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SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

Palanque com as estrelas
Por Denise Mota

Eleições parlamentares na Argentina, no dia 23, têm uma enxurrada de candidatos do mundo do showbusiness

Não se trata propriamente de palanque, mas de palco. E, quando se fala em “plataforma”, há que considerar se não é ao salto plataforma que o candidato está se referindo. Nas eleições parlamentares argentinas deste ano, que acontecem em 23 de outubro, uma dezena de personalidades mais afeitas a roteiros e gravações do que a programas de governo e discussões administrativas está disputando um lugar no mundo da política.

São atores, músicos, apresentadores de TV, humoristas, que querem adentrar o hall do Congresso, agora que o país renovará parcialmente seus representantes. Nos 24 distritos da Argentina, serão eleitos 24 senadores, 127 deputados e 276 legisladores ligados às Províncias do país. No interior, o poder regional se mostra forte, com previsão de que, dos 24 distritos, 20 registrem vitória de candidatos alinhados com seus respectivos governadores, de acordo com análise do especialista político Rosendo Fraga.

A batalha mais acirrada, como era de esperar, será travada na Província de Buenos Aires, berço de 37,2% do colégio eleitoral argentino. Em primeiro plano, em termos estritamente políticos, está a disputa entre a primeira-dama Cristina Fernández -senadora do Partido Justicialista (PJ) que lidera a corrida com 42% das intenções de voto, pela kirchnerista Frente para a Vitória- e a deputada Hilda “Chiche” González, mulher do ex-presidente Eduardo Duhalde (que governou a Argentina entre 2002 e 2003), detentora de 18% dos votos previstos para o pleito e representante oficial do PJ.

Mas Buenos Aires também é cenário de outra competição nestes tempos eleitorais e que tem atraído mais a atenção dos argentinos: a luta dos candidatos “popstars”, que, apesar de terem pouca ou nenhuma chance real de freqüentar o Parlamento, possuem estoque inesgotável de farpas e declarações de efeito, distribuídas em inumeráveis aparições em programas, talk shows e publicações dedicadas ao mundo da fofoca.

Nesse desfile de “nanicos” barulhentos, o destaque cabe a Moria Casán, 55, introdutora das praias nudistas na Argentina, atriz do teatro de revista, do cinema e da televisão e cabeça de lista de deputados de um partido criado para a ocasião, batizado Movimiento Federal del Centro, alinhado ao ex-presidente Carlos Menem (1989-1999).

A plataforma de Casán -para além de exibir por Buenos Aires sua longa cabeleira negra, os enormes óculos escuros e a portentosa silhueta esculpida por cirurgias plásticas e apertada em estampas de oncinha- é ampliar e concretizar leis relacionadas ao direito da mulher, além da promessa de construir abrigos para vítimas de violência doméstica.

“Sempre considerei que contribuía mais para o país em cima de um palco, para entretenimento do público, do que sentada numa bancada do Congresso. Já me haviam proposto a candidatura em outras ocasiões, mas agora me pareceu sugestiva a proposta e era o momento indicado para aceitá-la”, justificou a atriz no programa de fofocas “Intrusos”, espécie de “TV Fama” argentino.

Fazendo jus a seu sucesso, Casán mostra que possui senso de oportunidade: de fato, a Argentina de hoje, segundo estudo realizado no país neste ano, é lugar em que apenas a Igreja e o showbiz podem ainda usufruir de prestígio, entre uma população frustrada com a política tradicional, insatisfeita com o desempenho de seus dirigentes e culturalmente pouco apegada a leis.

Da “Pesquisa de cultura institucional - Argentina: uma sociedade anômica”, cujos resultados foram divulgados em julho, emerge um baixo grau de confiança dos argentinos nas instituições, ao mesmo tempo em que se nota a procura por líderes.

O trabalho, publicado pelo Instituto de Investigações Jurídicas da Unam (Universidade Nacional Autônoma do México), registrou que 86% dos entrevistados consideram que a Argentina vive à margem da lei na maior parte do tempo. Além disso, em primeiro lugar no quesito das autoridades públicas percebidas como as mais desrespeitosas da legislação, aparecem os políticos, citados por 74% dos consultados, seguidos por policiais (56%), funcionários públicos (49%) e juízes (41%).

Também vem à tona uma sociedade “hiperpresidencialista”, em que os legisladores não são vistos como autoridades importantes para o equilíbrio dos poderes na estrutura governamental, além da percepção de que a política tradicional não resolve os problemas da população.

“A desideologização da política, o excessivo pragmatismo, a falta de diferenciação entre as opções, o uso e abuso do marketing político vêm concorrendo para debilitar a política. A esses fenômenos particulares, na Argentina se adiciona o fato de que, nas últimas décadas, a política fracassou em melhorar a qualidade de vida das pessoas, com uma deterioração social sem precedentes”, escreve Rosendo Fraga, ao comentar as eleições parlamentares do país em seu site Nueva Mayoría, criado a partir do centro de estudos homônimo. “Esse último fator”, continua, “é o que faz com que a Argentina tenha manifestações mais agudas e que, no contexto latino-americano, seja o país mais cético em relação ao político e ao institucional”.

Segundo observa o cientista político argentino Daniel Zovatto, também do Nueva Mayoría e um dos coordenadores da “Pesquisa de Cultura Institucional”, os dados que surgem do estudo “evidenciam o grande paradoxo que hoje caracteriza a sociedade argentina. Por um lado, há uma grande demanda por líderes capazes de governar respeitando as leis. Mas, por outro, uma sociedade que conhece e obedece pouco à sua Constituição, que se autoclassifica majoritariamente como transgressora, que, em vez de assumir como própria a responsabilidade por essa falta de cumprimento das leis, prefere transferi-la aos ´outros’”.

Esses elementos ajudam a entender por que nomes do universo artístico estão migrando para o plano político, ciosos de que há um vácuo de confiança que, acredita-se, possa ser preenchido pelo carisma dos que se tornam simpáticos ao povo através de programas televisivos.

Daí que, nestas eleições, dividam os holofotes com Moria Casán um conjunto de figuras do mundo do espetáculo como as atrizes Ethel Rojo (no páreo pela menemista Frente Popular) e Zulma Faiad (candidata a deputada nacional por um certo Partido de la Esperanza Porteña), Claudio Morgado, ex-apresentador de TV (candidato a deputado pela Frente para a Vitória de Kirchner e cuja plataforma é legislar sobre “assuntos vinculados à cultura”), e outros nomes conhecidos dos telespectadores argentinos, como o ator Luis Brandoni, na competição pela União Cívica Radical (UCR) a um lugar no Senado na Província de Buenos Aires, o humorista Nito Artaza, ainda pela UCR, mas postulante a deputado na Capital Federal, e a atriz Susana Rinaldi, militante socialista.

. Também competem Dorys del Valle (Partido de la Reconstrucción Republicana, de recorte menemista), a atriz Irma Roy (candidata a deputada da Província de Buenos Aires pelo Partido Popular, com apoio de Menem, e Elida Mércuri, apresentadora de um programa voltado às artes manuais no canal feminino Utilísima e candidata a legisladora em San Martín pela Agrupación Realidad Vecinal, além de integrante da mesa “Mulheres K”, da Província de Buenos Aires.

No cenário eleitoral, a presença de artistas, atletas e outras personalidades bem-sucedidas em outros setores, que não o político, da vida pública argentina não é novidade. A “glamourização” do poder foi instaurada já na década de 90, quando o séquito famoso de Carlos Menem serviu de instrumento para que o governante conquistasse localidades como Tucumán, com o cantor “Palito” Ortega, e Santa Fé, com o automobilista Carlos Reutemann.

Este ano, no entanto, traz um novo matiz: desde o momento em que se candidatam, essas figuras do mundo do espetáculo visam menos consolidar-se na política tradicional e muito mais expandirem seu poder midiático pessoal.

Levantamento do Observatório Eleitoral Latino-Americano indica que, se as eleições para deputados nacionais da Argentina fossem hoje, a lista liderada por Mauricio Macri (do PRO - Propuesta Republicana) seria a mais votada, com 28,3%. Em segundo lugar, chegaria a de Elisa Carrió (criadora do ARI - Afirmación para una Republica Igualitária), com 21,2%, seguida pela equipe encabeçada pelo kirchnerista Rafael Bielsa, com 15,8%.

As três listas reúnem 65,3% das intenções de voto, o que significa que há poucas chances de acesso ao Parlamento para os candidatos das demais agremiações, sobretudo se se levar em consideração que 23,2% dos entrevistados demonstram intenção de anular o voto, ainda de acordo com a pesquisa do Observatório. O estudo -divulgado na semana passada, após ser realizado em Buenos Aires na última semana de setembro- ainda indica a existência de 15,9% de indecisos.

Entre as “estrelas”, apenas Moria Casán aparece no levantamento, com um discreto 1,7% de intenção de voto.

“Há dois fenômenos: por um lado, no contexto do forte desprestígio dos dirigentes políticos em geral, boa parte dos candidatos destaca sua falta de experiência política anterior. Quase não há postulantes que se gabem de sua ´vasta experiência`, como acontece em outros sistemas políticos do mundo. Esse clima favoreceu o ingresso desses atores televisivos. Também destacaria o ´efeito dominó` da candidatura de Moria Casán, imediatamente imitada por outras atrizes etc., que se lançaram na última hora, convocadas por partidos muito pequenos e desconhecidos, que precisavam de um nome conhecido à frente de suas listas”, afirma o analista político Julio Burdman, 32, diretor do Observatório.

Sobre essa movimentação já típica da vida eleitoral argentina e que ganha novas tonalidades neste ano, Trópico conversou com Burdman, que comenta a seguir as particularidades do pleito.

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Que análise o sr. faz das eleições deste ano, à luz da participação de tantos nomes do showbiz?

Julio Burdman: Não é um fenômeno novo na Argentina. Nos últimos anos, muitos dirigentes vieram do mundo do esporte e do espetáculo: o governador Carlos Reutemann, o governador Ramon “Palito” Ortega, o atual vice-presidente Daniel Scioli (motonáutica), para mencionar os mais bem-sucedidos. Foi o peronismo, a partir de Menem, que utilizou a fama para promover o acesso às candidaturas. Ainda que não tenha sido o único partido a lançar mão disso.

Nestas eleições apareceu uma grande quantidade de candidatos “midiáticos”, ainda que o provável seja que quase nenhum deles tenha êxito: apenas Moria Casán aparece de fato na competição, além de Claudio Morgado, que está em quarto lugar na lista de Rafael Bielsa. A diferença em relação aos casos anteriores é que antes se tratava de pessoas com prestígio social, principalmente atletas. Agora aparecem personagens mais vinculados ao teatro de revista e à televisão.


Se o sr. fosse votar em alguma dessas celebridades, qual escolheria?

Burdman: Nenhuma! Mas reconheço que simpatizo mais com Moria Cásan do que com os demais.


Em análise recente, Rosendo Fraga aponta que “a política é feita hoje para a televisão” e que “a Igreja e os meios de comunicação são os que têm melhor imagem” no país atualmente. Como o Observatório Eleitoral Latino-Americano analisa a situação atual do país, em termos eleitorais?

Burdman: A vantagem relativa desses candidatos midiáticos é que eles se movem com habilidade diante das câmeras, são mais divertidos e conseguem ser entrevistados por toda uma série de programas televisivos “da tarde” (os de espetáculos, fofocas etc.) que normalmente não convidariam políticos. Esses candidatos multiplicam sua exposição, transportando a discussão política para outros âmbitos.


Nos anos 90 se viam igualmente estrelas envolvidas com a política. Desta vez o que se nota é que há artistas com idéias próprias e programas que teoricamente estão em sintonia com o que eles querem fazer, diretamente, na arena política. O sr. concorda com essa percepção?

Burdman: A diferença mais importante que vejo entre as duas épocas é que Menem convocava esses “famosos” do alto do seu poder, enquanto agora esses pequenos partidos inexistentes (note que na Argentina é muito fácil registrar um partido político, somente na cidade de Buenos Aires há mais de 60) são os que convidam essas figuras midiáticas. Ainda que a UCR, um dos partidos históricos e grandes, mas hoje muito diminuído, apresente o ator Luis Brandoni como primeiro candidato a senador pela Província de Buenos Aires e o comediante Nito Artaza figure na lista do partido de deputados portenhos.

 
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