CIÊNCIA
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política
DISCURSO

A crise e Max Weber
Por Haroldo Ceravolo Sereza

O PT ouviu tanto FHC que acreditou poder ser o partido da ética da responsabilidade

Poucos textos foram tão apropriados pelo discurso político quanto "A Política como Vocação", de Max Weber. No papel de Platão tropical (certa vez Fernando Henrique Cardoso invocou o filósofo grego para definir Silvio Santos, retribuo), o ex-presidente da República foi apurando as falas durante sua gestão em busca da suposta "essência" dos conceitos de ética das responsabilidades e de ética das convicções (ou fins absolutos, ou finalidades últimas ou qualquer outra tradução do alemão utilizada), adaptando-os moderadamente de acordo com suas necessidades momentâneas.

FHC martelou em seus discursos improvisados (muitos deles sem pé nem cabeça, diga-se, porque ele não é bom orador) e também nos preparados de antemão (aí, melhores) que seguia a ética da responsabilidade e que a ética das convicções estava em segundo plano durante seu governo. Ou seja, que a sua preocupação final era com os resultados da ação política, e não com um projeto de um mundo ideal ou revolucionário.

Mas FHC, como político, não podia ter o mesmo papel de Weber, que, no pós-Primeira Guerra Mundial, pediu que os seus compatriotas olhassem para a política pensando no desastre que tinham produzido para o país e advogando um equilíbrio entre as duas éticas depois de bater muito na das convicções.

Na fórmula weberiana, as duas éticas não são contrastes absolutos, "mas antes suplementos, que só em uníssono constituem um homem genuíno -um homem que pode ter a ‘vocação para a política’" (usamos o texto traduzido do inglês, presente na edição dos "Ensaios de Sociologia", de Weber, que tiveram revisão técnica de Fernando Henrique Cardoso).

Como o Brasil não é uma sala de aula de sociologia, no discurso de FHC, as coisas foram ficando cada vez mais simples, ao longo dos oito anos de mandato. E, portanto, mais distantes do original e de seu contexto. O fato é que, no espaço do discurso político, ao colocar-se no campo da ética da responsabilidade, FHC deixou para seus opositores a outra ética possível, a da convicção.

Não parecia ser esse seu objetivo principal. Parece-me que a grande o problema de FHC era encontrar o que se convencionou agora chamar de "blindagem" para as denúncias inevitáveis de corrupção num governo que se aliara com o PFL, o PTB, o PPB (hoje PP) e, no segundo mandato, o PMDB, mas que tinha um projeto que julgava ser necessário levar adiante.

O PT até tentou, já na eleição de 1994, construir um caminho devedor da ética da responsabilidade, mas, quando se é governo e se quer isso, fica muito mais fácil "provar" a responsabilidade. Para a oposição, falta a prova da verdade, do concreto.

As cassações de deputados que venderam votos a favor da reeleição, mais do que ser uma marca indelével da corrupção no período, foram, de certo modo, "positivas" para FHC, porque mostraram quão longe poderia ir a tarefa "responsável" de manter o país em cabeças guiadas pela "ética da responsabilidade", importando-se menos com os meios e mais com os resultados de sua ação.

O PT, sem o poder central, na cabeça do eleitor típico brasileiro, razoavelmente bem informado, mas pouco lido e pouco apto a perceber mudanças políticas de fundo, ficou o substrato weberiano deixado por FHC, o de que o PT e Lula representavam a ética das convicções.

Para o PT, foi confortável. Em algum momento, seria natural o desgaste de tanta "responsabilidade". E porque esse discurso dual colocava definitivamente o partido no centro do debate político, cada vez mais dividido entre PSDB e PT.

A lenta "expulsão" de Paulo Maluf (PP) do jogo eleitoral no Estado e na cidade de São Paulo foi apenas um preâmbulo de quem poderia dar as cartas na política brasileira. E, como o eleitor naturalmente tem períodos mais "responsáveis" e períodos de maior "convicção", parecia certo que chegaria a vez do PT, mesmo que o próprio PT já estivesse mais preocupado em construir seu próprio caminho de responsabilidade (a "Carta ao Povo Brasileiro", na verdade uma carta ao setor financeiro, podia ser entendida assim pelo eleitor, que, no entanto, preferiu acreditar na fantasia de uma ética outra).

Em "A Política como Vocação", descrevendo organizações partidárias, Weber tenta mostrar, por exemplo, que a democracia, naturalmente, tende a criar a figura de políticos profissionais fora do parlamento, que tomam as mãos da organização e tendem a administrar os partidos como empresários (Delúbio Soares e Silvio Pereira enquadram-se nessa categoria).

Weber também passa por questões como distribuição de cargos e gastos de campanha, tomando por base os sistemas políticos de Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, mas que, muitas vezes, podem ser perfeitamente adaptados ao que estamos acompanhando nas CPIs.

Uma das coisas mais curiosas desse processo é que FHC conseguiu transformar o que era uma análise num programa, numa ideologia. E o seu maior sucesso é realmente impressionante: convenceu o grande adversário, o PT, a tomar "A Política como Vocação" não como um exercício de compreensão da realidade, mas de produção da mesma.

O melhor indício desse "convencimento" é que o PT, no único slogan que não parece ter saído da prancheta de Duda Mendonça, foi buscar em "A Política como Vocação" a fonte de inspiração. Escreve Weber: "A obediência é determinada pelos motivos bastante fortes do medo e esperança". Pensa o PT: "A esperança venceu o medo".

O PT meteu-se sozinho, sem a ajuda de ninguém, numa crise que pode explodir o partido. Em grande parte, porque seguiu "A Política como Vocação" como programa: seus dirigentes intelectuais e, ao mesmo tempo, profissionais, planejaram e montaram um partido aparentemente imbatível, que somaria as características mais pragmáticas de todos os partidos e situações analisadas por Weber.

O eleitorado, por fim, entendeu que o PT mudou e que não é mais o partido da ética das convicções. É um amadurecimento e, pelo menos, pode-se dizer que o brasileiro sai dessa eleição menos ingênuo.

O PT também pode amadurecer, é questão de esperar. Mas, para isso, vai precisar voltar a ler muito Marx. Não apenas para reforçar suas convicções, mas, principalmente, para esquecer por algum tempo essa leitura torta de Weber que FHC lhe ensinou.

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Haroldo Ceravolo Sereza
É jornalista e trabalha no UOL.

 
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