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novo mundo
DEBATE

Tecnopolíticas em ação

Para o teórico e ativista holandês Geert Lovink, que esteve em São Paulo, cabe à crítica de mídia desconstruir as tecnologias que elas utilizam

O teórico da mídia Geert Lovink é um dos co-fundadores da lista de discussão Nettime, um dos mais fervilhantes pontos culturais da internet, e do festival de mídia tática Next Five Minutes (o primeiro do gênero no mundo).

Doutor pela Universidade de Melbourne, é ativista de mídia e crítico de internet. Foi editor da revista de cultura digital holandesa Mediamatic e ajudou a organizar fóruns e conferências como Fiberculture, digitalcity.nl e Ars Eletronica. Autor de diversos livros e ensaios, seu mais recente empreendimento é o Institute of Network Cultures, misto de escola e incubadora, sediada em Amsterdã, junto à Escola Politécnica, que desenvolve projetos e estudos sobre o uso da internet.

Lovink esteve em São Paulo para uma série de conferências e discussão de possíveis parcerias com organizações independentes brasileiras.

A convite de Trópico, o escritor, midiativista e webeditor Ricardo Rosas, o jornalista Guilherme Kujawski, os artistas multimídia Lucas Bambozzi e Paulo Hartmann, o ensaísta e professor Eduardo de Jesus (PUC-MG) e os críticos Marcus Bastos (PUC-SP), Patrícia Canetti (Canal Contemporâneo), Priscila Arantes (PUC-SP), Raquel Rennó (MediaLab – Madri) e Roberta Alvarenga (colaboradora de Trópico), submeteram Lovink a uma verdadeira sabatina sobre arte, política e internet, sem deixar de fora, óbvio, o tema da mídia tática, que lhe é tão caro.

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Ricardo Rosas: Como você vê as ações táticas de mídia, hoje?

Geert Lovink: O conceito de mídia tática surgiu nos anos 90, uma década gay, festiva. Dez anos passados, existe uma diversidade notável de praticantes da mídia tática, ainda que talvez nem todos eles optassem por usar esse termo. Mas isso não é relevante. O mesmo se aplica ao ativismo na mídia. Nem todos que são ativos gostam de usar essa identidade fixa como “ativista”.


Guilherme Kujawski: Qual foi o mais eficiente ataque de mídia tática que você viu?

Lovink: Sem dúvida seria o trabalho do grupo “yesmen”, do RTMark. Tenho de admitir que não me impressionei muito com o RTMark quando eles entraram em ação, no final dos anos 90. Algumas de suas ações de spam tinham aquela atitude pseudo-subversiva de arte na internet, coisa de garotos adolescentes.

Mas, quando assumiram o papel de atores fingindo ser funcionários do GATT e da OMS, se tornaram muito efetivos. O que gosto neles é a insistência em não serem esses sujeitos bonzinhos de ONGs, que transmitem uma mensagem comovente. Isso não requer envolvimento. Em lugar disso, eles reservam sinais e usam de maneira equivocamente perfeita as redes das novas mídias.


Raquel Rennó: Há cada vez mais trabalhos táticos de mídia exibidos como arte em museus e galerias, como uma obra de arte fechada. Você disse, em entrevista à revista “Artnodes” que ”existe uma distância entre tópicos abstratos como a dívida do Terceiro Mundo, os acordos mundiais de comércio, as políticas financeiras e a miséria cotidiana, com sua luta local, concreta. Não creio que o ativismo na internet, ou aliás a mídia tática, sejam capazes de superar essa distância. O que podemos fazer é um intercâmbio de conceitos”. As ações de grupos como o Irational, de Daniel Andújar, da Espanha, ou o Metareciclagem, do Brasil, não serviriam como exemplos de procedimentos concretos que pretendem ir além da simples denúncia, criando uma possibilidade de interferência local por meio da educação digital (ensinar as pessoas a construir hardware e a usar software de fonte aberta) de indivíduos economicamente excluídos?

Lovink: Sim, a maior parte dos grupos de mídia tática facilita o acesso a fim de fomentar novos diálogos. Não há nada contra isso. No entanto, o que me interessa mais é o que acontece a seguir, depois do acesso e do intercâmbio. Na minha opinião, as iniciativas interessantes de mídia tática não apenas facilitam, mas questionam e desconstroem, especialmente a mitologia de suas próprias tecnologias.

O Irational e o Metareciclagem não são telecentros comuns que fornecem treinamento para o uso do software hegemônico. Trata-se de projetos profundamente metafóricos, críticos, conceituais. São protótipos. Realizam experimentos sociais em uma era de demo design. Constroem memes (idéias contagiosas).

A maioria desses “vírus culturais” fracassa, mas alguns obtêm sucesso, e exercem grande impacto sobre a sociedade. E há também o aspecto de movimento. Movimentos surgem e se vão, mas os ativistas da mídia podem, se não mais nada, ao menos transmitir e reescrever a história que vivem e ganhar consciência sobre a rica tradição na qual operam.


Lucas Bambozzi: Por não ter necessariamente qualquer valor estético, a arte política com disposição ativista não segue a lógica capitalista e não se constitui como mercado (para muitos, nem mesmo como arte). Por essa razão, como você posiciona as práticas artísticas ativistas diante dos observadores que insistem em dizer que elas ocupam o terreno da arte e não o da política?

Lovink: A recusa de participar do mercado é um gesto de poder. No passado, a tecnologia era dispendiosa e cercada por uma aura mítica de engenheiros e especialistas. Cada vez mais, os produtores não técnicos de trabalhos criativos podem usar a mídia eletrônica com pouco ou nenhum apoio das classes técnicas.

A capacidade de operar fora das artes não é tão fácil. Mesmo sem que você se declare um artista, seu trabalho pode ser arrastado para o sistema das artes. A estratégia da antiestética, como os punks, ou a da não estética, como a que os ativistas adotaram, não ajuda muito.

Evidentemente você pode sustentar que seu trabalho é puramente político, mas isso só torna suas criações potencialmente mais interessantes. Talvez ajudasse defini-las como “amadoras” ou “sem significado”, para escapar às atenções dos curadores e críticos. O local também ajuda, ocasionalmente. Muitos locais não são sexy ou, pelo menos, ainda não o são.


Bambozzi: Como você vê, nessas práticas, a possível convergência entre fruição estética (da ordem do sensível) e valor unitário (conteúdo político incisivo)?

Lovink: Em minha experiência, é vital que haja participação de designers gráficos e videoartistas, e não apenas artistas visuais. A convergência sobre a qual você fala é possível, mas o que é realmente necessário é a excitação de um movimento social crescente. A multidão precisa crescer. Campanhas e ações simplesmente acontecem. Os eventos precisam estar em curso.

No caso de um movimento emergente, há muito espaço para estética de mídia experimental. É muito mais difícil caso você tenha de criar pontes entre comunidades já existentes e enfrentar um clima político que lhe seja adverso. A contracultura e a mídia underground são ótimas, mas não é disso que trata a mídia tática. Eles vivem do crescimento e buscam oportunidades de intervir. Nesse sentido, não são contra “as correntes”.


Marcus Bastos: Será que um termo militar como “tática” é realmente apropriado para descrever ações de contracomunicação?

Lovink: Não, não é, e isso constitui um problema. A palavra “tática” foi escolhida para enfatizar a abordagem flexível, de curto prazo, depois de 1989, em meio à revolução tecnológica dos computadores pessoais e das câmeras de vídeo portáteis. Durante minha palestra no Senac, em São Paulo, alguém sugeriu que a expressão deveria ser mídia “tactful” (ou seja, repleta de tato). Isso me serve, mas talvez seja polido demais, cristão demais. Mídia tática quer dizer estar na ofensiva, não pedir desculpas.


Arte e ativismo

Roberta Alvarenga: Qual é a diferença entre os artistas e os ativistas que usam as novas mídias?

Lovink: Deveria haver pouca diferença, na medida em que eles de fato explorarem a mídia e não se limitarem a usar os programas e a estética padronizados. O que existe em comum entre eles é sua fome de pesquisa e sua mentalidade de questionamento à autoridade. Seria tentador dizer que os artistas se concentram na forma, enquanto os ativistas preferem o conteúdo.

Há certa dose de verdade nisso, porque a divisão do trabalho no capitalismo digital é uma questão real para todos nós. A idéia do artista como “gênio” capaz de dominar todas as formas de arte é coisa do passado. Agora, vivemos em uma era do conhecimento na qual as capacidades de milhões de pessoas podem se tornar obsoletas do dia para a noite. Somos todos especialistas, cada qual à própria maneira.

A idéia de uma síntese entre arte e ativismo soa boa, válida, mas não deveria ser necessariamente projetada sobre uma só pessoa. Nas equipes multimídia atuais nós vemos que esse tipo de colaboração, ou melhor, livre cooperação, é essencial. É vital que designers, programadores, editores, gerentes de projeto –quer os chamemos de artistas e ativistas, quer não- tenham históricos e interesses diferentes.


Paulo Hartmann: Como promover o ativismo e ampliar seu escopo? Será que ele só deve ficar no gueto dos “inseridos”? É hipocrisia ou uso tático promover o ativismo por meio da mídia convencional?

Lovink: Não existe muito espaço para agir se você está lutando por atenção. Isso prova uma mentalidade servil. A mídia tática, em minha opinião, tem uma posição “soberana” quanto aos monopólios convencionais de mídia. Isso não significa que precise se esconder em um gueto. Pode-se trabalhar da maneira que se desejar, criar coalizões temporárias, colaborações interessantes, sem que isso implique em comprometimento. E, se um jornalista aparecer, bem, cabe a você tomar a atitude soberana e responder suas perguntas de maneira polida, compassiva e profissional.


Priscila Arantes: Já que a arte é divulgada nos meios de comunicação, como transcorre a relação entre arte e Estado, hoje?

Lovink: Na maioria dos países, a idéia de um mercado de artes é um conceito ainda distante. O Estado continua a ter grande controle sobre a produção de arte. Não creio que isso deva mudar muito nos próximos anos. Nos Estados Unidos, o controle é pequeno, na Europa é grande, nos dois casos já há muito tempo. O patrocínio se tornou mais importante, e também cresceu a importância das fundações, mas esses dois fatores ainda não afetam os fundamentos do setor.

O papel reforçado das forças de mercado, evidentemente, é devastador para as formas de arte experimentais, como as artes em novas mídias. As empresas não estão interessadas porque a arte eletrônica por definição não se envolve na produção de protótipos funcionais.

Ela pode ser usada para polir a imagem de uma corporação, mas a maior parte da arte em novas mídias simplesmente não é acessível ou “sexy” o bastante para atrair uma audiência de massa. Trata-se de arte introspectiva, que necessita de muita explicação. É por isso que a maioria dessas formas de arte são ou produzidas do interior das seguras paredes de uma academia ou com ajuda do Estado.


Patrícia Canetti: Quem deveria preservar a atual produção de mídia?

Lovink: Primeiro vamos começar a salvar e a armazenar os dados culturais digitais que estão sendo produzidos. Só então poderemos falar sobre preservação. Não estou certo de que seja bom negócio entregar tudo à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, ao Google ou até mesmo ao valoroso Internet Archive e sua Wayback Machine.

Isso soa chato, mas por enquanto creio que a responsabilidade caiba a todos e cada um. Imprimir cópias dos e-mails essenciais. Salvar backups nas novas gerações de sistemas de armazenagens de dados. E salvar os arquivos digitais pessoais de vez em quando não custa nada.

Eu tive boas experiências com o arquivamento do maior volume possível de meu material online. Muitos estudiosos têm reservas sérias quanto a isso porque temem problemas de direito autoral, mas do ponto de vista da conservação a internet não é uma opção tão ruim, afinal.


Arantes: Alguns pensadores, como Adorno e Horkheimer, da escola de Frankfurt, sustentam que a práxis política e artística não pode ser incluída no contexto da indústria cultural. Qualquer prática que lide com dispositivos de mídia, de acordo com essa visão, termina desempenhando o papel de ideologia dominante e assim o da lógica capitalista do momento. Como situar o ativismo em mídia, dessa perspectiva?

 
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