas muito pouco relevantes. A ela se seguem outras pérolas da trivialidade, como “Tico-Tico no Fubá”, de Zequinha de Abreu, “Assanhado”, de Jacob do Bandolim, “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo, “Saudade da Bahia”, de Dorival Caymmi e outras dignas de serem cantadas e dançadas pelo Zé Carioca naquele velho filme da Disney.

Para coroar o disco com bananas e abacaxis, faltou somente “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, clássico dos clichês nacionais. Por fim, se após tudo isso alguém ainda estiver inseguro quanto à aplicação do nosso termo brega a esta obra discográfica, basta conferir as duas faixas em que as várias músicas são justapostas em pot-pourri, procedimento brega por definição, sinônimo de pastiche.

Apesar de tudo, este projeto -e muitos outros do gênero-, cumprem uma função, mesmo que não intencionalmente. Eles são indicativos da atual pobreza criativa da música popular brasileira. Presos em um passado de glórias, os músicos se munem de um conservadorismo infértil que os faz venerar ídolos de épocas passadas e rejeitar tudo aquilo que lhes seria estranho, definindo com precisão os limites do estilo, assim como os elementos que estão dentro e os que estão fora desses limites.

Prova desta incapacidade de se livrar das amarras do passado é o enorme contingente de cópias sonoras e visuais e mesmo de filhos de alguns artistas consagrados em outras épocas, que, escondidos por detrás de figurinos e atitudes “moderninhas” (como, por exemplo, certas misturas duvidosas de bossa-nova com música tecno) e ostentando um falso ecletismo, só nos fazem ressaltar as glórias do passado.

O resultado de tudo isso é a constante repetição de modelos e a conseqüente estereotipação do repertório, tal qual observamos neste disco. Este fechamento da música popular brasileira em si mesma e a sua relutância em aceitar influências do mundo atual acabam por anunciar o seu fim, uma vez que tudo aquilo que não se desenvolve e que não se relaciona com o mundo está morto.

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O disco

Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e Banda Mantiqueira. Biscoito Fino. Preço médio: R$ 25.

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Matheus G. Bitondi
É compositor, mestrando em música pela Unesp.

 
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