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TRÓPICO NA PINACOTECA

Erotismo na era virtual
Por Thais Rivitti

Saiba como foi o debate com a professora de literatura Eliane Robert Moraes e a psicanalista Miriam Chnaiderman

O erotismo na era virtual foi o tema do debate de setembro da série “Trópico na Pinacoteca”, realizado por esta revista e a Pinacoteca do Estado de São Paulo. O encontro do dia 26 de setembro de 2005 contou com a participação da ensaísta Eliane Robert Morais, professora de literatura da PUC-SP e autora do livro “O corpo impossível” (Iluminuras), e da psicanalista Miriam Chnaiderman, diretora do documentário “Gilete azul” (2003), sobre o estatuto do corpo na obra da artista Nazareth Pacheco. O filme foi apresentado durante o encontro.

O debate foi mediado pela antropóloga Esther Hamburger, co-editora de Trópico, que introduziu o tema fazendo uma série de questões por ele suscitadas: que significados poderiam ser associados à acentuada de imagens e práticas eróticas e pornográficas na internet? Como entender a pornografia na rede mundial de computadores? O que acontece com o erotismo numa época de freqüentes intervenções e modificações no corpo? Será que o erotismo conserva na atualidade algo do potencial transgressivo de outras épocas?

Pornografia e erotismo

Eliane Roberto Moraes iniciou a sua fala, questionando a distinção, de senso comum, entre erotismo e pornografia. Para a ensaísta, o obsceno -entendido, como a origem etimológica do termo sugere, como aquilo que entra em cena, que está em cena- delimita esse campo. O obsceno está presente tanto na pornografia mais chula quanto no erotismo considerado mais refinado. Hoje, segundo ela, o obsceno estaria se enfraquecendo em manifestações pornográficas.

“Se analisarmos as obras de grandes escritores do campo do erotismo, veremos que eles são muito mais obscenos do que o material pornográfico corrente. É o caso de Aretino que escreveu, no Renascimento, os famosos ‘Sonetos Luxuriosos’ e ‘Diálogos das cortesãs’, em que duas mulheres discutem qual seria a profissão que melhor serve às mulheres: esposa, freira ou prostituta”, disse Eliane. Outros exemplos citados foram Marquês de Sade -cuja prosa é extremamente difícil de ler justamente por seu alto grau de violência e obscenidade- e George Bataille, que “tem livros com um nível de obscenidade que fazem qualquer revista pornográfica parecer um conto da carochinha”.

Como um exemplo da literatura nacional, Eliane citou a trilogia pornográfica de Hilda Hilst. Em “O caderno rosa de Lori Lamby”, Hilst conta as memórias sexuais de uma menininha de oito anos de idade, algo politicamente incorreto, que, se não estivesse dentro do campo da imaginação literária, provavelmente renderia prisão à autora. A análise das obras citadas reforça a tese de Eliane sobre a artificialidade, o caráter moral, da distinção entre pornografia e erotismo.

Assim, a idéia de que o erotismo é o velado e a pornografia é o escancarado não passaria de argumento moralista, igual ao que situa a arte como algo elevado e nobre e a pornografia como algo muito baixo. “O argumento tem como pressuposto que a descrição do ato sexual, exibição dos genitais e partes do corpo seja, em si, feia, repugnante e suja. Novamente, a idéia do belo é associada a valores elevados que teria como alteridade esse lado baixo”, disse.

Para ela, ao descartar a distinção entre erótico e pornográfico, “somos obrigados a apreciar as obras eróticas sob um outro ponto de vista, o da filosofia, pois o erotismo nos coloca questões de fundo que se referem a nossa humanidade e até a nossa desumanidade.”

A ensaísta recorreu a George Bataille, que define o erotismo como aquilo que, na consciência do homem, coloca o ser em questão. Essa frase, que parece um pouco abstrata, remete aos subtemas que o erotismo aciona: violência, bestialidade, perda de si, dor com prazer... Assim, para Eliane, “não é o grau de obscenidade, mas o de perturbação que uma obra erótica expressa que deve ser avaliado”.

A noção de “perturbação” permite que Eliane delineie distinções no interior do campo do obsceno livre de moralismos. Ela diferencia as revistas pornográficas de hoje, vendidas em banca, cuja circulação é calculada, das grandes obras literárias, que têm a capacidade de nos deslocar de nós mesmos. O que intriga nessas obras é sua liberdade de estar fora do gueto. Há algo em Sade, Bataille e Hilst que vai contra o pacto social. Já o vídeo erótico e as revistas reafirmam esse pacto: ajudam a colocar o sexo e o imaginário erótico num determinado lugar. Para Eliane, “na atualidade, mais do que nunca, esses lugares estão bem demarcados, não mais escondidos, apenas demarcados”.


Olhar e visão

A psicanalista Miriam Chnaiderman também se deteve na comparação entre a pornografia e o erotismo. Embora concorde que se trata de uma falsa distinção, pois para ela “não existe erotismo sem pornografia e a pornografia pode ser vivida de modo erótico”, Chnaiderman relaciona cada um dos termos a uma função específica. Na arte erótica, ela localiza o resgate do olhar, enquanto na pornografia atua a visão, “função fisiológica do olho”.

A visão é definida como o contexto em que o olhar se desenvolve. Ela se move do eu para a coisa, enquanto o olhar é um ato provocado por uma imagem de algo que vem até nós. O olhar é despertado fora de nós, surge quando somos cegados por um foco de luz que pode vir do espelho, de uma outra pessoa ou de um quadro. Essa luz põe em andamento algo no inconsciente, enquanto o eu fica confuso e ofuscado. “Na arte e no processo psicanalítico, trabalhamos o tempo todo com esse olhar”, disse Miriam.

Para ela, toda arte é erótica, pois, se não for violação, não é arte. “O erótico é aquilo que sempre traz possibilidades múltiplas, desordenando lugares de ser. Freud traz essa possibilidade de leitura do erótico quando reverte a noção de corpo biológico para corpo-prazer.” Ele, então, transforma o corpo anatômico no corpo erógeno.

A partir disso, as formas de ter prazer passam a ser infinitas. Na pulsão, qualquer objeto pode acoplar-se a um corpo máquina de prazer, a vida passa a ser criação. A pulsão sexual é polimorfa, as zonas erógenas são múltiplas: zonas de abertura que remetem à ausência do objeto de satisfação, que sempre está perdido.


A banalização do sexo

Tanto Miriam quanto Eliane destacaram que a questão central para pensar o erotismo na atualidade é a banalização do sexo. Eliane rebateu os discursos que condenam o sexo pela internet. “Uma boa parte desses discursos é fundada numa certa idealização do sexo que está na base na moralidade ainda burguesa e cristã.” A ensaísta disse que o que a maioria desses discursos condena, na verdade, é a prática do sexo solitário.

“Eu não acho que a internet seja mais perversa do que outros suportes utilizados anteriormente”, afirmou, citando como ancestrais dos atuais sites eróticos as revistinhas de Carlos Zéfiro, na década de 1950, e a revista “Playboy”, posteriormente. “Acho que teríamos que interrogar também quais são as relações que existem entre o sexo virtual e esse grande pânico que tomou conta da paisagem sensível da nossa época a partir dos anos 1980, quando foi deflagrada a epidemia da Aids”, disse.

A banalização do sexo, hoje, é vista como assunto muito mais desafiador. Para Eliane, o filósofo francês Michel Foucault já atentava para a rotinização da transgressão na sociedade contemporânea, um processo que acaba destruindo a própria possibilidade da transgressão.

Essa rotinização seria perceptível no campo da literatura erótica através da crescente utilização de uma perspectiva radicalmente realista nas obras. “São obras que falam do sexo como a imaginação realizável, ao invés de lançá-la para seu ponto de fuga”, afirmou. Essa é uma diferença grande entre o erotismo que é capaz de perturbar e o erotismo que é tornado realidade. Ler um livro de Marquês de Sade e ir para um clube sadomasoquista realizar uma prática sexual com determinados acessórios são coisas muito diferentes.

O aparato mobilizado no clube sadomasoquista, documentado em imagens, revela um corpo que é privado de sua perspectiva imaginária. A sexualidade passa a ser reduzida a um jogo de papéis socialmente úteis. “Talvez a tarefa hoje, ao falarmos de erotismo contemporâneo, seja vasculhar a paisagem sensível contemporânea para ver onde se esconde essa potencialidade de perturbação, sem a qual nossa vida fica totalmente condenada à miséria.”

A mesma questão se coloca para Miriam: a equiparação da imaginação e da realidade. Para ela, uma questão muito complexa é aquela suscitada pelo tempo real. “Ele complica a possibilidade da imaginação, pois quando o signo e a coisa se tornam o mesmo, tanto o real quanto a representação são questionados e não sobra nada”, afirmou.

Para aprofundar o problema, ela recorreu ao filósofo alemão Walter Benjamim, que faz a seguinte distinção: o tempo homogêneo é aquele marcado pelo relógio e o tempo do calendário corresponde aos momentos comemorativos do ritual, quando ocorre um corte no tempo. O ritual vai sendo eliminado no mundo contemporâneo, que tende à superação do caráter único das experiências e busca a reprodução.

No mundo de hoje, o real -que para o psicanalista francês Lacan era aquilo que não cabe na linguagem, que não pode ser nomeado- é abocanhado pela imagem, que se torna real, e com isso ficamos impossibilitados de simbolização, de criação. “Eu não posso fazer nada com essa mesa concreta, mas se nomeio a mesa, tornando-a linguagem, brinco com ela como quiser, como vários poetas fizeram, como o desenho animado faz e todos nós vivemos fazendo”, disse Miriam.

Há uma noção em psicanálise, a de equação simbólica, que ajuda a entender o que acontece quando o simbólico passa a ser o real. Uma psicanalista inglesa conta que, uma vez, num manicômio, pediram a um interno violinista que tocasse alguma coisa. Ele se negou, dizendo que não podia se masturbar em público.

“Quando o símbolo passa a ser o real, ele não pode nem tocar o violino, o símbolo tornado real explode o mundo.” Miriam também sugeriu que a forte presença do corpo, hoje, visível em procedimentos como a tatuagem e o piercing, pode ser encarada como um modo de tentar resgatar a realidade para além do puramente imagético.

Quando, como hoje, a imagem fica colada na realidade, surge a questão de como viver o desejo, pois tudo vira gozo. O gozo se opõe ao desejo, ele é a consumação da pulsão: é pulsão de morte. “Nesse mundo a arte tem cada vez mais o papel disruptor, e as formas que o erotismo vai encontrando para driblar todo esse panorama do tempo real é algo de maior interesse no mundo contemporâneo”, afirmou.

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Thais Rivitti
É jornalista.

 
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