CIÊNCIA
O catálogo universal da vida, por Paula Sibilia
1
a.r.t.e.
MÚSICA BRASILEIRA

A morte e a morte da canção
Por Coletivo MPB

É preciso compreender a segmentação do mercado para pensar o futuro da música popular brasileira

Há títulos que são muito maiores do que os textos que encabeçam. Quando isso acontece, em geral coloca-se nele a palavra “Manifesto”. Com isso, quer se dizer que o texto não se basta, que ele precisa da ação para ganhar seu verdadeiro sentido.

Este é um texto cujo título o excede de muito. Mas não tem a força e o ímpeto de um manifesto. Tem unicamente a motivação de quem se encheu do papo de ficar procurando substituta para a Elis, da ladainha de que o Chico acabou como compositor e não tem herdeiro e por aí vai. Vamos falar sério então: a canção acabou?

Como o Quincas Berro D’Água de Jorge Amado, a canção morreu duas vezes. E com um intervalo de 40 anos. A primeira morte foi política. A ditadura militar deixou bem claro em 1964 que o suave sonho bossa-novista tinha acabado e que a canção engajada do Centro Popular de Cultura, o CPC, não tinha mais lugar.

Que fizeram naquele momento? Já em 1964, no famoso “Show Opinião”, a “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas” ganhava um sentido inteiramente novo ao entoar: “E, no entanto, é preciso cantar”. Logo no ano seguinte, em 1965, a saudosa “Revista da Civilização Brasileira” chamou vários músicos, compositores e estudiosos para um debate sobre alternativas. Estavam presentes, entre outros, Caetano, Capinam, Tinhorão e Nara Leão.

Diante do fechamento do CPC e da repressão política em geral, os participantes do debate viram como alternativa mais promissora para a sobrevivência da canção a ocupação de espaços na indústria cultural. E o momento era mais que propício: o surgimento da vitrola portátil provocou uma expansão acelerada do mercado de discos e a TV era uma novidade cheia de brechas para a invenção e a intervenção.

Aquela decisão política de intervenção em um momento de rearticulação da indústria cultural brasileira foi decisiva e cheia de conseqüências. Como observou argutamente Roberto Schwarz em um texto de 1970, o Brasil viveu naquela segunda metade da década de 1960 a situação curiosa de uma hegemonia política da direita armada e de uma hegemonia cultural da esquerda. E muito dessa hegemonia cultural se deve justamente à decisão de participar do processo de moldagem da nova fase da indústria cultural brasileira.

Aqueles artistas que participaram desse processo conseguiram o que nenhum outro depois deles: fazer a canção falar para todo mundo.

A herança mais positiva desse momento é uma lição para nós hoje: Chico, Caetano, Gil e Jobim -para permanecer no cânone- criavam praticamente “de dentro” da indústria cultural, mostrando que o elevado padrão brasileiro de elaboração de canções não era incompatível com os meios de comunicação de massa. Essa união jamais se refez.

A segunda morte da canção aconteceu quarenta anos depois e foi, aparentemente, de morte morrida. O legista a dar o laudo -ou a questão para pensar- foi nada menos que Chico Buarque, em uma entrevista à “Folha de S. Paulo”, de dezembro de 2004. É verdade que seu laudo foi menos peremptório do que o de Tinhorão, que já havia dito coisa semelhante em uma entrevista também à “Folha de S. Paulo”, de agosto do mesmo ano. Mas morte é morte.

Entre as duas mortes está justamente a consolidação da indústria cultural brasileira, como sistema integrado de indústria fonográfica, rádio, TV e jornal. Contudo, poesia cantada passou a não combinar mais com a face cada vez mais banal da indústria das mídias. O que se valorizou de um certo momento em diante era a antítese do que havia até então: se veicularia principalmente canções feitas para o esquecimento. O resultado foi devastador.

A pergunta é então inevitável: será que o que morreu não foi a canção tal como inventada nos últimos 40 anos? Mesmo um historiador amador pode constatar as reações violentas às estripulias da geração de Nara, reações que vinham sempre acompanhadas justamente de um “a canção acabou” ou algo semelhante.

Não se trata de maneira alguma de minimizar a importância dessa nova morte da canção. Basta lembrar que um dos seus sentidos mais importantes é justamente a perda da referência de um ideal coletivo de transformação do país.

Se entendermos a segunda morte nesse quadro, talvez o destaque dado por Chico ao rap na entrevista já mencionada surja sob nova luz. O que Chico poderia estar querendo dizer é que o rap -enquanto crítica sociomusical e nova forma da canção, talvez sua substituta, como ele parece acreditar- seria capaz de responder de tal modo aos desafios da atual realidade social a ponto de fazer com que mesmo suas músicas mais críticas compostas na época da repressão política soem ingênuas hoje.

Entretanto, ao contrário do que se passa atualmente com o rap, a figura da canção agora em crise estava orientada -entre muitas outras coisas, certamente- também por uma espécie de grande consenso de fundo que se costumou chamar de nacional-desenvolvimentismo, o projeto de promover um desenvolvimento econômico o quanto possível autônomo, fundado na criação de um mercado interno de importância, capaz de mitigar e eventualmente superar a condição de completa dependência que caracteriza um país cuja economia está fundada simplesmente na exportação de bens primários. Com isso, também seria possível alcançar a independência cultural que permitiria fazer emergir um país autêntico.

Esse projeto se esgotou e fazer política transformadora hoje exige outros e novos caminhos e projetos. No fundo, muito do discurso sobre a morte da canção está ligado a isso. Mas não só.

É preciso ver que também a indústria cultural brasileira mudou, que o mercado fonográfico mudou. E a canção continua sendo uma forma muito importante de expressar essas duas novas situações: a perda de um referencial coletivo de transformação; e a própria transformação do que se entende por cultura no Brasil.

Uma coisa pelo menos é certa: a canção deixou de falar para todo mundo. Esse padrão estabelecido pela geração de Chico é hoje inalcançável. Mas o curioso não é isso. O curioso é que não se percebe nem considera que a canção fala para muita gente.

Por um lado, não é preciso lembrar iniciativas de ordens e proporções tão diversas como o Clube Caiubi em São Paulo, o Songbook no Rio e o próprio prêmio Visa. Não é preciso dizer que “independente” deixou de ser sinônimo de precariedade e improvisação, como lembrou Lobão em uma entrevista recente à revista “Bravo”.

Por outro lado, contudo, uma porção considerável da canção produzida e apresentada sobrevive em função de iniciativas que permanecem individuais. Compositores e intérpretes constroem seus próprios circuitos, desde a gravação e distribuição de CDs até as apresentações e a consolidação de um público. Evitando a lógica da grande indústria fonográfica, mas sem uma organização propriamente dita, muitas dessas iniciativas esgotam suas energias devido ao isolamento.

O que é preciso lembrar é que a consolidação da indústria cultural brasileira trouxe com ela uma segmentação do mercado que não pode ser evitada. Ainda mais, essa segmentação levou a uma segregação por parte dos setores dominantes da indústria daquela parcela da MPB comprometida com a conservação e renovação da tradição da canção.

De modo que o problema hoje não é de atestado de óbito, mas de compreender o que significa essa segmentação e como é possível encontrar, na sua lógica, as brechas para intervir. E, como em 1965, essa é uma decisão política, que exige muita conversa e organização. O melhor começo para isso talvez seja mesmo convidar os interessados para um debate. Este artigo é este convite.

.

Coletivo MPB

É um ajuntamento para ver no que vai dar. Atualmente, é composto por José Roberto Zan (professor de sociologia da música industrializada na Unicamp), Marcos Nobre (professor de filosofia na Unicamp), Henry Burnett (compositor e pós-doutorando na USP) e Rúrion Soares Melo (músico, compositor e doutorando em filosofia na USP).

 



 
1