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CULTURA

A fetichização do conhecimento
Por Flavio Moura

Sucesso dos cursos breves e das feiras literárias, como a Flip, está relacionado ao esgotamento da universidade

Mesmo passados mais de três meses desde sua última edição, que se realizou em julho de 2005, a Festa Literária Internacional de Parati ainda é assunto que rende discussão. Ela se tornou o evento mais ilustrativo dos mecanismos que regem a relação entre escritores, jornalistas, editoras e leitores no Brasil. Nenhum outro acontecimento relacionado à literatura recebeu tanta atenção em tempos recentes nem foi tão capaz de transformá-la em chancela de prestígio intelectual, não importa que sua efetiva ressonância sobre a cultura brasileira continue em baixa.

Em três anos de existência, o evento contribuiu para tornar nítida uma série de questões que estavam latentes no ambiente cultural brasileiro e tornou-se referência inescapável para pensar os mecanismos de consagração que operam no restrito e auto-referente meio literário do país.

Como pouquíssimos outros acontecimentos promovidos no Brasil, a Flip foi capaz de concentrar no mesmo espaço e em torno dos mesmos interesses parte significativa do capital econômico, político, social e cultural do país. Desde sua primeira edição, fez com que presidentes de banco, ministros de Estado e figuras de diversos segmentos da cultura vissem ali motivos suficientes para compensar o deslocamento e a pouca familiaridade com a obra da maioria dos convidados.

Intelectuais no topo da hierarquia acadêmica temperam ali sua necessidade de exposição. Cronistas de antiga cepa aproveitam para coletar causos para seus textos. Editores, mesmo que alguns a contragosto, avaliam a possibilidade de renovar seus catálogos. Jovens escritores encontram vitrine de que jamais disporiam. Jornalistas atualizam oportunidades de trabalho, pautas ou munição. Medalhões da literatura internacional revêem, entre um passeio de barco e outro, o estoque de preconceitos sobre o país. Astros da música popular encontram tempo para uma partida de futebol “longe dos holofotes”. Atrizes da moda buscam contrapeso para a imagem de futilidade que a TV lhes confere. Cineastas na berlinda entre o cinema de mercado e o “autoral” reafirmam seus pendores literários. Comentaristas de telejornal destilam obsessões malcriadas “contra a USP e a Unicamp”. O poder local disputa a atenção dos visitantes ilustres. Cada qual a seu modo, todos têm dividendos a colher nos cinco dias de evento.

Num país em que a tiragem média de um livro de ficção é 3 mil exemplares, não é improvável que muitos autores -são 700 lugares no auditório principal e mais de mil na tenda instalada na praça da cidade- tenham tido mais público ali do que compradores para seus livros ao longo de toda a carreira. Em 2004 e 2005, por exemplo, 12 mil pessoas estiveram na cidade, além de 400 jornalistas. Só no ano passado, a cobertura da mídia, com direito a inserções ao vivo no Jornal Nacional, foi maior do que a da Bienal do Livro de São Paulo, visitada por mais de 500 mil pessoas durante 11 dias.

Um modo de esboçar uma reflexão sobre esse fenômeno pode ser encontrado na dinâmica particular que envolve a organização da Flip, bem como no choque que a festa produziu entre o mercado de livros e uma produção cultural que pode ser caracterizada como de elite. E isso num momento em que se assiste a uma sofisticação dos meios de divulgação cultural, à criação de novas arenas para o debate de idéias e a um processo crescente de culto às disciplinas mais prestigiosas das ciências humanas.

Do ponto de vista da organização, importa lembrar que a Flip não é um evento do mercado editorial pura e simplesmente, mas uma festa literária que pretende reunir autores cuja produção não se restrinja a uma busca imediata por sucesso de vendas. Em contrapartida, basta uma olhada rápida na programação dos três anos para notar que tampouco podem ser chamadas de “marginais” ou ainda de refratárias ao mercado as casas editoriais que dela participam. Daí que não sejam muitas as editoras com entrada efetiva no evento: de São Paulo, podem-se listar a Companhia das Letras, a 34, a Planeta, a Cosac Naify e umas poucas mais. Do Rio, a Objetiva, a Record, a Nova Fronteira, a Agir e, quando muito, a Rocco. E, entre as estrangeiras, a Bloomsbury.

Nesse cenário, não há como não reservar espaço para esta última, que responde pela idealização do evento, e para a Companhia das Letras, de atuação determinante para a sua formatação. As duas se beneficiam de uma composição entre prestígio intelectual, poder econômico e trânsito social que ajuda em parte a entender o prestígio cultural de que se reveste a Flip.

Detentora de um poder de legitimação intelectual sem equivalente no Brasil, a Companhia foi uma empresa geradora de transformações significativas na indústria do livro nas décadas de 80 e 90. Ocorre que, ao menos de início, a inovação não veio a propósito de um enfoque ostensivamente voltado para o mercado. Desde os primeiros anos de sua fundação, soube apresentar-se como uma empresa comprometida apenas com a qualidade artística de seus produtos.

Somado ao cultivo de contatos importantes com setores da universidade, da mídia impressa e do capital financeiro, esse trabalho, impulsionado por uma conjuntura econômica favorável, contribuiu para uma aceitação quase irrestrita de seus livros pela imprensa cultural. A editora tornou-se um modelo de produtora de cultura que soube tirar proveito da imagem de credibilidade que acumulou à custa de uma submissão exemplar às exigências da produção “pura”. Em outras palavras: conseguiu emplacar diversos best-sellers sem com isso perder a força de sua chancela.

A inglesa Bloomsbury conseguiu feito semelhante. À parte do mainstream do mercado editorial inglês, era vista como uma “farejadora de talentos” -basta, a esse respeito, notar as mesuras com que a ela se referem autores como Julian Barnes, Michael Ondaatje e Salman Rushdie. Ao longo de vários anos, fez fama publicando mais de olho no Booker Prize que nas listas de mais vendidos. Até que veio Harry Potter, e com ele alguns bons zeros a mais no balanço da empresa.

Mas nem por isso se perdeu a aura de comprometimento com a literatura dita séria. Pelo contrário: não parece exagerado supor que a Flip contribua para corrigir a imagem da Bloomsbury, que com o efeito Harry Potter poderia se esvair na heresia do sucesso comercial. Boa parte das escolhas de sua diretora editorial e presidente da Flip, Liz Calder, permite que se pense nesse sentido: a opção por Parati, local associado à resistência cultural nos anos 70; seus discursos de abertura, sempre enfáticos na louvação à “força transformadora da literatura”; a insistência em temas politicamente corretos, de que é prova a presença algo deslocada de Jeanette Winterson em 2005; e até mesmo as peças descontraídas de seu vestuário.

Não é de estranhar, portanto, que a soma de esforços dessas duas editoras fosse capaz de contribuir para um encontro raro entre diferentes esferas da elite cultural do país. Aliado a um competente trabalho de produção e aos catálogos de que dispõem, de fato sem equivalente entre as concorrentes, esse esforço coletivo construiu uma força de legitimação que é marca importante do ambiente cultural no Brasil contemporâneo.

Ressalte-se, ainda, que as duas têm perfil parecido. São independentes que ocupam espaço de vulto no mercado. Em outros termos: sobrevivem longe dos grandes conglomerados, coisa rara no cenário atual. Pense-se, por exemplo, na Objetiva. A casa carioca ganhou visibilidade no início dos anos 1990 com uma aposta em força de vendas. De início, emplacou diversos títulos nas listas de mais vendidos e chegou a atrair Paulo Coelho para suas hostes. Mas, com a entrada de grupos estrangeiros na virada para os anos 2000, a venda para uma multinacional tornou-se negócio mais atraente que a peleja por vendas num mercado instável, e a editora acabou absorvida pelo grupo Santillana, gigante do meio editorial espanhol.

Também carioca, a Record, que nos anos 1970 foi referência em modernização editorial e qualidade de catálogo, não se pauta por critérios de sofisticação, mas por uma espécie de “ecletismo de resultados”. Um dos maiores grupos no mercado de livros, é detentora de diversos selos, entre os quais um que atua no ramo da auto-ajuda. Além disso, publica uma quantidade astronômica de títulos por mês, o que impede que seja associada a um trabalho de esmero editorial ou que cultive um crivo severo na seleção de autores.

Mesmo a entrada em cena, em 2002, da Planeta, grupo espanhol comparável ao Santillana, é reveladora da instabilidade de imagem que caracteriza os grandes conglomerados. A casa editorial começou a disputar autores justamente com a Companhia das Letras, numa clara tentativa de associar prestígio a seu catálogo e de transcender a imagem de editora de best-sellers.

Não se pode, contudo, forçar a nota na semelhança entre as trajetórias da Companhia e da Bloomsbury, nem atribuir exclusivamente às duas a formatação de um evento que conta com uma diretoria de programação própria. Nos dois primeiros anos, essa tarefa ficou a cargo do jornalista Flávio Pinheiro, sem dúvida de atuação determinante para a feição assumida pela Flip. Com passagem vasta pela imprensa carioca e bom acesso às editoras e jornais -deixou a direção do evento para ocupar o posto de editor-chefe de “O Estado de S. Paulo”-, Pinheiro não apenas contribuiu para a escolha dos autores convidados, como propiciou uma aproximação digna de nota entre os escritores e os profissionais de jornais, sites e revistas. Como mediadores das mesas e debates, muitos repórteres e colunistas das editorias de cultura ganharam espaço novo de atuação, o que contribuiu para uma simbiose com os autores convidados cujo reflexo na imprensa salta à vista.

Em 2005, a diretoria de programação ficou dividida entre a editora Ruth Lanna, egressa da Companhia das Letras e da Planeta, e o professor de Teoria Literária da USP Samuel Titan Jr. Ambos empenharam-se em zelar pelo formato, aliando convidados de prestígio acadêmico, no Brasil e no exterior, best-sellers capazes de preservar apelo intelectual, promessas da literatura brasileira, nomes de destaque na literatura contemporânea européia e jornalistas estrangeiros versados na prosa de não-ficção.

Além das peculiaridades de sua organização, ajuda a explicar o caráter do evento o contexto de ampliação do debate acadêmico em que ele se insere. Nesse sentido, importa ver a Flip como participante de um processo que envolve a intensificação de cursos livres em diversas cidades do país, a promoção de ciclos de palestras e o sucesso de estabelecimentos destinados a ensinar filosofia e outros temas “nobres” para um público de alto poder aquisitivo.

Vai aqui uma digressão apressada, mas não parece descabido supor que a proliferação desses espaços revele sinais de esgotamento da universidade. Se nos anos 1950 e 1960 a criação de departamentos especializados em literatura e em diversas áreas das ciências sociais concentrou a produção intelectual no âmbito universitário, hoje ele parece depender mais das instâncias extra-acadêmicas do que há 20 anos. Seja porque as revistas especializadas andam à míngua, têm poucos leitores e não respondem com agilidade à pauta cultural do país, seja porque as crescentes disputas políticas dos departamentos bloqueiam canais não-viciados de comunicação ou até mesmo por causa do aviltamento dos salários, o fato é que professores de carreira consolidada têm procurado com freqüência espaços de diálogo como esses.

Parece razoável supor que o crescimento do mercado editorial e o aumento da capacidade de consumo não sejam suficientes para explicar o surgimento dessas alternativas. Pelo visto, é preciso encarar esse processo ao lado de um culto a determinadas disciplinas que parece se travestir, com o perdão da expressão, numa “fetichização” do conhecimento. A boa acolhida de público de palestras promovidas em torno de temas como a “história categorial em Marx”, não raro retransmitidas pela TV; a disponibilidade de setores da burguesia paulistana em pagar somas consideráveis para assistir a cursos breves sobre temas na linha “o amor em Platão”; a permanência no mercado de uma editora como a Cosac Naify, pródiga na feitura de edições que parecem almejar à condição de objeto único e recusar a produção em escala industrial; ou até mesmo a inclusão de quadros sobre filosofia no programa “Fantástico” são alguns dos elementos que permitem pensar nessa direção.

São todos participantes de um novo contexto de diversificação cultural que mereceria atenção mais detida. Por ora, basta dizer que eles tornam visível uma busca por espaços de interlocução que ilumina as possibilidades de atuação existentes para o intelectual do início dos anos 2000.

 
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