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Agenor de Oliveira: As escolas passaram a comportar muita gente. Tinha muita gente para desfilar em um determinado tempo, e o sujeito não imaginou a possibilidade de um imprevisto. Ele fez lá um cálculo, errado, achando que aquelas 5.000 pessoas conseguiriam desfilar em uma hora. Quando ele viu que faltavam dois minutos para acabar o tempo e que não daria tempo de entrar a Velha Guarda da Portela, ele optou por não deixar entrá-la na avenida. Aí, a gente percebe que o peso foi dado muito mais à escola de samba como empreendimento. Para ele, entre o coração, que seria deixar a Velha Guarda passar, mesmo que ele perdesse os pontos. Ele pensou: “Eu tenho uma empresa, que é uma escola de samba. Se eu perder pontos, no ano que vem eu vou estar no segundo grupo e não vou ter patrocínio”. Ele optou pela visão empresarial.


No seu samba mais famoso, “Samba Agoniza Mas Não Morre”, há três versos que dizem o seguinte: “Samba agoniza mas não morre/ Alguém sempre te socorre/ Antes do suspiro derradeiro”. Hoje em dia, quem tem socorrido o samba?

Nelson Sargento: Hoje, o samba tem muitas pessoas importantes. No samba comercial, tem o Zeca Pagodinho, Jorge Aragão... Há também pessoas fazendo samba de raiz. O samba é uma instituição, não é um movimento. Todo movimento musical passa. Passou a bossa nova… O hip hop e o pagode estão passando... Samba é terreiro, samba é boteco.


O sr. disse que não se valoriza o aspecto cultural do samba do morro, samba do terreiro. Por isso acontece?

Nelson Sargento: Para caracterizar o samba, que pessoas como o Noel Rosa fazia, passaram a chamá-lo de raiz para mostrar a diferença do amba que se faz hoje com o que se fazia naquele tempo. Eu costumo dizer o seguinte: eu não quero inventar nada em matéria de samba. Quero continuar fazendo aquele samba que se produzia naquele tempo, pois alguém tem que continuar fazendo ou ele acaba.


E quem vai continuar fazendo esse samba no futuro?

Nelson Sargento: Nem todo mundo é saudosista e conservador. Eu sou! Uma vez, vi uma entrevista de um cara dizendo que quem gosta de samba de raiz é terra. Com essa mentalidade, ele quer que o samba morra.


Antes, a música do morro era o samba. Hoje, é o funk. Fora do Rio de Janeiro, ultimamente, as pessoas acham que nos morros cariocas só se ouve e se faz funk. Isso acontece devido à desvalorização do samba de raiz?

Nelson Sargento: Tudo em que você investe dinheiro, funciona, e no samba ninguém investe. Se toca, você aprende, porque vem a massificação. Se não toca, você não aprende. Para tocar, tem que pagar, mas você não pode pagar. Isso não quer dizer que esses ritmos, como o funk, são maiores e melhores que o samba. Eles simplesmente recebem mais investimento. Não sei porque, eles não investem no samba.


Marcelo D2 misturou o samba com o rap e recebeu uma série de críticas elogiando esse trabalho. O que você acha dessa mistura de outros ritmos com o samba?

Nelson Sargento: Ninguém está inventando nada. E, para isso, basta olhar a história da música brasileira. Manezinho de Araújo, na década de 40, fazia embolada, que tira a melodia e faz letra. A literatura da música popular é muito ruim. O que estou te falando, você não vai achar em lugar algum. Tem uma música do Jair Rodrigues (dos anos 60), que canta: “Deixa que digam que pensam que falem...”. Veja bem: isso é rap, em que ele depois ele colocou um samba.

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Alan de Faria
É jornalista.

 
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