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dossiê
CULTURA DIGITAL

Artes desestabilizadoras
Por Christine Mello


"O barato sai caro", instalação do VJ Spetto na exposição "Vorazes, Grotescos e Malvados"
Divulgação

Atentos às novas sensibilidades midiáticas, artistas refletem sobre a imprevisibilidade, a precaridade e o nomadismo que marcam o início do século 21

Neste início de século 21 vivemos numa sociedade baseada no signo das redes digitais e dos contextos interativos de comunicação ao mesmo tempo em que vivemos sob o signo do individualismo, da violência e da vulnerabilidade.

Tal sociedade tida como “linkada” e interligada online se oculta sob falsas noções de proteção e comumente privilegia os interesses privados em detrimento de uma construção mais coletiva de realidade. Neste tipo de ambigüidade, é possível observar gestos simbólicos que possuem a capacidade de conectar ambas as realidades.

É o que foi discutido recentemente na exposição “Vorazes, grotescos e malvados”, apresentada no Paço das Artes, em São Paulo, que contou também com uma noite de reflexão sobre tal tema na Faap-Artes Plásticas.

Estes eventos procuraram debater problemas de valor e postura em práticas de vida e nas práticas artísticas que coabitam universos sociais, políticos e midiáticos permeados de imprevisibilidade, perda de controle e precariedade.

Na exposição, as escolhas foram baseadas na atitude e no modo como os criadores, nela reunidos, vêm se articulando em torno dessa realidade diversificada. Eles foram escolhidos porque revelam uma inteligência voltada ao inconformismo, à hibridez e à desorganização das formas.

É dessa maneira que Carlo Sansolo e Erika Fraenkel, Dora Longo Bahia -acompanhada de Aline van Langendonck, Amanda Mei, Ana Elisa Carramaschi, André Drokan, André Komatsu, Andrezza Valentin, Dario Felicíssimo, Fellipe Gonzalez, Hugo Frasa, Letícia Larín, Mariana Juliano, Marie Lanna, Mauro Giarda, Naiah Mendonça, Nicolas Robbio, Olívia Helena Sanches, Paula Garcia, Renata Har, Thais Albuquerque e Wagner Viana-, Luiz Duva, Marcelo Cidade e o VJ Spetto mostram suas experiências impuras e disformes.

Não se trata de uma suposta reflexão sobre a crise, mas do enfrentamento da obsolescência dos sistemas organizados pelo homem e de um momento de expansão de suas formas expressivas. É quando o mundo causa a impressão de ser a sua imagem vista pelo ângulo do extra-oficial.

No campo das estratégias sensíveis da arte contemporânea, há o convívio dessas manifestações com aquilo que Edmond Couchot denomina “desespecificação das práticas artísticas” e que revela, segundo ele, uma hibridação generalizada, estendida agora a todo universo dos modelos fornecidos pela tecnociência.

Por meio desse raciocínio, podemos compreender uma nova forma de organização das proposições artísticas que denota ondas expansivas e libertárias. Tal circunstância é assumida como uma forma de instaurar uma visão particular de mundo e furar bloqueios na constituição de um percurso alternativo nos universos de linguagem.

Essas circunstâncias são também observadas nas novas sensibilidades midiáticas fornecidas pelas transmissões e construções ao vivo. Nelas, as mudanças de percepção são redimensionadas pelas dinâmicas sociais nômades e on line das redes de comunicação. Trata-se da condição contemporânea de “viver intensamente o tempo presente”.


Carpe Diem

O filósofo Horácio usava o termo “carpe diem” para designar a prática de aproveitar o presente sem pensar no futuro. Já para o filósofo Vilém Flusser, o tempo é abismo em nossa sociedade pós-industrial. É como um vórtice do presente que suga tudo. Para ele, o presente é a totalidade do real, instância em que todas as virtualidades se realizam.

Em extensão às idéias de Horácio e Flusser, verificamos hoje que viver o tempo presente é viver sugado pelas suas múltiplas realidades vorazes, traduzidas como verdadeiros espaços virtuais de constituição do sujeito na contemporaneidade.

Nesse fluxo de vivências instáveis e imprevisíveis, é possível notar, também, ações artísticas que se desenvolvem em plena zona de risco. Trata-se de uma metáfora para a compreensão de um mundo desmontado. Como um método de inversão às normas estabelecidas, tais ações apresentam-se como uma perspectiva artístico-política, estabelecida entre a esfera pública e a privada. Dessa maneira, é acentuado o fato do universo criativo não ocupar, na sociedade, um papel complacente e sim assumir uma postura crítica e uma força desestabilizadora capaz de originar gestos de insubordinação e novos processos de subjetividade.

Às indagações sobre a “espetacularização” da sociedade e seus rituais coletivos, Carlo Sansolo e Érika Fraenkel respondem na exposição com o riso nervoso e a paródia em “Abject Station – Jueguitos” (2005). Nesse projeto instalativo, eles assumem o universo das imagens que circulam na internet, dos brinquedos infantis e do videogame como banalizadores da violência e capazes de alternar ternura e ódio.

Com a visão dirigida ao efêmero e à transgressão (ou carnavalização), Dora Longo Bahia dá prioridade ao processo e não ao produto final. Para tanto, criou uma espécie de apologia da deriva ao propor uma ocupação cíclica e colaborativa, a partir do convite feito a um conjunto de jovens artistas para criarem 16 exposições individuais de um dia (das 17 às 19 horas). Além disso, criou um fanzine e um bar no espaço expositivo, que disponibilizava ao público instrumentos de rock para sessões abertas aos sábados e exibição de filmes de terror aos domingos.

Tais experiências ocupam um lugar extra-oficial no interior das articulações institucionais. Ao utilizar-se de tais ações, ela opera por meio de construções em abismo (como a curadoria dentro da curadoria e a exposição dentro da exposição), elevada agora à dimensão desconstrutiva do próprio circuito da arte.

Luiz Duva oferecia, em “Grotesco Sublime Mix” (2004), uma nova expansão de linguagem para a imagem e som em meios eletrônicos. Nesta videoinstalação, a partir da manipulação em tempo real de vídeo, ou o chamado “vídeo ao vivo”, ele trabalhou em três telas a sonoridade do elemento visual como uma composição audiovisual, em que a imagem tem a capacidade de produzir som.

Nesta única sessão de 16 minutos (sem edição adicional) -por ele documentada e reapresentada contínuas vezes, a partir da recombinação e repetição (o looping) no ambiente da exposição- há três corpos que se decompõem em uma performance.

Esse tipo de recurso permite a inserção do vídeo como elemento de indeterminação e acaso. Contudo, é com esta ação, da ordem do improviso, que Duva devolve tal experiência ao campo representacional, criando imagens minimalistas de forte impacto, na qual há a distenção do tempo e a desconstrução do movimento e do som.

Marcelo Cidade apresenta dois trabalhos que coexistem na chamada intertextualidade: a confluência de vozes entre eles e o restante da exposição, bem como um fluxo de respostas entre todo o conjunto. Um desses trabalhos é “Intramurus” (2005) -uma intervenção com cacos de vidro, instalados ao longo do alto dos painéis existentes no espaço expositivo- e o outro “Quando Não Há Diálogo” (2005).

Este último é um vídeo de sete minutos que aborda uma situação de desentendimento nos bastidores de uma exposição de arte, documentada em tempo real e posteriormente editada e transformada em ficção.

Em ambos, Cidade desloca o foco do objeto artístico e chama a atenção para as estruturas “protetoras” da obra, das quais freqüentemente não nos damos conta. Ao problematizar o espaço crítico do cubo branco, ele faz referência ao aspecto não-oficial desse tipo de espaço e realiza pequenas subversões, ou alterações, como forma de interferência nos ambientes domesticados da arte.


Imagem-mercadoria

O VJ Spetto cria um espaço para a instalação de dupla mão e lança visões divergentes. Em “O Barato Sai Caro” (2005) ele promove uma crítica ácida e voraz ao universo daquilo que denomina “cidade-máquina”.

Na oposição entre a aura e a descrença da globalização, ele mostra a animação digital de pequenas baratas que se movimentam sobre um jorro ininterrupto e labiríntico de imagens de líderes políticos e governantes de Estado, internacionais e locais, como o americano George Bush e o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.

O trabalho do VJ Spetto refere-se ao recolhimento e ao reprocessamento dos resíduos de uma sociedade capitalista, pautada no consumo imagético e gerenciada por meio de bancos de dados distribuídos pelas mídias de massa, como a internet e a televisão. Essas imagens são consideradas imagens-mercadorias, commodities, extraídas de um acervo de imagens tecnológicas produzidas no mundo contemporâneo.

Dentro dos limites do espaço institucional, essas interferências permitem, de certa forma, algumas permutações entre agenciamentos convencionais e alternativos. Tal potencialidade provém do modo como os trabalhos questionam e tensionam a linha tênue que separa a condição de se estar ou não protegido nesses tipos de espaços. Proporcionam, dessa maneira, discussões críticas relacionadas à esfera da arte e as associam ao universo mais amplo do contexto social.

Para a psicanalista e crítica de arte Suely Rolnik, a resistência, hoje, tende a não mais se situar por oposição à realidade vigente, numa suposta realidade paralela, mas seu desafio é “enfrentar a ambigüidade desta estratégia contemporânea do capitalismo, colocar-se em seu próprio âmago, associando-se ao investimento do capitalismo na potência criadora, mas negociando para manter a vida como princípio ético organizador”.

Como num momento de transição, tais criadores são vorazes porque devoram, subvertem ou consomem a realidade em tempo presente; grotescos porque são incompatíveis com as normas preestabelecidas da linguagem e revelam a expansão das formas expressivas; malvados porque enfrentam constantemente os circuitos de risco da produção artística, posicionam-se diante de suas idéias e são como vozes destoantes por suas atitudes, modos de comportamento e reflexão social.

Embora façam parte, os sentimentos neles contidos não são de destruição ou de fracasso, e sim de resistência e de abertura a outros pensamentos e imagens neste preâmbulo da cultura digital.

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Referências bibliográficas


Couchot, Edmond (2003). “A tecnologia na arte: da fotografia à realidade virtual”. Porto Alegre: Editora da UFRGS.

Flusser, Vilém (1983). “Pós-história: Vinte instantâneos e um modo de usar”. São Paulo: Duas Cidades.

Rolnik, Suely. “Despachos no museu: sabe-se lá o que vai acontecer...” In: “Caderno Videobrasil”. São Paulo: Associação Cultural Videobrasil, v. 1, nº 1, 2005.

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Christine Mello
É crítica, curadora e professora da PUC-SP, da Faap e do Senac. Entre outras exposições, foi curadora da representação brasileira de net arte da 25ª Bienal de São Paulo e da exposição "Vorazes, Grotescos e Malvados" (Paço das Artes, 2005).

1 - A idéia partiu do filme "Feios, sujos e malvados" ("Brutti, sporchi e cattivi"), realizado em 1976 pelo italiano Ettore Scola. Nele, o ator Nino Manfredi partilha, com seu sarcástico personagem Giacinto, substratos da periferia romana. É do núcleo de uma família de aproximadamente 20 pessoas, reunidas em um mesmo barraco, que seu personagem procura defender o dinheiro que recebeu como indenização pela perda de um olho. Para empreender tal jornada, Scola opta por um personagem de caráter irônico, encontrado freqüentemente no cerne do realismo grotesco.


2 - Rolnik, Suely. "Despachos no museu: sabe-se lá o que vai acontecer..." In: "Caderno Videobrasil". São Paulo: Associação Cultural Videobrasil, v. 1, nº 1, 2005, pág. 81.

 
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