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Lovink: É muito simples: rejeitamos radicalmente esse ponto de vista conservador e elitista. Não devemos esquecer que esses intelectuais estavam eles mesmos profundamente imersos na cultura da mídia. Escreviam em máquinas de escrever, usavam gráficas, sistemas de distribuição etc. Em especial, na era digital em que vivemos não existe distinção possível entre “bons” usos da mídia (como escrever aforismos profundos e significativos com uma caneta tinteiro ou assistir a um concerto de Schönberg) e jogos “malignos” de computador.

Eu diria que a ópera e a música clássica estão profundamente enraizadas no capitalismo, assim como ler e escrever livros. Toda a distinção feita aqui, do ponto de vista da mídia, é ridícula. Adorno e Horkheimer liam jornais e ouviam discos, não? Bem, hoje fazemos a mesma coisa em nossos computadores.


Contracomunicação e crítica

Eduardo de Jesus: Pensar na internet é pensar em diversidade, mas também sobre um domínio marcado, em certos níveis, pelo poder do ambiente comercial e econômico. Será que os movimentos artísticos políticos que se estruturam em torno da internet e da contracomunicação podem se relacionar de maneira produtiva com as estruturas de poder existentes? Qual é a saída?

Lovink: Para muitos, comunicação é uma necessidade, não um luxo. Em um mundo ideal, teríamos esquecido a internet. Determinar se movimentos sociais, ativistas, ONGs e artistas simplesmente empregam a internet como ferramenta ou se envolvem com a política dessa mídia deve ser decidido em larga medida por eles mesmos.

A internet não é uma mídia estável, “concluída”. As culturas de usuários não representam apenas os usuários de um produto, mas também direcionam o desenvolvimento, tanto quanto o fazem os criadores. O essencial é tornar claro que são os usuários que direcionam a mídia. Arquiteturas abertas, sim ou não, domínio empresarial, censura de Estado, tudo isso acontecendo -e sendo contestado por grandes grupos- ao mesmo tempo.

Em resposta à sua pergunta, sim, eles podem se relacionar com os poderes, mas apenas se tiverem interesse explícito no futuro da mídia. Usar software gratuito e de fonte aberta é uma decisão política. Importa muito desenvolver ainda mais as listas de discussão, os blogs, os wikis e tornar o conhecimento disponível para o público.


Rosas: A propósito dessa discussão, o que você quer dizer quando defende a necessidade e a produção de uma “cultura crítica da internet”?

Lovink: É uma cultura que reflete sobre a cultura de mídia para além de seu uso cotidiano. Não que as culturas de usuários atuais sejam tão simples... Na internet se pode encontrar práticas bastante extremas. No entanto, elas não são necessariamente críticas, pela simples razão de que apenas acontecem. São pura prática, eventos que ocorrem. Parte muito pequena do processo é documentada, na verdade.

As novas mídias são fluidas e uma parcela pequena delas é “capturada”. Assim, “críticos”, nesse contexto, nada têm a ver com uma atitude “anti”. Ninguém é contra a tecnologia. O que está sendo discutido, porém, são as condições a priori sob as quais as pessoas se comunicam.

Podemos conversar e enviar mensagens instantâneas, mas podemos mudar os parâmetros dessas comunicações? Quem controla as linhas e as freqüências? Quem define as interfaces? Podemos detectar a monitoração e possível censura que esteja ocorrendo? Quem controla os filtros? As milhões de smart mobs que usam as plataformas de comunicações atuais não estão sempre conscientes de que existe um inconsciente tecnopolítico por sob as superfícies lisas.

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link-se

Nettime - http://nettime.org

Next Five Minutes Festival - http://www.next5minutes.org/

Institute of Network Cultures - http://www.networkcultures.org/

The Yes Men - http://www.theyesmen.org/

El GHI de los medios tácticos (entrevista de Lovink a Andreas Broeckman na Artnodes) - http://www.uoc.edu/artnodes/esp/art/broeckmann0902/broeckmann0902.html

 
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