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Penso que durante os anos 80 as coisas se complicaram, a Cinemateca queria ir num sentido e o Estado em outro. Ficou difícil encontrar um denominador comum. Nos anos 80, Jack Lang tinha muitos planos para a Cinemateca e propôs que ela se instalasse no Palais de Tokyo. As coisas foram iniciadas, mas a Cinemateca estava um pouco dividida sobre esta proposta, porque havia um medo de que o Estado quisesse controlar demais a instituição.

Nesse momento, o Estado se afastou, e a Cinemateca acabou ficando no Palácio de Chaillot. O palácio era um lugar formidável nos anos 60, quando Langlois recebeu-o de Malraux, mas com a modernização das instituições e o fato de que havia ali apenas uma tela, o local se tornou um obstáculo ao desenvolvimento da Cinemateca. Quando foi feita a proposta de comprar para a Cinemateca o prédio de Gehry, o antigo American Center, no final dos anos 90, então surgiu uma luz, um projeto possível.


Agora ela retoma a ambição de tornar-se a “Comédie Française do cinema”?

Toubiana: Sim. Porque há três salas para o público no mesmo local. A gente vai poder exibir três filmes diferentes ao mesmo tempo, inclusive fazer uma homenagem a Jean Renoir e outra a Michael Caine. Temos dois espaços de exposição, o espaço Passion Cinéma, a Biblioteca do Filme, onde poderão ser consultados livros, revistas e arquivos da internet. Os arquivos de Truffaut estão na Biblioteca do Filme. Pode-se também ver DVDs no local. Haverá ateliês pedagógicos para a formação das crianças. Em um único endereço, vamos ter todas as atividades. Haverá também uma livraria e um restaurante. Esse era o sonho de Langlois.


E como o senhor se sente realizando o sonho dele?

Toubiana: Muito feliz. Ao mesmo tempo, temos um pouco de medo, porque tem que dar certo. É preciso que todo mundo se sinta bem, que o público venha, que a gente se adapte a esse bairro que me agrada muito e ao prédio de Gehry, de que gosto muito. Há muitos elementos favoráveis, mas é preciso que as pessoas venham ver os filmes e as exposições.

Nunca tivemos tanta possibilidade de realizar nosso sonho. Estamos nos tornando o que Malraux sonhou. Precisamos agradecer a ele e a seus sucessores, porque sem o Estado não poderia ter sido feito. Não estamos mais numa história de conflitos, estamos numa relação de parceria, de diálogo, sabendo que a Cinemateca continua a ser uma associação independente.


Régine Robin, socióloga e cinéfila francesa que vive entre o Canadá e a Europa, diz que Paris é a única cidade no mundo em que ela pode ir ao cinema todos os dias durante 30 dias e só ver obras-primas. Por que Nova York e outras capitais do mundo estão tão distantes de Paris nesse aspecto? Seriam ainda os “Cahiers du Cinéma” e a Cinemateca que fornecem a explicação?

Toubiana: Não, o que temos em relação ao cinema, Nova York tem em relação às artes: as galerias, os museus, a arte moderna são a força de Nova York, talvez a música também. Mas o cinema nos Estados Unidos é “entertainment”, é um produto, consumo, “pop corn”. Lá, o cinema é essencialmente uma indústria para os adolescentes, muito menos aqui.


Nos Estados Unidos não há essa cinefilia como entre os franceses?

Toubiana: Não, nossos amigos cinéfilos de Nova York têm menos oportunidade de ver tantos filmes diferentes. A mesma coisa se passa em Madri, em Roma e em Londres. Londres é uma cidade terrível, o cinema é bem menos considerado pelo governo, mas também pela sociedade inglesa. O teatro tem mais lugar. Na Alemanha também não há muito cinema. E como agora a forma que o cinema tem para se implantar nas cidades é o multiplex, eles são criados na periferia, as pessoas vão de carro, param nos estacionamentos, vão comer uma pizza, ver o filme americano.

Em Paris, temos ainda essa tradição de ver os filmes na cidade, em Saint Germain, no Odeon, nos Champs Elysées. Mesmo se existem multiplex, ainda há a vontade de ver os filmes em salas normais, nos bairros. Isso é uma oportunidade histórica. Se você vai a Tóquio, pode procurar os cinemas e não encontrá-los. Eles estão escondidos. A cidade é extremamente iluminada, mas não se vêem os cinemas. O cinema é clandestino.


Quais são as cinematografias mais inovadoras atualmente?

Toubiana: De uns dez anos para cá são as da Ásia -China, Coréia e Japão-, onde houve uma grande renovação. E ainda a Tailândia, as Filipinas, a China comunista, que produz filmes, de um lado, do cinema oficial e, de outro, do não-oficial. Há uma verdadeira renovação estilística na Ásia, em termos de escrita, de impacto, que acho muito interessante.

Acho que a América Latina, que a gente imaginava um pouco apagada, começa a se movimentar. A Argentina faz isso, mesmo na crise. Sempre pensei que o cinema ficava mais forte em países em crise. No fundo, o cinema é uma arte que tem necessidade da crise para se expressar do ponto de vista do sentimento nacional, com algo de uma angústia, de um desejo, de uma vontade de renovação. O problema da França é que produzimos muitos filmes, 200 por ano, mas globalmente fazemos um cinema que não expressa mais o mundo no qual estamos, um mundo difícil, dividido em angústias coletivas.


E por que ele não expressa mais esse mundo?

Toubiana: Porque é um cinema protegido demais.


Em que sentido?

Toubiana: Porque a gente tem acesso mais fácil ao dinheiro, aos financiamentos, e é verdade que temos mais vontade de ver os filmes de Taiwan, do Irã. O Irã é um país extremamente complicado, com o integrismo de um lado e a sociedade civil democrática tradicional que continua a existir, mas onde o cinema consegue dizer coisas com uma relativa liberdade, autenticidade e verdade.

Se o senhor tivesse que escolher somente 6 filmes para levar para uma ilha deserta, quais escolheria?

Toubiana: Um filme de Mizoguchi, “Rue de la honte” (Rua da vergonha); um filme de Clint Eastwood, “Garota de ouro”; um filme de Godard, “Pierrot le fou”; um filme de Bergman, “Fanny e Alexander”; um filme de Rossellini, cineasta adoro-o e que foi importante para minha formação, “Viagem à Itália”; e um filme de John Ford, “Rastros de Ódio”. É muito subjetivo e, se você me perguntar daqui a dez minutos, serão outros seis.


Quando o senhor pensa na história do cinema, há uma cena ou uma seqüência de um filme que lhe vem à memória?

Toubiana: Sim, foi o dia em que vi Orson Welles, na Cinemateca, em 1982. Ele já estava cansado, muito gordo. Lembro-me que ele veio fazer uma conferência e tínhamos colocado uma enorme poltrona como se ele fosse um rei, porque ele ocupava muito espaço. Puseram a poltrona no palco para ele sentar. Eu estava na sala como crítico e me lembro que pensei o que penso dos grandes artistas. Falei para mim mesmo: “Este homem, como numa peça de Shakespeare, é um rei sem reino. Seu reino é o cinema”. E penso isso de todos os grandes cineastas, eles são para mim artistas que nos levam para um mundo no qual eles são mágicos, reis, príncipes, e os países não existem, são reinos virtuais, sonhados.

O poder deles é um poder fundado no sonho e não numa realidade, ao contrário dos políticos ou grandes capitalistas, que possuem algo. Welles jamais teve nada e para mim era um deus vivo. Quando o vi, eu disse para mim mesmo: ele está no palco como um rei, e no entanto esse homem não tem nada, é pobre. Pois ele estava na miséria. Mas, para mim, ele encarnava o cinema. E penso profundamente isso dos grandes cineastas. Eles têm a capacidade de nos levar para reinos imaginários dos quais detêm a chave. E eles não possuem nada. O cinema não é possessão, é projeção.

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Leneide Duarte-Plon
É jornalista e vive em Paris.

 
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