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ensaio
HISTÓRIA
Cristãos ardentes Práticas religiosas dos brasileiros no período colonial espantaram os viajantes e os padres estrangeiros O bom e velho Pero Vaz de Caminha, homem sério, ainda que dotado de pouca cultura e quase nenhuma imaginação, disse na sua renomada carta que os seres com "bons rostos e bons narizes" que por aqui viviam demonstravam um pendor todo especial para crer em algo, daí a predisposição de espírito que teriam para receber o deus verdadeiro, o deus cristão. Dizia o singelo escrivão que, segundo a sua humilde opinião, "outra coisa não falecia a essa gente, para ser toda cristã", do que entenderem a língua dos portugueses. As décadas e séculos vindouros não deram lá muita razão ao célebre escrivão. A bem da verdade, quando se leva em conta a desilusão dos missionários que por aqui aportaram -as lamurientas cartas dos padres da Companhia de Jesus, salientando o pouco que a pregação missionária entrava nos corações e nas cabeças dos nativos, são exemplares neste sentido-, pode-se mesmo dizer que Caminha errou redondamente no que tange aos nativos, mas somente no que tange aos nativos, pois, como numa espécie de vaticínio, acertou, ao menos em parte, no tocante aos colonos dos trópicos, uma criatura que desde cedo mostrou grande pendor para crer barulhenta e festivamente em qualquer coisa. Os jesuítas, de novo eles, talvez tenham sido os primeiros a perceber, não sem alguma revolta, tal inclinação do colono e, consequentemente, o caráter ardente mas degenerado que a religião católica vinha tomando nestas terras quentes -religião que, de cristã, segundo os bons padres, conservava somente um detalhe aqui e outro acolá. Todavia, a desaprovação da Companhia, ou das muitas outras ordens que se instalaram no Brasil -ordens que cedo deixaram de lado a enfadonha e inglória missão de converter os gentios e passaram a se dedicar aos fiéis que estavam mais à mão (brancos, negros e mestiços)-, de pouco serviu para deter o avanço e a consolidação desse cristianismo devoto, porém, de contornos próprios. Ao contrário, pelo que tudo indica, tanto o clero secular como o regular trataram rapidamente de, com mais ou menos reclamações, ajustar as suas crenças, princípios e exigências aos gostos locais. Desenvolvemos, então, com a benção dos representantes tortos de Roma -lembremos que a igreja no Brasil era mantida e regida pela coroa lusitana (padroado)- e com a devoção de que somos capazes, um cristianismo de cor local, cristianismo sensualista, eclético, antipático à introspecção e moralmente pouco exigente, como observou, não sem uma ligeira tristeza, o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Um cristianismo singular, que cedo, muito cedo, causou espanto aos cristãos de além-mar que o conheceram. A lista dos que registraram o seu estranhamento em relação às práticas católicas dos colonos é longa e variada. Há, por exemplo, o registro protestante, feliz por supostamente encontrar nestas plagas uma rotunda demonstração das perversidades inerentes à prática romana, ao papismo, como gostavam de dizer. O inglês Arthur Phillip é um desses detratores reformados. Na meia dúzia de páginas do seu relato dedicadas ao Rio de Janeiro, por onde passou em 1787, o Almirante não se esqueceu de tecer um longo comentário sobre a religiosidade do carioca. Diz o primeiro governador da Nova Gales do Sul (Austrália): “O que neste país mais chama a atenção de um estrangeiro, principalmente de um protestante, é a quantidade prodigiosa de imagens de santos espalhadas pela cidade e a devoção de que são alvo. Essas imagens estão colocadas em quase todas as ruas e os habitantes jamais passam por elas sem fazer uma respeitosa saudação. Durante a noite, os devotos reúnem-se em torno do seu santo de eleição, recitam preces e cantam, em bom som, hinos religiosos. Os costumes dos habitantes, no entanto, segundo se comenta, não faz jus a esse excesso de fervor”. Ponderado, porém, conclui: “Mas, é preciso dizer, em todos os países, sob todos os climas, os atos exteriores de devoção superam os atos interiores, estes bem mais essenciais”. Outro britânico reformado, George Vason, um pastor protestante que passou pelo Rio de Janeiro em 1796 a caminho de uma aventura missionária no Taiti, foi ainda mais longe e, depois de trocar impressões com outros missionários seus colegas de expedição, registrou essa breve mas contundente observação sobre a religiosidade dos habitantes: “Deixamos a cidade, lamentando a ignorância e a superstição dos habitantes. Chegamos mesmo a comentar: trata-se de um lugar mergulhado na quase completa escuridão. A religião idólatra e anticristã que pratica o povo não está muito longe dos cultos pagãos”. Ainda na linhagem crítica protestante, pelo menos mais dois nomes, dado o caráter modelar dos comentários que deixaram, não devem ser esquecidos: Jemina Kindersley e Watkin Tench, ambos britânicos e ambos visitantes do século XVIII. A primeira, Jemina, passou por Salvador em 1764; estranhou a quantidade exagerada de igrejas e de religiosos na cidade, censurou ferozmente o enorme poder de que dispunha o clero na sociedade soteropolitana, apontou uma certa pusilanimidade na fé dos baianos e arrematou: “Observando a animada e constante devoção da gente daqui, ocorreu-me que a completa simplicidade do culto protestante, tão a propósito para aqueles que sabem distinguir a substância do reflexo, está muito distante do brilho e da ostentação que tanto prendem a atenção e excitam a imaginação do vulgo. A confissão, por exemplo, quando praticada sem excessos, é uma excelente instituição; se os padres católicos cuidassem da moral do seu rebanho com o mesmo zelo que buscam atrair fiéis para a sua igreja, este seria o povo mais virtuoso do mundo”. No que tange a Tench, seu jocoso comentário sobre a religiosidade carioca de 1786 dá bem o tom do que pensavam os protestantes diante do espetáculo proporcionado pelo catolicismo dos colonos, barulhento e excessivo nas suas manifestações. Diz-nos o tenente: “De manhã até à noite, os ouvidos do estrangeiro são brindados com o repicar dos sinos dos conventos e seus olhos, saudados com procissões de devotos. Nessas últimas, a piedade e a leviandade caminham lado a lado, revezando-se continuamente. (...) Quem quiser que o filho tome aversão ao papismo, basta expô-lo à preguiça, à ignorância e à beatice deste lugar”. Mas há, também, e isso é de se pensar, ao lado da satisfeita crítica anglicana, a censura saída da pena de católicos europeus, tão espantados com o catolicismo praticado na colônia quanto os seus rivais protestantes. O espanhol Francisco de Aguirre é um bom exemplo. O católico ibérico, que residiu dois meses no Rio de Janeiro em 1783 e pôde conhecer mais de perto o cotidiano da população, lançou dúvidas contundentes sobre a devoção dos cariocas. Após testemunhar um grande número de movimentadas procissões, devotadas penitências e animadas novenas, Aguirre disparou: “A tomar pelas manifestações exteriores de devoção os portugueses do Rio de Janeiro são realmente os melhores católicos do mundo. Contudo, tais manifestações nem sempre correspondem à devoção íntima, aos sentimentos que vão na alma”. Mais ou menos três décadas antes do desconfiado espanhol, em 1751, outro católico, o abade La Caille, atento talvez aos tais sentimentos que vão na alma, deixou, a propósito de uns penitentes que andavam noite adentro arrastando pesadas correntes pela rua do Rio de Janeiro, a seguinte nota: “A conduta desses penitentes é tão escandalosa durante o dia quanto edificante durante à noite. Meu sono foi freqüentemente interrompido pelo barulho das suas correntes e pelos seus gritos implorando misericórdia”. Haveria ainda, percorrendo as páginas dos escritos legados pelos europeus que visitaram a distante colônia portuguesa dos trópicos ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, dezenas de outros comentários a mencionar, todos, no entanto, encaminham-se na mesma direção, magistralmente sintetizada por um francês, La Flotte, que passou pelo Rio de Janeiro em 1757 e asseverou que as muitas práticas religiosas da colônia acabavam por degradar a verdadeira -entenda-se européia- religião católica. Seriam exageros de visitantes apressados e carentes do que muito recentemente passamos a denominar relativismo cultural? Talvez. É certo, todavia, que tais opiniões acerca dos colonos, exageradas ou não, alimentaram o repertório intelectual europeu e, em larga medida, condicionaram a ação daqueles homens do Velho Mundo que desembarcaram por aqui. É bom lembrar, igualmente, que muitas dessas xeno-impressões sobre a peculiar religiosidade aqui praticada ganharam foros de verdade no discurso da incipiente inteligência brasileira oitocentista e fizeram carreira na cultura nacional. Para mais, gostemos ou não, é inegável que, ao lermos essas xeno-descrições, nós, brasileiros do século XXI, lembramos de imediato das sonoras e entusiasmadas manifestações religiosas dos carismáticos, dos neopetencostais e de outras tribos que o artesanato religioso local vem produzindo nos últimos tempos. (Publicado em 18/11/2005) . Jean Marcel Carvalho França
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