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LIVROS
Maurice Nadeau: um mito da edição Aos 94 anos, o editor que revelou Malcolm Lowry, Roland Barthes e Houellebecq continua na ativa Maurice Nadeau é um monumento não-tombado do patrimônio intelectual francês. Viveu a maior parte do século XX e participou da vida intelectual por dentro dos acontecimentos, tanto como crítico literário quanto como editor. Amigo de Breton, escreveu uma “História do Surrealismo” que é referência no assunto. Conviveu com o escritor Albert Camus, que dirigia o jornal “Combat”, onde Nadeau trabalhou como crítico literário. Apesar de ter tido amigos que se chamavam Jean-Paul Sartre e Henry Miller, não vive do passado nem de suas relações com os grandes nomes. Seu dia é curto para tanto trabalho, seja no fechamento do jornal “La Quinzaine Littéraire”, seja na edição de livros. Aos 94 anos, o deão dos editores e jornalistas franceses mantém uma atividade febril na editora que tem o seu nome e na “Quinzaine Littéraire”, que fundou em 1966. Em politica, o antigo trotskista -que criou com Pierre Naville o jornal “La Vérité”- continua um irrequieto homem de esquerda que não tem receio de citar Trótski como seu herói e declarar voto no candidato trotskista a presidente. De sua sala, em frente ao Beaubourg, ele comanda a editora, o fechamento do jornal e as reuniões de pauta do comitê de redação, regadas a uísque, suco de laranja e água mineral. “Ser crítico literário e jornalista me dá tanto prazer quanto ser editor”, confessa Nadeau, que nunca teve de escolher uma atividade e ainda acrescentou a de ensaísta às outras. Ele é um editor sui generis, que assina livro como autor no alto e como editor em baixo. Entre suas obras mais conhecidas, “Gustave Flaubert écrivain” ganhou o prêmio da crítica literária, em 1969, quando foi lançado. Na “Quinzaine”, Anne Sarraute, filha da grande escritora Nathalie Sarraute, é a secretária de redação que assegura o fechamento do jornal, juntamente com o escritor e crítico literário Bertrand Leclair. Em sua longa vida de crítico literário, Nadeau revelou aos franceses escritores como Samuel Beckett e Malcolm Lowry e foi responsável pelo lançamento de Roland Barthes e Benjamin Perec, para citar apenas alguns de uma enorme lista. Foi também Nadeau quem editou o primeiro romance de Michel Houellebecq, “Extensão do domínio da luta”, em 1994, após as editoras Seuil e Gallimard recusarem o livro. Nas edições Maurice Nadeau, o editor continua a revelar nomes desconhecidos, pois gosta mesmo é de apontar novos talentos. Há alguns anos, Nadeau escreveu uma autobiografia original (“Grâces leur soient rendues”, ed. Albin Michel), na qual conta pouco de sua própria vida, pois o livro é, na realidade, um pretexto para compor deliciosos perfis de escritores, a partir de episódios vividos. Se não fosse Nadeau, Sade continuaria um autor proibido. Foi ele que teve a iniciativa de publicar os textos do divino marquês, que dormiam no “Inferno” -a protegidíssima seção de livros eróticos e pornográficos da Biblioteca Nacional da França. Durante meses, ele foi à biblioteca copiar os textos, alternando-se com outra pessoa, até ter a obra pronta para publicação. Há poucos anos, a marca Louis Vuitton criou juntamente com Nadeau a coleção "Voyager avec", que logo se tornou cult. No selo “Quinzaine Littéraire-Louis Vuitton” já foram publicados textos de viagem de Joseph Roth, Rainer Maria Rilke, Walter Benjamin, Mário de Andrade, Jacques Derrida, Virginia Woolf, D. H. Lawrence e Paul Morand, entre outros. Na entrevista a seguir, Nadeau fala de literatura e de política e não se furtou a responder algumas perguntas do famoso questionário Proust. Sempre com uma sinceridade e uma jovialidade impressionantes. * O senhor tirou Sade do “Inferno” da Biblioteca Nacional da França. Como surgiu a idéia de publicar Sade? É verdade que o senhor ia copiar os textos do marquês na biblioteca até tê-los completos para publicação? Maurice Nadeau: Sim, é verdade, mas eu tinha uma amiga que me ajudava. Com os microfilmes, tudo ficou mais fácil. Pude entrar no “Inferno” porque era jornalista e fui recomendado por um grande jornal da época, “Combat”, que tinha Camus como jornalista. Pascal Pia pediu ao conservador da época que me deixasse consultar o acervo do “Inferno”.
Nadeau: Não fiquei impressionado imediatamente...
Nadeau: Era um romance que tinha sido recusado por todo mundo, no Seuil, na Gallimard, em vários lugares. E eu não sabia. Os manuscritos me foram dados por um amigo de Houellebecq.
Nadeau: Não foi bem assim. Honestamente, pensei: bem, é um primeiro romance, é interessante. Publico em geral primeiros romances, depois os autores se viram. Mas eu não fiquei muito entusiasmado. E, depois, tinha uma espécie de desespero naquilo, o desespero de jovem que procurava, que tinha uma trabalho em informática que não lhe agradava muito... Ele procurava o amor. Era uma expressão da época e acho que ainda vale para hoje. Continha um sentimento que eu via na literatura, o dos jovens que tinham uma certa cultura, que tinham feito estudos e que eram destinados a funções de direção. Hesitei um tempo porque, na época, como ainda agora, era difícil publicar um primeiro romance. Existe um Centro Nacional do Livro que ajuda nas traduções, mas para o primeiro romance é preciso se jogar na água. Pode-se perder dinheiro com os primeiros romances que publicamos. Ao mesmo tempo, sinto-me no dever de publicar. Devo publicar. Por isso, publiquei-o, mas foi o autor que insistiu. Ele tinha sido recusado em outras editoras e contava comigo por causa dos meus antecedentes. Fui um trampolim para ele.
Nadeau: Olivier Besancenot me interessa muito. Eu votarei nele pois é jovem, é carteiro e continua a trabalhar, é inteligente, cheio de idéias, está no bom caminho. Gosto muito dele. Resta saber se é um político. Os trotskistas da minha época começávamos por ler. Não líamos “O Capital” inteiro, mas conhecíamos Trótski, Bukarin… A política era uma escola de cultura. Se passássemos pelo trotskismo, ficávamos menos ignorantes que os outros. Tínhamos essa ilusão, mas havia algo de verdadeiro. Pessoas como eu, que vinham de pais operários ou do povo, nos tornávamos pessoas que podem raciocinar como filósofos, economistas, que foram formados por essa escola do contato com os outros, as reuniões, as experiências. A escola republicana me fazia sair desse meio, eu me interessava por literatura e por muitas outras coisas.
Nadeau: Não creio que sejam mas a formação deles é bem diferente da nossa. Na minha geração, havia alguns intelectuais, mas havia também operários, uma classe média que se formava na política. Esses de agora foram formados pelos estudantes, a partir de Maio de 1968. Não conheço a composição atual do grupo da Liga Comunista Revolucionária (LCR). Vejo que há sobretudo intelectuais. Eu votaria em Besancenot.
Nadeau: Ele levou um tempo para poder me dizer ou mandar dizer. Eu não lhe mandei o livro quando saiu porque ele estava nos Estados Unidos. Foi durante a Segunda Guerra, durante a Ocupação alemã.
Nadeau: Não, fiz porque estávamos durante a Ocupação e tinha a impressão de que tínhamos vivido um grande movimento, que havia acabado, pois todos tinham partido, Benjamin Péret, Breton e os outros. E os jovens que eu conhecia não sabiam o que tinha sido o Surrealismo. Então, achei que devia escrever como quem diz: “Foi formidável, foi assim”. Eu não era uma testemunha direta, tinha tido amigos no grupo, mas não era um artista, não era um poeta, não era um pintor. Antes da guerra, eu era apenas professor. Quis escrever para dizer: “Isso existiu, a guerra vai terminar um dia, vocês podem tomar como exemplo esse movimento”. Não enviei a Breton, que estava nos Estados Unidos, porque me dizia também que ele iria achar o livro ruim. Fiz uma grande pesquisa para o livro, entrevistei os que ainda estavam em Paris, Raymond Queneau, Michel Leiris, Pierre Naville, um dos fundadores do grupo, que era meu amigo. Tinha colecionado revistas. Breton ficou encantado de saber que se contava a história do movimento surrealista. Ele demorou a voltar a Paris depois da guerra e fui entrevistá-lo para o “Combat”. Ele parecia contente com o livro, menos com a foto. Ele sempre deu importância à aparência. Era uma foto feita por máquinas photomaton, uma novidade na época, e ele não estava bem. Mas depois ele mudou e passou a ter raiva de mim, que foi aumentando com o tempo, a medida em que ele ficava mais conhecido até estar coberto de glória. Compreendo que ele tenha ficado amargo em relação a mim, mas depois chegou a me convidar para ir a sua casa, mas eu não tinha tempo, estava sempre ocupado como editor e jornalista. Os laços se cortaram. Eu lamentava, claro. No fim da vida, ele se reconciliou com todo mundo, com Artaud, Bataille, Leiris, Queneau, e até mesmo com Aragon, que fora seu grande inimigo. A mim, ele me enviou um livro com uma dedicatória, dizendo que não fora ele quem começara. O assunto estava encerrado.
Nadeau: Ele muda com o tempo. Hoje, penso em Stendhal, que andei relendo durante as férias. Eu não gostava muito do personagem, talvez por estar influenciado por Flaubert, que via nele um mundano. Relendo “O vermelho e o negro”, vejo como era corajoso, tinha audácia, consegue fazer passar suas idéias políticas através do romance. É um herói literário, mas tenho um herói político também.
Nadeau: Trótski. Sempre ele. Conheço as histórias menos nobres sobre ele, mas foi o homem que mais me impressionou, pois foi escritor, pensador, político e fez muita coisa.
Nadeau: Mas é um pouco uma imagem que faço dele, não digo que seja um Trótski idealizado, mas é o Trótski como o vejo.
Nadeau: É o homem que não chama atenção para si. Não se pode dizer que seja modesto. O que prefiro num homem é a qualidade, como poderia chamá-la? Não é humildade, não é modéstia…
Nadeau: Sim, a simplicidade, o homem que não se exibe, é discreto.
Nadeau: Na mulher é preciso muitas qualidades. Primeiramente, a beleza, enfim, uma forma de beleza. Precisa também da inteligência, do amor. O sentimento de que estamos próximos, que se chame amor ou não. Mas, enfim, que não se pode viver um sem o outro. Mas é difícil encontrar isso numa mulher, não se vê à primeira vista. Existe a paixão, mas não é isso. É quando se diz, não preciso procurar, nem subir num banco para contar minhas qualidades, me valorizar. Sinto que ela me compreende imediatamente, vê-se imediatamente. Meus laços sempre foram assim. Vejo imediatamente, é alguém que me dá vontade de segurar na mão, de tocar imediatamente. Se a gente não é rejeitado, é por aí.
Nadeau: Foi um pintor que descobri tarde, no Museu Hermitage, em São Petersburgo: Rembrandt. É curioso, porque eu o conhecia como todo mundo. E lá tem três quadros dele, o auto-retrato, a moça com a mão no seio e outro. Tive a revelação da pintura. É difícil isso, que ao ler alguém tenhamos a revelação de que é literatura e nada mais.
Nadeau: Não conheço música. Vem da formação da escola republicana. Não tínhamos lições de música, é uma lacuna.
Nadeau: Mas é uma mistura terrível.
Nadeau: É um roqueiro, Elton John, e... Mozart.
Nadeau: Sim, mas principalmente Elton John, porque não é um roqueiro como os outros.
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