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cosmópolis

Seis dias no Afeganistão
Por Márcio Senne de Moraes

Desde a chegada ao aeroporto de Cabul, fica claro que o país ainda é uma zona de guerra

"Se, ao final do dia, ainda estiverem vivos, vocês serão vitoriosos. Se, ao cabo da semana que permanecerão aqui, não tiverem sido nem seqüestrados, vocês serão os grandes vencedores", com este discurso inequívoco, um membro dos serviços de segurança -e provavelmente de espionagem- de uma grande potência ocidental aconselhou o grupo de dez jornalistas estrangeiros a “tomar cuidado”.

Na realidade, todavia, Cabul é menos insegura do que aparenta ser nas raras imagens veiculadas pelas redes de TV ocidentais. É verdade que o oeste da cidade é uma "terra de ninguém", na definição de vários militares ocidentais consultados durante minha visita de seis dias ao Afeganistão. Um deles, que me pediu anonimato, disse que "nem as águias ousam ir até essa região".

De fato, "Kabul West", como indicam algumas placas no centro da cidade, é palco dos não tão incomuns seqüestros e assassinatos que ainda ocorrem na capital afegã. Em sua maioria, a razão dos crimes não é, porém, desconhecida dos brasileiros, sobretudo dos moradores de nossas grandes cidades: criminalidade comum para obter resgate. E, obviamente, não há melhor vítima do que um ocidental desavisado.

Por outro lado, na região central de Shahr-e-Naw, na qual se situam duas das mais movimentadas ruas comerciais de Cabul, a Chicken Street e a Flower Street (cujos nomes, em alusão às suas principais atividades comerciais no passado, são escritos em inglês e em dari -uma das línguas oficiais afegãs- nas placas), estrangeiros podem circular sem grandes problemas, apesar do assédio de crianças em busca de "US$ 1", e até fazer entrevistas -contanto que não abordem mulheres (de burca ou não), já que elas poderão "ter problemas em casa", de acordo com diplomatas ocidentais, se falarem com desconhecidos.

Também é verdade que, a uma distância segura, sempre parecia haver seguranças contratados para assegurar que "os jornalistas não teriam problemas". No entanto as corridas de táxi foram feitas sem proteção especial, embora os deslocamentos oficiais ocorressem a bordo de veículos blindados sem placas -"por razões de segurança"-, curiosamente os únicos a circular desse modo na capital afegã.

Desde a chegada ao pequeno e depauperado aeroporto da cidade, fica claro que o Afeganistão ainda é uma zona de guerra. Há incontáveis revistas, e o caminho em direção ao Ministério das Relações Exteriores afegão, onde jornalistas estrangeiros devem obrigatoriamente credenciar-se para poder trabalhar no país, é repleto de ruas bloqueadas e de postos de controle, nos quais ficam de prontidão atiradores e seu armamento pesado. Aliás, armas de grosso calibre são relativamente comuns num país que viveu mais de duas décadas de sangrentos conflitos desde a invasão soviética, ocorrida em 1979.

Além disso, também contribui para passar uma sensação de maior segurança aos visitantes as freqüentes patrulhas das forças da Otan, que comanda a Isaf (Força Internacional de Assistência à Segurança) desde 2003, muitas vezes acompanhadas de militares afegãos por elas treinados. A Isaf conta com mais de 10 mil homens e mulheres no Afeganistão, a maioria baseada em Cabul. Além deles, ainda há por volta de 20 mil militares da coalizão liderada pelos EUA, que atua sobretudo no sul e no oeste do país em busca de supostos terroristas. Estes, obviamente, consideram os militares estrangeiros "forças de ocupação" e inimigos contumazes.

Além de colaborar com a manutenção da segurança e de treinar militares e policiais afegãos, a Isaf coordena projetos de reconstrução, que são capitaneados por sua unidade de cooperação civil e militar. Esta trabalha em estreita colaboração com autoridades locais, contudo os resultados de seus esforços ainda não são facilmente perceptíveis para quem não conheceu o país no passado tal o grau de destruição ainda existente por toda parte. E vale lembrar que Cabul é a capital e, portanto, está em situação bem superior à do restante do Afeganistão.

Esses projetos são ainda mais necessários porque uma das razões de Cabul continuar sendo uma cidade perigosa é sua falta de infra-estrutura. Praticamente não há rede elétrica (cobre menos 5% do Afeganistão), o que compele os moradores a utilizar geradores a óleo diesel e acarreta um blecaute quase total após às 22h, tornando a cidade palco ideal para a ação de insurgentes -ex-membros do deposto Taleban ou combatentes islâmicos estrangeiros- ou, com mais freqüência, de criminosos comuns.

Ademais, o número de construções destruídas -total ou parcialmente- pelas mais de duas décadas de guerras (sobretudo pelo conflito civil que durou de 1992 a 1996), é imenso, o que propicia ótimos esconderijos para os extremistas, insurgentes ou criminosos comuns. E o esgoto a céu aberto agrava a sensação de desconforto e a insegurança sanitária. Aliás, a comida afegã também pode ser deveras rude com o estômago dos ocidentais.

Uma patrulha dentro de um carro blindado da Isaf é uma aventura altamente empoeirada num deserto climático e num inferno de veículos. Afinal, os motoristas afegãos, cujo direito de trafegar livremente era restrito no tempo do regime do Taleban (1996-2001), têm pouca noção -ou nenhuma- do que chamamos de "leis de trânsito". Pobres guardas de trânsito, de barriga proeminente, com sua plaquinhas vermelha e verde a tentar organizar a situação...

A temperatura na capital afegã no mês de agosto beira os 40º C, e a umidade relativa do ar é muito baixa, o que por si só já seria motivo de desconforto para visitantes estrangeiros. Entretanto o "passeio" de carro blindado agrava a sensação de desconforto, visto que a poeira levantada pelo veículo militar é sufocante. Isso obriga os "convidados" a portar uma espécie de grande lenço (keffieh) em torno do rosto para "filtrar" o ar que respira.

O objetivo das patrulhas é lógico: manter a segurança em Cabul e o controle sobre pontos estratégicos da cidade e de seus arredores. Conforme definiu o general italiano Claudio Graziano, comandante da Brigada Multinacional de Cabul (BMC), composta por 3.000 militares de 23 países da aliança militar ocidental e pertencente à Isaf, "o desafio é manter o equilíbrio entre assegurar a segurança da capital e ser amável com sua população, mostrando-lhe que estamos aqui para ajudá-la". Tarefa complexa num ambiente de condições naturais e de passado inóspitos.

A BMC é responsável pelo planejamento e pela condução de centenas de patrulhas cotidianas e por operações de colaboração civil e militar. Estas incluem, por exemplo, a construção de poços artesianos e de postos de saúde, a reforma de hospitais e de escolas e a edificação de dormitórios para estudantes do sexo feminino, sem os quais seus familiares não permitem que elas estudem em cidades maiores. Mas ainda resta muito a fazer para transformar Cabul num lugar razoavelmente habitável para os padrões internacionais.

É preciso frisar que a situação de segurança em Cabul é "bastante razoável", como dizem militares ocidentais, se comparada com a de cidades meridionais -situadas perto da fronteira com o Paquistão, onde se encontram parte dos membros do Taleban e da Al Qaeda que ainda permanecem na região-, como Candahar, na Província de mesmo nome, e Qualat, na de Zabul. Locais nos quais, diga-se de passagem, a presença de forças estrangeiras é nitidamente menos bem-vista do que na capital.

Nas duas patrulhas das quais participei, o que os soldados mais fizeram foi cumprimentar as crianças e os idosos que, em sua maioria, os saudavam efusivamente e, como na maior parte da cidade, pediam algo, como água ("bem precioso"), canetas ou algum dinheiro. Somente entre 5% e 10% das reações observadas durante as patrulhas foram negativas, o que, como também foi observado em entrevistas conduzidas no centro da capital, denota que os cabulis parecem estar cansados de conflitos e de derramamento de sangue e aceitam a presença estrangeira pacificamente ao menos por ora.

Com isso, o cotidiano dos soldados estrangeiros em Cabul tem momentos de enfado. Uma prova disso se produziu numa das montanhas mais elevadas da cidade. Quando a patrulha estrangeira chegou a seu topo, dois militares tinham acabado de comprar pequenos escorpiões de meninos afegãos e se preparavam para realizar um "duelo" dentro de uma caixa. "É mais legal quando conseguimos adquirir uma aranha, pois fazemos uma batalha entre espécies diferentes", admitiu um deles, que pediu anonimato -talvez envergonhado por conta de seu passatempo, que, porém, mostra que, apesar de serem soldados numa zona de guerra, eles não deixam de ser "pessoas comuns".

Quando o dia de trabalho acaba, a situação dos militares estrangeiros melhora, já que eles dispõem dos serviços oferecidos em suas bases, como acesso a internet, a quadras de vôlei e a campos de futebol -um paraíso perto da dureza das condições de vida dos cabulis. Além disso, os militares dos países da Otan, exceto dos EUA, têm direito a duas latas de cerveja diariamente, "muito bem-vindas em dias de temperatura elevadíssima", segundo alguns. Para os americanos, porém, vigora a lei seca.

Não se trata aqui de defender a presença militar estrangeira no Afeganistão nem de condená-la. Após uma breve visita ao país, é imprescindível, todavia, constatar que a situação afegã é completamente diferente da iraquiana, que o país terá mais de 25% de seu Legislativo composto por mulheres -que sofriam graves restrições sob o regime do Taleban- no futuro próximo, que o progresso dos esforços de reconstrução é lento, mas palpável, e que, sem as forças internacionais -que apóiam o governo do presidente Hamid Karzai-, haveria grandes chances de os afegãos se colocarem, mais uma vez, uns contra os outros, abrindo caminho para mais derramamento de sangue inocente.

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Márcio Senne de Moraes
É pós-graduado em ciência política com especialização em relações internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris e trabalha no caderno "Mundo" da "Folha de S. Paulo".

1 - O jornalista visitou o Afeganistão, de 20 a 26 de agosto de 2005, a convite do governo dos Estados Unidos.

 
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