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dossiê
PERSPECTIVAS DO CINEMA

A Cinemateca Francesa encara o futuro
Por Leneide Duarte-Plon


A nova sede da Cinemateca Francesa, em Paris
Alain Goustard/Divulgação

O crítico Serge Toubiana, diretor do famoso museu de cinema em Paris, fala de seus planos para a nova sede da instituição, inaugurada neste mês em prédio projetado pelo arquiteto Frank O. Gehry

A Cinemateca Francesa é a mãe dos jovens talentosos que inventaram a Nouvelle Vague. Sem ela e seu criador, Henri Langlois, a Nouvelle Vague não teria existido, garante Serge Toubiana, crítico e ex-diretor da revista “Cahiers du Cinéma”, de onde saíram Truffaut e Godard, entre outros jovens críticos da década de 60. Eles faziam cinema com uma paixão e uma entrega tão absolutas que deram origem ao mais importante movimento do cinema francês, sua idade de ouro. “Truffaut, aos 16 anos, se refugiou na Cinemateca, era como um refúgio, uma vida clandestina em relação à vida real. A Cinemateca era uma vida paralela, um mundo em si”, diz Toubiana, o atual diretor-geral da Cinemateca Francesa.

Serge Toubiana é o homem certo no lugar certo. Sua paixão pelo cinema o levou a escrever uma biografia de François Truffaut (lançada no Brasil) e o conduz todo dia ao escritório do último andar do antigo American Center, projeto do arquiteto Frank O. Gehry. Sob sua batuta, a nova sede da Cinemateca Francesa foi inaugurada no dia 28 de setembro de 2005, com a presença de vários atores e cineastas, como Martin Scorsese, Wong Kar-wai, Manoel de Oliveira e Roman Polanski.

Na inauguração, Scorsese anunciou a criação de um ramo internacional da Film Foundation, instituição fundada por ele e outros colegas diretores para apoiar as cinematografias dos países emergentes. Foi também aberta a exposição “Renoir-Renoir”, que faz uma aproximação entre a obra do pintor Jean-Auguste Renoir e a obra cinematográfica de seu filho, Jean Renoir. O novo prédio, que lembra o museu Guggenheim de Bilbao, do mesmo Gehry, fica diante do parque de Bercy, na margem direita do Sena. Em frente ao templo do cinema, do outro lado do rio, fica o templo do livro: a Biblioteca Nacional da França, outro belo exemplo da arquitetura moderna da capital. Ligando os dois centros de cultura, no próximo ano, será inaugurada a passarela Simone de Beauvoir. Ninguém melhor para aproximar o mundo do cinema do mundo dos livros.

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Henri Langlois teve um papel fundamental no surgimento da geração de cineastas franceses da Nouvelle Vague. Pode-se dizer que hoje a Cinemateca Francesa, que ele fundou, tem um papel equivalente?

Serge Toubiana: Não, porque muitas coisas mudaram depois de Langlois e depois da Nouvelle Vague. Uma delas foi que, nos anos 50, quando os jovens dos “Cahiers du Cinéma” iam à Cinemateca só havia ela. Era o único lugar. Como diziam Truffaut e Godard, era o museu do cinema. A maioria deles não tinha feito o Idhec, nenhuma escola de cinema na época. Para eles, a verdadeira escola era a Cinemateca, onde descobriam os grandes filmes do cinema, os grandes clássicos, os grandes autores, as retrospectivas. Hoje, há muitos outros lugares em Paris e outras formas de descobrir os filmes.

Os jovens de hoje, quando entram numa escola de cinema, já viram os DVDs, viram os filmes na televisão, nas salas de cinema, mas no fundo têm uma cultura híbrida, impura. Muitas vezes viram alguns filmes de um cineasta, mas não toda a obra. Por isso, a Cinemateca tem que levar isso em conta e se adaptar à sua época, mesmo mantendo seu papel de preservação da memória. Quando a Cinemateca faz uma homenagem a um cineasta, ela faz uma mostra integral, tenta exibir toda a obra. Isso ainda é a especificidade da Cinemateca. Era o que Langlois gostava de fazer, mostrar tudo de Murnau, tudo de Griffith. E acho que isso é importante hoje para o público de rapazes e moças, porque há agora muitas moças no mundo da cinefilia, não é mais um território exclusivamente masculino.


Era um ambiente muito masculino na década de 50, não?

Toubiana: Sim, era muito masculino nos anos 50. Hoje está bem misto. E isso ocorre graças à universidade, ao fato que o cinema tenha se transformado em uma disciplina, entre aspas, ensinada na escola da mesma forma que a literatura.


Sobretudo nos cursos de comunicação?

Toubiana: Sim, mas também nos cursos de cinema. Na França, é muito importante. Muitas universidades criaram diplomas em cinema. A cinefilia também cresceu, dispersa em uma certa erudição, isto é, agora se aprende cinema. Nos anos 50, não se aprendia, descobria-se o cinema nas telas. A gente descobria, debatia, as pessoas falavam e sobretudo escreviam, porque eles eram críticos de cinema. Então, havia uma relação muito mais selvagem com o cinema, de descoberta, de trocas.

Os jovens dos “Cahiers du cinéma” debatiam entre eles, depois escreviam na revista, tomavam posições, criavam polêmica. Hoje, é um pouco diferente. Muitas pessoas estudam cinema. O vídeo mudou muito as coisas, porque hoje, quando você quer ver um filme, pode rever, pode parar a imagem. Isso transforma toda a relação com o cinema, o trabalho dos jornalistas mudou, o trabalho dos críticos também.

Acho que a Cinemateca deve se tornar novamente um lugar de referência, onde se pode ver a obra integral de certos cineastas que fazem parte da história do cinema ou que vão fazer parte dessa história ou que não sabem ainda que fazem parte dela. Eu estou escrevendo a Clint Eastwood, que conheço bem, e acho que ele faz parte da história do cinema. E acho que ele não pensa assim, pois, se pensasse, ficaria pouco à vontade para fazer seus filmes. Escrevi convidando-o para uma homenagem a ele, aqui na Cinemateca. Se ele estiver de acordo, vamos estudar as datas.


Sem a Cinemateca, a Nouvelle Vague teria existido?

Toubiana: Não. Impossível.


Os diretores da Nouvelle Vague são todos filhos da Cinemateca?

Toubiana: Totalmente. Isso é verdade para Truffaut, é verdade para todos. Conheço particularmente a obra de Truffaut, porque trabalhei muito sobre ele, fiz uma biografia dele, publicada em 1996 pela Gallimard e que, aliás, saiu no Brasil. Fui ao Rio para o lançamento do livro, em 1998. Foi a primeira tradução, a última que assinamos há pouco foi com a China. Mas, voltando a Truffaut, aos 16 anos ele se refugiou na Cinemateca. Para ele era como um refúgio, uma vida clandestina em relação à vida real, ele não tinha uma vida pessoal muito harmoniosa.

A Cinemateca era como uma vida paralela, um mundo em si. E isso foi fundamental e foi verdade para eles todos e creio que ainda é verdade para nós. O cinema, quando é vivido como uma paixão, uma obsessão, é uma maneira de viver, quase uma vida paralela, e para mim esta é a força do cinema, é o que nos leva a essa vida paralela.

Voltando à sua pergunta: a Nouvelle Vague não teria existido sem a Cinemateca e sem Langlois, que era para eles como o pai ou a mãe de leite. Era ele que trazia os filmes, era ele quem alimentava as fantasias deles com os filmes, os tesouros, as coisas pouco conhecidas.


Por que existe na França uma paixão pelo cinema que faz com que Paris seja a cidade do mundo que oferece o maior panorama de filmes aos cinéfilos?

Toubiana: Acho que Langlois tem um papel importante nisso. A força de Langlois foi seu amor pelo cinema ter sido imediatamente internacional. Ele não se limitou ao cinema francês. Viu o cinema como uma espécie de mundo sem fronteiras. Isso era verdade para Murnau, Griffith, os soviéticos e, evidentemente, para os cineastas franceses, os escandinavos dos anos 30. Imediatamente, estabeleceu-se uma visão universal, internacionalista.

Muitas vezes as pessoas dizem: “Vi um filme na Cinemateca, na época de Langlois, com legenda em croata, ou um filme japonês com legenda em albanês. Acho que isso faz parte da lenda da Cinemateca, mas acho que para Langlois, na época um pouco primitiva da Cinemateca, podia-se mostrar um filme mesmo sem legenda, porque a linguagem do cinema tinha uma tal força de persuasão, de deslumbramento, que mesmo não compreendendo a língua compreendia-se o filme.


Hoje seria difícil fazer isso...

Toubiana: Hoje não se pode mais fazer isso, as pessoas não suportariam. Na época, elas queriam descobrir o filme mesmo se a cópia não tivesse legenda. Mesmo se não se compreendessem a língua, eles teriam visto e descoberto o filme. Havia uma grande força do cinema.

É verdade que na França, desde os anos 20, esse gosto pelo cinema se tornou evidente através da crítica, das vanguardas, da Cinemateca, depois através da imprensa, dos “Cahiers du Cinéma”, das revistas históricas. Havia um amor pelo cinema na língua original, na versão original.

Por exemplo, na Itália ocorreu de modo diferente. A Itália viveu este mesmo período sem a versão original. Eles tinham sempre a versão dublada. Todos os cinéfilos italianos viram os mesmos filmes que nós, mas falados em italiano. Isso muda tudo. Hoje, quando há um filme americano que sai em Paris, Woody Allen por exemplo, há sempre mais cópias na versão original do que na versão dublada em francês.

Acho também que o Festival de Cannes teve um papel muito importante. Ele se tornou o maior festival porque tem essa mesma sensibilidade para a linha internacional e está afinado com a tradição que acho muito agradável na França de acolher os outros artistas. Isso continua verdade. A França é um país cheio de contrastes e tem muitos defeitos, mas isso continua sendo verdade: a idéia de que consideramos e acolhemos um escritor, um pintor ou um cineasta estrangeiro.

Eu me lembro que, quando eu trabalhava nos “Cahiers du Cinéma”, nos anos 80, começamos realmente a respeitar Clint Eastwood como um autor, como um verdadeiro cineasta e, na época, nos Estados Unidos, ele era considerado um ator de filmes violentos, e não um cineasta importante. Isso foi verdade também para Hitchcock. Nos anos 60, Truffaut foi encontrar Hitchcock e disse: “Quero fazer um livro de entrevistas com o senhor para explicar aos americanos, à crítica americana, o quanto ela não o compreende como um artista, um autor de filmes”. Ele era considerado como um simples cineasta de filmes de suspense.


Foram os franceses que fizeram este trabalho de descoberta e valorização da obra de muitos autores, não?

Toubiana: Essa tradição tem uma raiz ao mesmo tempo cultural, linguística e crítica. E acho que, entre tantos defeitos, é uma das qualidades da França. E, no Brasil, como em muitos outros países, isso foi retomado como um exemplo através da Nouvelle Vague, do Cinema Novo, das nouvelles vagues dos anos 60 na Itália, no Canadá, na Tchecoslováquia… Elas retomam essa tradição de independência, mas também de considerar o cinema como uma arte universal, e não apenas como pura expressão nacional.


Isso começou nos anos 50 e 60, com a política dos autores, as grandes entrevistas com cineastas, o reconhecimento dos diretores americanos que trabalhavam em estúdio e que não eram muito bem considerados nos Estados Unidos. E isso continuou e se transformou em uma referência para nós.


Quais foram os anos de ouro do cinema francês?

Toubiana: Foram os anos 60. Porque foram os anos de ouro para mim também. Foi a época de Godard, Truffaut e Jean Eustache, um cineasta magnífico, que fez poucos filmes e se suicidou no início dos anos 80. Foi um cineasta magnífico. Ele fez “La maman et la putain”, que causou um grande escândalo em Cannes, um filme formidável com Jean-Pierre Léaud e Bernadette Laffond.

Quando eu era jovem, nos anos 60, com 15 anos, a descoberta de “Pierrot le fou” (1965), de Godard, foi um cataclisma. De repente, não pude mais ver filmes como antes, passei a vê-los com outro olhar, graças a Godard. A mesma coisa ocorreu com os filmes de Truffaut, de Alain Resnais, de Chabrol, e mais tarde os filmes de Maurice Pialat. Para mim, os anos de ouro são esse período que corresponde à Nouvelle Vague, que é para mim a expressão da modernidade.


O escritor André Malraux, que foi ministro da Cultura, queria que a Cinemateca Francesa se tornasse “a Comédie Française do cinéma e uma das mais luxuosas do mundo”, se referindo ao teatro histórico de Paris. Ela se tornou?

Toubiana: Não, mas acho que vai se tornar.


Por que não é ainda?

Toubiana: Porque a história foi muito caótica depois da morte de Langlois, em 1977. As relações entre a Cinemateca, o próprio Langlois e Malraux ficaram muito difíceis. Em 1968, houve uma pequena revolução quando Langlois saiu, a pedido de Malraux, depois de terem sido próximos e terem tido uma grande cumplicidade durante os anos 50 e 60. Foi uma verdadeira ruptura.

O Estado, que subvenciona a Cinemateca, se distanciou um pouco dela, que continuou a passar por dificuldades durante os anos 80. Ela não tinha mais Langlois e não era capaz de se adaptar e se tornar uma instituição cultural moderna. E isso é o que estamos fazendo hoje, estabelecendo uma parceria com o Estado, que é insubstituível. Quando é o Estado que subvenciona, é preciso respeitar e usar bem o dinheiro para defender uma instituição como a Cinemateca.

1 - O Idhec (Instituto de altos estudos cinematográficos) era a principal escola francesa de cinema, fundada em 1943 pelo compositor Yves Baudrier. Desde 1998, a École nationale supérieure des métiers de l’image et du son (Fémis) sucedeu ao Idhec.

 
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