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dossiê
MÚSICA BRASILEIRA

Esculhambaram com o samba-enredo
Por Alan de Faria



Divulgação

Para o sambista Nelson Sargento, os desfiles das escolas de samba foram transformados em “teatro mambembe”

“A primeira coisa que esculhambou o samba-enredo foi um negócio chamado sinopse, que é um produto do carnavalesco”, diz o sambista Nelson Sargento, mangueirense de 81 anos, nesta entrevista a Trópico. Para ele, o samba-enredo passou a ser um acessório e um instrumento nas mãos do carnavalesco, mais interessado no espetáculo. “O carnavalesco quer ser teatrólogo, pois acha que fez uma peça. Para mim, a escola de samba hoje é um teatro mambembe”, diz o músico.

Nelson Sargento também criticou as regras dos desfiles das escolas de samba. “Se você não tiver um ritmo de música que faça andar, você estoura o tempo (de apresentação). Se isso acontecer, você perde pontos. Então, o samba tem que ser um pouco marchado. Consequentemente, não há mais coreografia na escola de samba. A porta-bandeira e o mestre-sala, que eram os mais bonitos, não podem mostrar sua coreografia: então a porta-bandeira roda e o mestre-sala dá um pinote”.

Contemporâneo de Cartola e Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento (na certidão de nascimento Nelson Mattos -o “Sargento” é fruto de sua passagem pelo Exército entre 1945 e 1949) nasceu em 1924 e passou sua infância na Tijuca, bairro do Rio Janeiro, na casa dos patrões de sua mãe. Adolescente, foi adotado por Alfredo Português, que lhe deu o primeiro violão. Passou a morar do morro do Mangueira, onde freqüentou lugares ao lado de “todos os bambas do samba”.

Na década de 60, tocou no Zicartola, bar de Cartola e Dona Zica, no centro do Rio de Janeiro, de onde surgiram vários talentos do samba. “Eu sempre toquei em boteco. Havia no morro várias tendinhas -não se chamavam botecos, mas sim tendinhas- e nesses locais, a gente se encontrava com outros companheiros, como o Zagaia, o Marreta, o Milton do Pandeiro”, recorda.

Entre 1965 e 1967, Sargento, ao lado de outras feras do samba, como Paulinho da Viola -à época com 22 anos-, Clementina de Jesus, Araci Côrtes e outros, participou do musical “Rosa de Ouro” no Teatro Jovem do Rio de Janeiro, um foco de resistência cultural à ditadura militar.

De lá para cá, foram muitos sambas, muitos parceiros e novas experiências em outras artes. Atuou em diversas produções cinematográficas, como “O Primeiro Dia”, de Daniela Thomas e Walter Salles Jr., e “Orfeu do Carnaval”, de Cacá Diegues. Além disso, é escritor: é de sua autoria o livro de poesia “Prisioneiro do Mundo” e acaba de lançar o livro de memórias “Pensamentos”, editado pelo seu atual parceiro musical Agenor de Oliveira, 50, que também participou da conversa.

Na entrevista a seguir, ele relembrou histórias do samba e de sua convivência com grandes mestres, como Cartola. Além disso, fazendo jus ao seu maior sucesso, Sargento explicou a razão do samba ainda sobreviver, embora continue agonizando. “O samba é uma instituição, não é um movimento”, disse.

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Aos oito anos de idade, o sr. já desfilava em uma escola de samba do morro do Salgueiro. Quem o introduziu no mundo do samba?

Nelson Sargento: Acho que quem me introduziu ao mundo do samba foi eu mesmo (risos), porque, quando eu estava no morro do Salgueiro, qualquer criança poderia tocar tamborim, independentemente de você ser levado por alguém ou não. Não havia nada proibido para menores. Mas, na realidade, somente quando eu fui para a morro da Mangueira, para a casa do Alfredo Português, que terminou de me criar, eu posso dizer que penetrei no mundo do samba. Talvez, inconscientemente. Porque eu tinha 13, 14 anos e não tinha noção do que é esse mundo do samba. Então eu conheci Cartola, Geraldo Pereira e todos os outros bambas do samba, gente muito considerada na época, e fui crescendo ao lado dessas pessoas…


Cartola e Nelson Cavaquinho chegaram a dar aulas de violão para o sr., não? Como era convivência com esses mestres do samba?

Nelson Sargento: Eu convivia muito bem com eles. De qualquer maneira, eu, para eles, era ainda uma criança. Eu tratava todo mundo de senhor. Mas quem primeiro comprou um violão para mim foi o Alfredo Português. Aí, sim, o Cartola me ensinou alguns sambas, o Aluísio Dias também. E, assim, fui aprendendo a tocar com o meu violãozinho.


A partir dos anos 60, o sr. começou a tocar em alguns bares, como o Zicartola. Como foi essa experiência?

Nelson Sargento: Eu sempre toquei em boteco. Havia no morro várias tendinhas -não se chamavam botecos, mas sim tendinhas- e nesses locais a gente se encontrava com outros companheiros, como o Zagaia, o Marreta, o Milton do Pandeiro, que tocavam samba também. Tinha até um conjunto, e a gente ia tocando por todas aquelas tendinhas. A partir dos anos 60, eu comecei a freqüentar o Zicartola.


Samba de qualidade só se faz em boteco?

Nelson Sargento: (risos) Acontece o seguinte: para que essas coisas aconteçam, é preciso que haja um pioneiro. E, na Lapa, o pioneiro disso tudo foi realmente o carioca da gema, que batalhou, batalhou. No Brasil, tem um negócio: você chuta uma pedra. Se der certo, todo mundo quer chutar, mas ninguém tem a coragem de ser o primeiro a chutar a pedra. Então, o carioca da gema foi quem abriu o grande movimento que a Lapa tem hoje, que se tornou um poderio de samba. Não só de samba, como de outros tipos de música também.

Agenor de Oliveira: Os bares, as casas noturnas, voltaram a ter importância para os artistas. Durante um tempo, por vários problemas, havia poucos espaços informais para mostrar música. O artista estava restrito a teatros, espaços mais contidos, convencionais. E o samba precisa dessa integração das pessoas. O bar socializa: lá, todo mundo é igual.


Entre 1965 e 1967, o sr. participou do musical “Rosa de Ouro”. Como foi sua atuação nesse espetáculo?

Nelson Sargento: Era uma apresentação semididática. Tinha projeção de slides, e nesses slides tinha Araci Côrtes, Cartola, Elizeth Cardoso... Eles falavam alguma coisa, e a gente ilustrava com música.


Como foi a convivência com os integrantes do grupo, sendo mais jovem? A Clementina de Jesus, por exemplo, tinha 63 anos, e a Araci Côrtes, 68...

Nelson Sargento: Jovem? (risos) Eu tinha 42 anos... O mais jovem era o Paulinho da Viola que tinha 22. A gente convivia muito bem com elas, porque Clementina e Araci nos trataram como netos. A Clementina era uma pessoa muito doce e muito cordata. Quando a gente viajava, se alguém chegava perto dela e falava: “Oh, mãe Clementina, esse hotel é muito bom, né?”. Ela respondia: “É sim, meu filho. Esse é hotel é muito bom, é uma beleza”. Aí, chegava outro e falava: “Oh, mãe Clementina, esse hotel é muito ruim, né?”. E ela dizia: “É muito ruim, muito ruim” (risos). Ela não brigava com ninguém. Ficava de bem com todo mundo.


“Rosas de Ouro” era apresentado no Teatro Jovem do Rio de Janeiro, que serviu como resistência cultural durante a ditadura militar. Na sua opinião, qual foi a importância desse teatro?

Nelson Sargento: Durante a época da repressão, esse teatro só exibia peças que tinham sido censuradas, que eram consideradas subversivas, como eles (os militares) diziam. Então, passou as peças do Plínio Marcos (“Barrela”, “Dois Perdidos Numa Noite Suja” e o musical “Quando as Máquinas Param”). O Teatro Jovem foi marcado por isso.


O senhor é autor do samba-enredo “Primavera - As Quatro Estações do Ano” (1955), considerado um dos mais bonitos da Estação Primeira de Mangueira. O que se nota, quando se reúnem grandes figuras do samba, é que são lembrados sobretudo os sambas-enredos do passado; dificilmente recordam de canções de dois, três anos atrás. Por que isso acontece?

Agenor de Oliveira: É uma questão bastante delicada...

Nelson Sargento: Eu vou dar um ponto de partida. A primeira coisa que esculhambou o samba-enredo foi um negócio chamado sinopse, que é um produto do carnavalesco.

Agenor de Oliveira: Os sambas-enredos considerados históricos, que permaneceram, não estavam necessariamente presos a determinadas palavras, a determinadas frases. Na hora em que as escolas de samba se profissionalizaram, elas passaram a ser conduzidas muito mais pelo carnavalesco, que monta a escola na avenida, do que pelas pessoas que vivem a escola no dia-a-dia e que cantam as coisas do dia-a-dia. Então, os sambas passaram a ter um tipo de andamento totalmente diferente do andamento tradicional do samba, as melodias passaram a ser extremamente repetitivas, porque foram montadas dentro de uma estruturazinha fácil para todo mundo cantar e da historinha que o carnavalesco quer colocar na avenida.

Antes, os sambas eram feitos muito mais com inspiração do que com transpiração, por isso eles sobreviveram. Nos sambas de agora, você junta dez pessoas para montar uma seqüência de idéias, que não necessariamente estão ligadas com a qualidade, a beleza, a poesia. O samba-enredo hoje passou a ser um acessório e um instrumento que o carnavalesco usa para poder arrumar a escola na avenida e passar daquele jeito. Sendo assim, o samba-enredo não é mais o aspecto principal do samba, deixando de se perpetuar e de ser o samba cantado pela escola.

Nelson Sargento: Tem um detalhe muito importante nessa história toda que é o andamento do samba. Você tem hoje uma passarela que eu não sei, ao certo, quantos metros tem. O fato é que as escolas desfilam com 5.000 pessoas e têm um tempo para passar. Se você não tiver um ritmo de música que faça andar, você estoura o tempo. Se isso acontecer, você perde pontos. Então, o samba tem que ser um pouco marchado. Conseqüentemente, não há mais coreografia na escola de samba. A porta-bandeira e o mestre-sala, que eram os mais bonitos, não podem mostrar sua coreografia: então a porta-bandeira roda e o mestre-sala dá um pinote. A preocupação com o tempo e o andamento violento prejudicaram bastante.

E ainda tem o carnavalesco que quer ser teatrólogo, pois acha que fez uma peça. Ele cria uma história, tem o figurino, tem música e tem um palco, que é aquela passarela. Para mim, a escola hoje é um teatro mambembe.

Mas, mesmo com todos esses defeitos que eu estou apontando, os sambas-enredos ainda são fontes de cultura. A Xica da Silva reascendeu na história do Brasil por causa de um enredo do Salgueiro (em 1963). Monteiro Lobato voltou à tona por causa de um enredo da Mangueira (em 1967). Alguns carnavalescos têm realmente uma noção cultural e pregam isso no samba.


Há quem diga que o Carnaval, hoje em dia, é feito para estrangeiros e para os artistas aparecem nas revistas semanais. Vocês concordam?

Agenor de Oliveira: Isso aconteceu por conta do processo de comercialização. As escolas de samba, assim como os times de futebol, se profissionalizaram a tal ponto que passaram a funcionar como empresas. A televisão fez com que as escolas de samba se preocupassem muito com o espetáculo para o lado de fora do que um prazer para o lado dentro. O processo de profissionalização das escolas levou a isso. E se você está mostrando para o lado de fora, a tendência é você colocar referências conhecidas. Ou seja, os artistas, as pessoas que estão na mídia passaram a ser importantes para as escolas, às vezes não porque elas têm uma ligação efetiva ou afetiva com a escola, mas porque elas vão funcionar como um gancho para a escola vender melhor o seu produto. Virou um marketing: hoje modelos disputam para ver quem vai ser a rainha da bateria e, depois que ela consegue esse lugar, ela vai aprender a sambar.

Nelson Sargento: A escola de samba era o divertimento da comunidade pobre. Enquanto as festas da alta sociedade estavam entrando em declínio, as escolas de samba estavam crescendo, e as pessoas da elite correram para o Carnaval dos pobres, revigorando a escola de samba. Então, a “socialite” que olhava o samba de lado, começou a querer aparecer da melhor maneira possível na escola de samba. Mas tem um negócio: a alta sociedade matou o direito das vedetes das comunidades aparecerem. Dificilmente você vê como rainha de bateria uma pessoa da comunidade.


Os desfiles de hoje são muito rigorosos. Os sambistas têm um tempo para passar pela passarela e é comum ver pela televisão o desespero de diretores de harmonia e de evolução das escolas na tentativa de fazer com que as pessoas andem e a escola cumpre o tempo estabelecido. Por conta disso, houve, no Carnaval desse ano, um incidente com a Velha Guarda da Portela, que foi barrada pelo diretor da escola de entrar na avenida. O que o senhor sentiu ao ver aquilo?

Nelson Sargento: Isso é despreparo de dirigente. Só um cara despreparado para fazer aquilo!

 
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