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Foi a época em que Dario Argento iniciou o relacionamento com a atriz Daria Nicolodi, com quem teve a filha Asia Argento, também atriz e diretora. Considerado como sua obra-prima, o filme seguinte, “Suspiria”, de 1977, apostou de novo na banda italiana de rock progressivo Goblin para compor a trilha sonora: uma mistura de instrumentos musicais, gemidos, gritos e sussurros. A experiência de combinar mortes violentas e beleza estética atinge o esplendor na tela. John Carpenter, diretor norte-americano conhecido por obras como “Halloween” e “Vampiros”, definiu a sensação de assisti-lo como “estar preso num pesadelo”.

A atriz Jessica Harper interpreta Suzan Banyon, uma dançarina de balé que desembarca no aeroporto rumo a uma prestigiosa academia de dança na Alemanha. Ao perceber o comportamento estranho das professoras e deparar-se com incidentes mal explicados, ela tenta primeiro fugir da academia. Descobre, então, que o local está dominado por forças sobrenaturais.

Em artigo para a revista australiana “Senses of cinema”, Xavier Mendik, diretor do Cult Film Archive, da Universidade de Northampton, aponta que no filme “embora o cenário sobrenatural tenha significado um desvio radical das suas produções giallo anteriores, Argento manteve seu tema favorito de homens ineficazes que são dominados por mulheres agressivas”.

Além de filmes para cinema, Dario Argento produziu também uma série intitulada “Giallo” para a televisão italiana. Assinou, em 1990, um projeto com George A. Romero, diretor do clássico de horror “A noite dos mortos-vivos”, com quem já havia trabalhado em 1978, por ocasião da segunda seqüência da trilogia dos zumbis. O filme, “Two evil eyes”, conta com dois episódios baseados nas histórias de Edgar Alan Poe que, segundo o próprio Argento, foi o autor mais lido na infância e cuja influência foi determinante para o seu “ingresso no mundo oculto”.

Em 1993, Dario Argento trabalhou com a filha Asa em “Trauma”. Uma das raras vezes que o diretor optou por rodar o filme nos EUA e não na Itália, onde se sente mais à vontade para filmar. Para cuidar dos efeitos especiais contratou Tom Savini, o fiel parceiro de George A. Romero. E mais uma trama que combina uma série de assassinatos com práticas sobrenaturais.

Aura Petrescu, interpretada por Asia Argento, é uma adolescente que foge de uma clínica psiquiátrica. Sua mãe tem poderes mediúnicos e durante uma sessão sente a presença de um assassino. Na mesma noite, os pais de Aura são mortos no jardim da casa. Junto com David, Aura acompanha a série de assassinatos que se segue. Os crimes só acontecem em dias chuvosos e as vítimas são decapitadas com o auxílio de uma máquina de estrangulamento.

Seguindo esta linhagem fiel à tradição dos filmes giallo, Argento continua em plena atividade. Em 2000, dirigiu o thriller “Non ho sonno”, em que um detetive aposentado, interpretado por Max Von Sydow, resolve reabrir um caso acontecido há anos depois que uma prostituta encontra novos indícios. Seu último filme lançado foi “O jogador de cartas” (“Il cartaio”), exibido em 2004 nas mostras de São Paulo e do Rio de Janeiro.

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“A influência de Bava está em todo lugar”,
diz o biógrafo Tim Lucas

Editor-chefe da revista norte-americana “Video watchdog”, Tim Lucas empenhou-se numa missão de fôlego ao tentar abordar em um único livro a vida e todas as obras do cineasta italiano Mario Bava. Conseguiu com êxito dar fim à jornada que durou exatos 30 anos. O catatau de mais de mil páginas chama-se “Mario Bava – All the colors of the dark” (Mario Bava – Todas as cores do negro) e tem lançamento previsto para dezembro nos EUA.

Do seu escritório em Cincinnati, Ohio, Tim Lucas falou com Trópico sobre o processo de confecção do livro, a paixão precoce pelos filmes de Bava e apontou quais diretores beberam na fonte do mestre italiano.


Por que você decidiu escrever um livro sobre o diretor Mario Bava? Quando deu início ao projeto?

Tim Lucas: Tudo começou na verdade quando eu concordei em escrever um artigo para a revista “Cinefantastique”. Eu sempre tive uma atração quase mística pelos filmes de Mario Bava, eles me deixavam várias vezes com indagações sem respostas, portanto eu decidi buscar essas respostas.

Comecei a pesquisar sobre o tema em abril de 1975, munido apenas por uma pequena lista com o título dos seus filmes. Quanto mais eu pesquisava, mais vasto o projeto ia se tornando até finalmente virar um livro. Mais tarde, eu fiquei sabendo que Bava havia sido diretor de fotografia durante 20 anos -o mesmo tempo que ele trabalhou como diretor. Então o projeto dobrou de tamanho mais uma vez. Demorou bastante tempo para eu conferir cada trabalho a seu respeito.


O livro traz um material especial como fotografias tiradas no set do filme “La maschera del demonio” (1960) e alguns storyboards desenhados pelo próprio diretor. Como você conseguiu isso?

Lucas: Não foi assim tão complicado, como se eu tivesse me desdobrado por anos para obter esse material. Pelo contrário, os storyboards me foram enviados pelo filho do Mario Bava, Lamberto, sem que eu ao menos tivesse solicitado. Fiquei espantado quando abri o envelope.

As fotos tiradas no set de “La maschera del demonio” eu consegui através de diferentes fontes, sem muito esforço também. Suponho que as pessoas tiveram conhecimento do meu trabalho com o livro pelas notas e comentários que eu produzi para DVDs, ou em artigos para revistas. Ao se darem conta, elas me forneceram material com o qual eu pudesse contar na produção do livro.


Qual foi o principal legado deixado pela estética de Mario Bava ao gênero de horror?

Lucas: Eu acho que a principal importância de Mario como inovador do estilo foi o fato de ele ter sido o primeiro diretor de filmes de horror que concebeu a maneira ideal de fotografar em cores os elementos fantásticos e sombrios. Ele também foi um cineasta completo no sentido de dirigir, fotografar, editar, cuidar do cenário e criar os efeitos especiais nos seus filmes.


Você teria alguma explicação que pudesse elucidar melhor o despertar na Itália de um cenário tão portentoso do cinema de horror nos anos 60 e 70?

Lucas: O horror nunca foi popular na Itália durante esse período. Os filmes de horror italianos tornaram-se populares em termos de exportação, principalmente na França e nos Estados Unidos. Acho que a notoriedade desse panorama se deve ao conhecimento dos cineastas em relação às diversas formas de arte.

Os italianos eram um povo mais instruído culturalmente do que os americanos, por exemplo, e eles puderam rechear seus filmes com alusões a pinturas, a esculturas e à literatura. Se Roger Corman (diretor e produtor norte-americano de filmes B) ou qualquer outro fez um filme baseado em Edgar Allan Poe, você não teria certeza se ele realmente leu a história adaptada.


Mario Bava começou a trabalhar no cinema como operador de câmera e, mais tarde, como diretor de fotografia. Como essa experiência influenciou na sua produção futura como diretor?

Lucas: Bava sempre foi o operador de câmera nos filmes que dirigiu, mesmo quando outro nome (qualquer outro membro da equipe) aparecia nos créditos. E nos filmes em que Bava foi apenas o diretor de fotografia, ele várias vezes foi solicitado para dirigir algumas cenas. Em conseqüência disso, seus filmes sempre tiveram uma orientação visual apurada em que prevalecia a sequência de imagens em detrimento aos detalhes narrativos.


A colaboração de Mario Bava no filme “I vampiri” (1957), de Riccardo Freda, pode ser tomada como a sua primeira incursão no gênero de horror? É verdade que Bava dirigiu várias sequências do filme depois que Freda abandonou o projeto?

Lucas: Sim, é verdade. Freda teria de terminar as filmagens em 12 dias. Depois de 10 dias, ele tinha apenas metade do filme completo e os produtores fizeram pressão para que ele terminasse nos dois dias seguintes. Ele, então, abandonou o projeto e Bava assumiu a direção, terminando tudo em apenas dois dias.


Em “As três máscaras do terror” (1960), Bava criou um fantástico esquema visual preenchido por uma espécie de atmosfera barroca. Como a fotografia desse filme inovou o estilo gótico?

Lucas: Este design está também presente em “I vampiri”. Creio que foi parcialmente inspirado no filme “A branca de neve e os sete anões”, de Walt Disney, um dos poucos filmes assustadores que pôde ser exibido na Itália na época em que Mussolini baniu os filmes de horror. Na Itália, não houve exibição dos clássicos filmes de horror da Universal dos anos 30 e 40. Eles só foram vistos por lá no começo dos anos 50.


Por que Bava decidiu trabalhar em “As três máscaras do terror” com a atriz britânica Barbara Steele, que se tornaria mais tarde a “rainha do horror”?

Lucas: Foi a época da greve de atores em Hollywood, portanto Steele estava procurando trabalho na Europa. Bava viu sua fotografia e gostou do seu rosto, seus olhos grandes, e pensou que ela seria perfeita para interpretar as gêmeas do bem e do mal.


Você não percebe certos elementos irônicos nos filmes de Bava?

Lucas: Não tem nada mais do que ironia nos filmes de Bava. Ele está sempre contrastando terríveis assassinatos com ambientações de extrema beleza, ou mostrando pessoas alcançando seus sonhos opulentos para no final perder tudo. Em “L’ecologia del delitto” (1971), uma complicada cena envolvendo vários assassinatos termina quando os dois assassinos sobreviventes são baleados fatalmente pelos seus filhos. Eles pensavam que a arma era de brinquedo.


Junto a Dario Argento, Bava pode ser considerado o inventor do filme giallo?

Lucas: Apenas um tipo de filme giallo. Na Itália, giallo significa qualquer espécie de thriller, até mesmo as histórias de Agatha Christie, Edgar Wallace ou Raymond Chandler. Bava foi o primeiro a fazer do filme giallo um catálogo estilizado de brutais assassinatos, inspirados na cena do chuveiro de “Psicose”.


Você arriscaria apontar alguns diretores ou gênero de filmes que possivelmente beberam na fonte de Mario Bava?

Lucas: Os filmes hoje em dia são predominantemente visuais e coloridos, além de brutais e irônicos. Portanto acho que a influência de Bava pode ser vista em quase todo lugar. Alguns dos diretores que admitem serem seus fãs são Joe Dante, Tim Burton, David Lynch, Ernest Dickerson… A lista é interminável. Bava foi o primeiro diretor a filmar uma história de assombração sobre uma criança possuída por espíritos do mal, e agora parece que todo filme vindo do Japão conta a mesma história.


Qual é na sua opinião a cena mais tocante na vasta filmografia de Mario Bava?

Lucas: A resposta mais fácil é provavelmente “Sei donne per l’assassino” (1964), que tem uma seqüência de cenas construídas com rara beleza. Há um momento poderoso em que uma mulher está no andar de cima tirando a roupa, quando de repente ela ouve um som. Supostamente ela está sozinha na casa. Há um corte para o andar de baixo, num quarto enorme. Aparece uma harpa em primeiro plano e nós podemos ver as cordas vibrando como se estivesse sendo dedilhada.

Na mesma tomada, há querubins decorativos como anjos. A câmera está posicionada abaixo no solo e começa a se mover adiante, na direção de uma divisória. Atrás dessa divisória, descobre-se um corpo morto de uma linda mulher. De repente, o corpo começa a se mover e mãos invisíveis arrastam-no para fora do quadro. Assistir isso em tela grande é impressionante.

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Fernando Masini
É jornalista.

 
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