CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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O mecanismo de segmentação garante um pouco de público. E a gente pode examinar isso tanto através de noticiários como de entrevistas. Você tem uma porção de âncoras, de âncoras para jovens, para velhos, para evangélicos, para um público culto, até gente com fumaças de pretensão social e cultural, como a Marília Gabriela, que é uma coisa para executivo, para simplificar numa chave caricata. Então a segmentação -que TV a cabo investe de forma estridente- também acontece na TV aberta, pois ela é muito mais diferenciada da que existia na época em que eu fiz a análise.

Acho que a gente tem que temperar um pouco o impacto da televisão se perguntando sobre quais são as variáveis que interferem sobre tal repercussão. Hoje, o monopólio exercido no final dos anos 80 não existe mais; acho que agora a competição entre as mídias é de fato muito maior.


Que diferenças você nota entre comunicadores como a Hebe, o Chacrinha, nos anos 70, e atuais, como a Marília Gabriela e o Jô Soares?

Miceli: Quem está se comunicando na televisão? Qual é o repertório que está passando? Por que os programas de auditório nesses anos fazem tanto sucesso? Minha interpretação no livro é de que eles são mostruários de atributos dos espectadores. O tempo todo o que o Chacrinha fazia? Ele batia no pandeiro, na boca, na barriga; ele, o tempo todo, estava chamando a atenção para si mesmo, para o próprio veículo da comunicação, para o fabricante da comunicação. Isso é a televisão e ele sacou a coisa quente da televisão.

A Marília Gabriela é para outra categoria. É para um segmento educado, pretensioso, com uma hipercorreção na fala. A Adriane Galisteu tem correção na fala e a Luciana Gimenez tem uma fala incorreta de propósito, justamente para fazer tipo -é claro que ela construiu uma persona dramática; e, como outros, é uma persona que cola porque retém muitos atributos e expressões em que o espectador se reconhece e com os quais ele se identifica.

O público da Marília Gabriela acha que o modelo de excelência social é isso, enquanto o público da Hebe acha que o modelo de excelência social é ela: uma mulher bonita, cheia de jóias, próspera, vistosa. Isso não é o perfil da Marília Gabriela; a imagem da Marília Gabriela é “clean”, uma fala hipercorreta, um ponteio frisante nas ênfases, todo um borbulhar de informação dispensável, de gordura cultural ostentatória, antes mesmo de enunciar a primeira pergunta. Tem um lado de empulhação, mas para um público que gosta de ser logrado em matéria cultural é perfeito. Porque ela está vendendo pose para quem é afetado.


Você vê isso também no Jô Soares?

Miceli:O Jô Soares é um caso mais complicado, pois ele mobiliza muito da experiência dele de teatro, do lado cômico, do lado histriônico. Aparentemente isso está adormecido, mais isso é central na entrevista; se você olhar bem, de cara ele mobiliza franqueza na relação com o entrevistado e isso tem um lastro dramático. O Jô tem uma cancha de palco, e a entrevista é o centro de uma fala supostamente improvisada, uma exibição meio chanchada de dotes cômicos. A Globo domesticou um pouco a cápsula de pretensão, criou essa embalagem algo postiça. Mas eu acho que o programa sobrevive não pela embalagem, e sim pelo que ainda sobra e pulsa de energia das palhaçadas do antigo Jô.


Estamos passando por um momento político complicado no país: a crise do “mensalão” e as CPIs ocupam espaço nas diversas mídias. No que diz respeito a essa crise, como você vê a cobertura feita pela internet, quando posta em comparação com a que é feita pela televisão?

Miceli: A internet entrou para mudar. Vejamos o exemplo do escândalo do “mensalão”. É visível como o consumidor migra de mídia. Porque a cada hora essas mídias estão contribuindo com uma coisa para que ele recupere a informação. Ele vê o depoimento ao vivo, tem o comentarista no site, o blog, ele vai desde a entrevista que a Lilian Witte Fibe está fazendo com um especialista até o dia seguinte, quando lê a repercussão da entrevista. Com a internet ele monta uma espécie de painel de opiniões, de dados e de tendências sobre uma coisa que não se consegue discernir -só vendo o depoimento.

A internet é uma mídia doméstica muito plástica. Você pode ter o correio pessoal, a informação objetiva, a informação de segunda mão, o comentário, a notícia fresca. Ela cumpre muitas funções comunicativas que aparecem de certa forma dispersas nas outras mídias.

Na televisão, o “Jornal Nacional”, por exemplo, é uma espécie de agência de notícias oficial. É uma coisa plantada como imagem do inicio ao fim -não é só o problema do roteiro, da notícia que é selecionada, é como a notícia é traduzida do ponto de vista iconográfico. Então, é uma coisa totalmente domesticada. A internet não consegue fazer muito isso, porque ela não pode fazer só isso. Claro que vai ter milhares de pessoas tentando explicar porque isso ocorre desse modo.


Nesse sentido, como você vê a participação de intelectuais na mídia, em particular na televisiva? A televisão é um veiculo apropriado para o debate de idéias?

Miceli: Não! A televisão não é o veículo apropriado para a intervenção de um intelectual de jeito nenhum, pois na televisão você tem que dar respostas simples, confortáveis, rápidas, num repertório extremamente rebaixado. Para a atividade intelectual, não se trata exatamente de confluências positivas. Quer dizer, a televisão é um instrumento diluidor por excelência e é como ela funciona (é não se fazer ilusões).

Às vezes eu vejo o “Roda Viva”. Os personagens dele me interessam, mas no geral saio muito decepcionado. Eu percebo o seguinte: quando a discussão começa a se tornar mais tormentosa, com mais imponderáveis, com maior dissidência, com maior nitidez em termos de divergência, aquilo é impossível de segurar, e logo o âncora se manifesta para dar um rumo. Porque é como se aquilo intranqüilizasse a todos e acaba por se tornar inviável do ponto de vista comunicativo. Então tem que voltar para um esquadro convencional, o mote da normalização é o pão, pão, queijo, queijo -o branco é branco e o preto é preto, não tem tonalidade, nem matiz.


Tomo um autor que você não cita em “A noite da madrinha”, Guy Debord, de “Sociedade de espetáculo”. Na crise do “mensalão”, você entende que a TV funciona como palco onde se espelha a idéia de espetacularização?

Miceli: Isso é uma coisa muito geral. Você falar isso no geral, sem atentar para as tradições, para a história cultural do país, o enraizamento disso tudo... Eu não me convenço de um negócio desse. Mesmo se você falar de sociedade de espetáculo nos Estados Unidos: o que é? Se você atentar para a cultura cinematográfica, então aquilo faz um sentido. Sem isso, de que estamos falando? Eu acho um discurso muito retórico. É um discurso que parece convincente pelo bombardeio que faz -de que está dizendo alguma coisa sobre um mecanismo expressivo-, mas o mecanismo expressivo está ancorado em quê? Com quem? Para quem? Sem essas perguntas, é um pé de barro essa história. Por isso, eu não gosto desse tipo de análise. Porque esse tipo de análise é muito centrado numa recuperação exacerbada do mecanismo discursivo.

Quando você fala na espetacularização, eu acho que todo esse escândalo tem aspectos tão prosaicos, tão pouco espetacularizados, tão pequeninos, que eu não vejo nada de espetacularização. São milhares de incidentes pequeninos, tudo miudinho. A dificuldade -até de inteligibilidade política de todo o quadro- é o de você tentar construir os ligamentos entre os fluxos de dinheiro, os beneficiados, os intermediários; é o de reconstruir politicamente esse tabuleiro.


Aproveito a idéia de espetáculo do Debord. No mundo da moda, ao considerarmos a ideologia do luxo, a hegemonia de marcas caras, como Prada e Louis Vuitton, a idéia de espetáculo se aplica melhor?

Miceli: O mundo da moda é um universo ficcionalizado da propaganda. Mal comparando, o teatro, num determinado momento, era o principal veículo, e a atrizes funcionavam como modelos. Elas eram um pouco as difusoras de toaletes, de novas indumentárias. O teatro no século XIX na França era isso: as atrizes eram meio prostitutas, meio modelos. Então você tem sempre um universo ficcionalizado, mais ou menos profissionalizado, que vincula a imagem do feminino à indumentária, ao estilo de vida. E a moda o que é senão isso?

O luxo, para quem é o luxo? Uma coisa é o luxo veiculado na mídia, para um efeito espetacularizado. As revistas femininas -que são para a classe baixa ou para a classe média- difundem modelos, repertórios, linguagens, tabelas de cores para uma dada estação, corte de cabelo, maquiagem para pessoas que podem ou não comprar ou podem comprar a diluição disso tudo. Quer dizer, a moda funciona sempre no sentido “trickle-down”: a mulher compra a coisa que é de fabricação única, depois você tem o prêt à-porter, até a Zara e todas as lojas de difusão de roupas em série nas araras, destinadas ao consumidor popular. Essas peças de vestuário em araras retêm alguns signos daquilo que está lá em cima na hierarquia social, naqueles artigos de luxo para deleite de uma elite endinheirada e por vezes requintada culturalmente. Então, na próxima estação mudamos os signos.

Agora esse negócio do “trickle-down” já foi explicado. O que aconteceu mais? A coisa que talvez tenha sido mais novidade é de que esse mundo da moda foi impregnado e comprometido com outros universos de experiência: o mundo gay, as drogas. A moda é mais permeável a todos esses fluxos de costumes. Isso eu acho que pode ser uma novidade. Como você acabou de falar, a moda se tornou um suporte inovador, de uma certa maneira, pois ela tem um espaço na mídia; ela se tornou um domínio muito especializado com seus produtores, seus intermediários.

Estou lembrando do filme do Altman (Robert), “Prêt à-porter”. Este filme mostra um universo profissional por dentro; quer dizer, quem são os intermediários, as modelos, o figurinista, o pessoal que está na linha de montagem, o vestido, o ateliê, a perfumista e todos os aproveitadores, o pessoal que parasita em torno, os cachorrinhos fazendo cocô no meio da sala, as colunistas, a diretora da “Vogue”. A moda é um domínio profissional, que mobiliza um investimento maluco.


Como se explica o espaço que a moda conquistou na mídia? Por que as marcas se impuseram tanto em nossas vidas? Como se deu esse processo?

Miceli: Esse padrão expressivo através da moda é uma coisa muito antiga. Desde que começou a sociedade de corte. A sociedade de corte impôs esse padrão inelutável do alto para baixo. A moda tem a ver com a unificação do gosto, com o controle da unificação do gosto. O luxo na sociedade de corte não é uma coisa ostentatória, é uma despesa necessária para garantir a posição. Portanto, não é uma coisa que é uma despesa perdulária, não é essa a idéia.

A nobreza tem que gastar o que for necessário a ponto de se arruinar economicamente porque você não pode garantir o seu ninho sem fazer jus a ele. Não é como uma ostentação, não é uma bagatela. O luxo na nobreza não é uma ninharia, não é uma bobagem, é uma coisa central na imagem simbólica dela. Tudo começou nesse momento. Quer dizer: o luxo, a ostentação, a compra da coisa por qualquer preço. Se você é um duque, tem que viver como um duque, a sua casa tem que ter a projeção, o terreno; você não pode morar numa casa que seria do marquês, nem no palácio de Versalhes, que é do rei.

Então, o mecanismo de “trickle-down” é um antigo processo social de inclusão e exclusão. E isso começou lá longe; o capítulo central do livro do Norbert Elias (“A sociedade de corte”, Jorge Zahar Editor) é sobre a etiqueta, é sobre a moda. Quer dizer: como é que você constrói uma unificação simbólica através de um estilo de vida e é invejado, curtido, apreciado e que é imutável? Porque isso passa para a burguesia, que tenta se aristocratizar. Assim, muitas coisas de nosso estilo de vida têm a ver com o modelo que vem dessa nobreza.

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O livro

"A noite da madrinha", de Sergio Miceli. Ed. Companhia das Letras. 360 págs. R$ 52.

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Humberto Pereira da Silva
É professor de filosofia e sociologia no ensino superior e crítico de cinema, autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).



 
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