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dossiê
CULTURA DIGITAL

Libertando-se da prisão da internet
Por Theodor Holm Nelson


Theodor Nelson durante aula na PUC-SP
Divulgação

Para o pai do hipertexto, a informática limita a criatividade e emburrece os usuários

O pessoal da informática não entende os computadores. Bem, eles entendem a parte técnica, sim, mas não entendem as possibilidades. Principalmente, eles não entendem que o mundo dos computadores é totalmente feito de arranjos artificiais e arbitrários.

Editor de textos, planilhas, bancos de dados não são fundamentais, são apenas idéias diferentes que diversas pessoas elaboraram, idéias que poderiam ter uma estrutura totalmente diversa. Mas essas idéias têm um aspecto plausível que se solidificou como concreto em uma realidade aparente. Macintosh e Windows são parecidos, portanto essa deve ser a realidade, certo?

Errado. Apple e Windows são como Ford e Chevrolet (ou talvez os gêmeos Tweedledum e Tweedledee), que em sua co-imitação criam uma ilusão que parece realidade.

O pessoal dos computadores não entende os computadores em todas as suas inúmeras possibilidades; eles acham que as convenções atuais são como as coisas realmente são, e é isso que eles dizem a todas as suas novas vítimas.

O chamado "treinamento em informática" é uma ilusão: eles ensinam à pessoa as estranhas convenções e esquemas atuais (Desktop? Isso parece uma mesa de trabalho? Uma mesa vertical?) e dizem que é assim que os computadores são. Errado.

Os esquemas atuais dos computadores foram inventados em situações que variavam das emergências à academia, e foram empilhados em um conjunto aparentemente racional. Mas o mundo da tela poderia ser qualquer coisa, não apenas uma imitação do papel.

No entanto, todo mundo parece pensar que os projetos básicos estão concluídos. É como dizer: "Espaço, já fomos lá!" -alguns centímetros de exploração e há quem pense que terminou.


Alternativas gráficas

Qualquer tipo de gráfico é possível; mas o termo "GUI", abreviação de Graphical User Interface, é usado para apenas um tipo de interface gráfica do usuário: a visão de ícones e janelas criada na Xerox Parc no início dos anos 70. Há milhares de outras coisas que uma interface gráfica do usuário poderia ser. Por isso não deveríamos chamar a atual interface padrão de GUI, já que não foram examinadas alternativas gráficas; é uma PUI (Parc User Interface), quase exatamente igual à que fizeram na Parc 25 anos atrás.

O mundo em que você está sendo criado tem a aparência de realidade; poderá levar décadas para ser desaprendido. "Crescer" significa em parte descobrir o que está por trás das falsas suposições e representações do dia-a-dia, de modo que você finalmente entenda o que realmente está acontecendo e o que realmente significam ou não as conversas educadas. Mas nossos instrumentos de informática também precisam ser uma mentira que deve ser desaprendida?

A conhecida história sobre a Xerox Parc, de que eles tentaram tornar o computador compreensível para o homem comum, é uma enganação. Eles imitaram o papel e as máquinas de escritório conhecidas porque era isso que os executivos da Xerox conseguiam entender. A Xerox era uma companhia devoradora de papel, e todos os outros conceitos tinham de ser passados para o papel para se tornar visíveis nesse paradigma.

Mas quem se importa com o que a Xerox fez com seu dinheiro? Aquilo era coisa de laboratório. Foi Steve Jobs quem orientou o trabalho da Parc para o mal. Ele pegou uma equipe da Parc e fez um trato com o demônio, e esse trato foi chamado de Macintosh.


Pacto com o diabo

Ainda há milhões de pessoas que acreditam que o Macintosh representa a libertação criativa. Por essa incrível conquista propagandística podemos agradecer à firma de publicidade Regis McKenna, que vendeu o Macintosh para o mundo (a partir do famoso comercial de 1984) como algo que destruía a prisão do PC. Na verdade o Macintosh era uma prisão redesenhada. E a arquitetura dessa prisão foi fielmente copiada para o Windows da Microsoft em cada detalhe.

Imagine que lhe dessem a MTV e em troca tirassem seu direito de votar? Você se importaria? Algumas pessoas sim. É como eu vejo o mundo dos computadores hoje, a começar pelo Macintosh. O Macintosh nos deu fontes bonitas para brincar e ferramentas de artes gráficas que antes eram inatingíveis, exceto nos ricos domínios da publicidade e da produção de livros de luxo. Essas fontes e ferramentas gráficas foram um grande presente.

Mas ninguém parece ter notado o que o Macintosh excluiu. Ele excluiu o DIREITO DE PROGRAMAR. Quando você comprava um Apple II, podia começar a programá-lo desde o início. Tenho amigos que compraram o Apple II sem saber o que era programação e tornaram-se programadores profissionais quase da noite para o dia. O sistema era limpo, simples e permitia que você fizesse gráficos.

Mas o Macintosh (e agora o Windows PC) são outra história. E a história é simples: PROGRAMAÇÃO É SÓ PARA OS "DESENVOLVEDORES" OFICIAIS REGISTRADOS. Os Desenvolvedores Oficiais Registrados, que fizeram acordos com a Apple e depois com a Microsoft, são os únicos que podem fazer a mágica hoje. Isso não é da natureza intrínseca dos computadores atuais. É da natureza intrínseca dos negócios atuais. Negocie com a Apple ou a Microsoft, pague-lhes em dinheiro ou outros favores, e eles deixarão você saber o que precisa para criar "aplicativos".

Esse chamado “aplicativo” foi outro nível do pacto com o diabo. Antigamente, você podia rodar qualquer programa com qualquer dado, e se não gostasse dos resultados os jogava fora. Mas o Macintosh acabou com isso. Você não possuía mais seus dados. ELES possuíam seus dados. ELES escolhiam as opções, já que você não podia programar. E você só podia fazer o que ELES permitissem -os ungidos desenvolvedores oficiais.

Esse novo tipo de aplicativo foi uma prisão, ou talvez devamos dizer um curral. Primeiro você está em UM curral, um primeiro aplicativo, depois eles o levam de ônibus para OUTRO curral, com outro conjunto de regras -um segundo aplicativo. Você pode transferir alguns dos seus dados entre esses aplicativos, mas não serão a mesma coisa. O amplo controle dos eventos que os programadores têm é negado aos usuários.

O mundo atual dos computadores, arbitrariamente construído, também se baseia na simulação de papel, ou WYSIWYG (sigla inglesa para “What you see is what you get” - "O que você vê é o que você recebe").

É aí que estamos empacados no modelo atual, em que a maioria dos softwares parece ser mapeada em papel (WYSIWYG geralmente significa que você receberá o que vê quando IMPRIMIR). Em outras palavras, o papel é o coração da maioria dos conceitos de software atuais.

Esse também foi um legado chave da Xerox Parc. Os caras da Parc ganharam muitos pontos da direção da Xerox ao fazer o "documento eletrônico" IMITAR O PAPEL -em vez de ampliá-lo para incluir e mostrar todas as conexões, possibilidades, variações, parênteses, condicionantes que estão na mente do autor ou do orador; em vez de apresentar todos os detalhes que o repórter enfrenta antes de cozinhá-los.

Uma parte disso também foi a abordagem dos "tekkies" ao comportamento do software. A simulação de papel funcionava bem com a abordagem tekkie. Muitos tekkies têm uma abordagem retangular e fechada das coisas que para outros pode parecer desajeitada, obtusa, analógica.

A visão tekkie é geralmente a mentalidade do trabalhador braçal: primeiro você faz este serviço, depois faz aquele serviço, tudo o que lhe mandarem; os parâmetros são dados e não mudam; e quando você termina o trabalho que lhe atribuíram, passa para o próximo trabalho da lista. Nenhuma dessas restrições tem a ver com o tipo de criatividade que os escritores buscam. Mas a maioria dos tekkies não entende de escrita, ou de palavras.


A suposta natureza dos computadores

Os tekkies não sabem escolher a palavra certa, ou o nome certo. Eles parecem pensar que qualquer nome serve; e aquilo que o usuário escolher o limitará para sempre. Essa torna-se a Natureza dos Computadores. Supostamente.

Uma das conseqüências é o software para escritório -incrivelmente desajeitado, com operações lentas e pedestres. Pense em quanto tempo demora para abrir e dar nome a um arquivo e um novo diretório. Enquanto isso, o software de videogame é ágil, rápido, vivo.

Por que isso acontece?

Muito simples. Os caras que criam videogames gostam de jogar videogames. Enquanto ninguém que cria software para escritório parece se importar em usá-lo, quanto menos pretende usá-lo em grande velocidade.

Não estou falando das "interfaces". Assim que você concorda em falar sobre a "interface" de alguma coisa já aceitou sua estrutura conceitual. Estou falando de algo mais profundo -novas estruturas conceituais que não são mapeadas em papel, não são divididas em hierarquias.

O mesmo vale para as "metáforas", no sentido de comparações com objetos familiares como mesas de trabalho e cestos de lixo. Assim que você traça uma comparação com algo conhecido, é atraído para essa comparação -e fica preso à semelhança. Enquanto se você entrar no projeto de formas livres -virtualidades livres, digamos-, não fica preso a essas comparações.

Houve alguns poucos ambientes que eram abstratos e completamente diferentes de papel. O Canon Cat de Raskin, o HyperCard (em sua época). Meu espaço abstrato preferido é o jogo Tempest, de Dave Theurer, que não parecia com nada que você já viu.

Agora considere a World Wide Web. Apesar de alguns de nós estarmos falando em hipertexto em escala planetária há anos, ela surgiu como um choque quase generalizado. Poucos notaram que ela diluía e simplificava a idéia do hipertexto.

O hipertexto, como foi repentinamente adaptado para a internet por Berners-Lee e depois Andreessen, ainda é o modelo do papel! De suas longas folhas retangulares, adequadamente chamadas de "páginas", só se pode escapar por links de mão única. Não pode haver anotações à margem. Não pode haver notas (pelo menos não na estrutura profunda).

A web é a mesma prisão de quatro paredes do papel que o Mac e o Windows PC, com a menor concessão possível à escrita não-seqüencial ("escrita não-seqüencial" foi minha definição original de hipertexto em 1965) que um chauvinista da seqüência-e-hierarquia poderia ter feito.

Enquanto o Projeto Xanadu, nosso plano original que foi derrotado pela web, baseava-se amplamente em links de mão dupla, por meio dos quais qualquer pessoa poderia anotar qualquer coisa (e pelos quais os pensamentos podiam se ramificar lateralmente sem bater nas paredes).

Ainda mais estranho é o conceito de "browser". Pense nisso -uma visão serial de um universo paralelo! Tentar compreender a estrutura em grande escala de páginas da web interligadas é como tentar olhar para o céu à noite (pelo menos nos lugares onde as estrelas ainda são visíveis) através de um canudo de refrigerante. Mas as pessoas estão habituadas a esse "browser" seqüencial; hoje ele parece natural; e hoje esse browser talvez seja mais padrão do que as estruturas que ele vê e os protocolos cambiantes que as mostram.

Sinto uma certa culpa em relação a isso. Acredito que foi em 1968 que apresentei o projeto completo de Xanadu em duas mãos para um grupo de universidade, e eles o rejeitaram como "delirante"; então eu o emburreci para links de mão única e somente uma janela visível.

Quando me perguntaram como o usuário navegaria, sugeri uma pilha recorrível de endereços visitados. Acho que esse emburrecimento, através dos vários caminhos de projetos que se imitam, tornou-se o design geral de hoje, e realmente sinto muito por minha participação nele.

Chega! Está na hora de algo completamente diferente.


Sistemas de amarras

Acredito que podemos dobrar uma esquina para um mundo de computadores com muito mais liberdade e produtividade, com novas estruturas de forma livre, diferentes do papel. Espero que estas simplifiquem e acelerem muito o serviço dos trabalhadores da prosa (os que usam texto sem fontes, como autores, advogados, roteiristas de cinema, redatores de discursos etc.).

Mas devemos derrubar os atuais sistemas de amarras, aos quais muitos clientes e fabricantes estão ligados. Devemos derrubar o modelo do papel, com sua prisão de quatro paredes e buraco de fechadura -os links de mão única.

Finalmente, devemos derrubar a tirania do arquivo -no sentido de pedaços fixos com nomes definitivos. Embora os arquivos estejam necessariamente em algum nível, os usuários não precisam vê-los, e muito menos precisam dar a seus projetos nomes e localizações imutáveis.

 
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