2

Rodrigues: Em “O infame comércio” eu estava preocupado em debater, com outros historiadores, a política imperial e a maneira como o tráfico foi recuperado por parlamentares da época e inserido no processo da Abolição. Isso foi feito de forma esquemática, construindo-se uma suposta gradualidade que eu não conseguia enxergar quando isolava a Lei Eusébio de Queirós (1850) das outras leis “emancipacionistas” (Ventre Livre, 1871; Sexagenários, 1885; Lei Áurea, 1888).

O primeiro livro problematiza também a versão de que a pressão inglesa teria determinando o fim do tráfico. Penso que história e determinismo não combinam, são excludentes. Se houvesse um determinismo tão direto, não precisaríamos estudar as filigranas de processos históricos complexos, bastaria aplicar certas fórmulas e pronto.

Enfim, como no trabalho anterior eu já havia “pago minha dívida” para com a historiografia brasileira, em “De costa a costa” não me pareceu mais necessário discutir paradigmas. Senti-me mais à vontade e mais maduro como pesquisador para apresentar uma nova interpretação, calcada na visão escrava e africana do tráfico e também na experiência cotidiana dos intermediários que participavam de alguma fase do processo.


Seu trabalho supera o modismo da década de 1990, em que os “estudos culturais” es estavam mais próximos da interpretação literária do que da história social, que, aliás, chegou a ser declarada como ultrapassada. Qual a história social que você procura realizar?

Rodrigues: Quem decretou a morte da história social não estava bem... Ela deu e continua a dar as explicações mais importantes para pensarmos relações de trabalho. Veja os estudos sobre o movimento operário brasileiro, por exemplo, que, se inspirando na história social inglesa, deram frutos importantíssimos. Quanto aos historiadores da escravidão -inclusive os da década de 1990 -, romperam com determinações e ortodoxias esquemáticas e trouxeram à tona os sujeitos históricos que estavam submersos em macroestruturas.

Por mais que vivamos em um tempo no qual o “mercado” parece ser tão onipresente, é problemático que historiadores se permitam voltar ao esquema das estruturas determinantes, contra as quais nada podemos fazer. A história social que procuro realizar é a inspirada em Thompson, mas também bebe nas fontes de Genovese, Rediker, Darnton e Zemon Davis. Sem falar no diálogo com uma certa antropologia, que esses autores realizam com competência. O fundamental, no entanto, não é isso; esses historiadores nos ensinam que a pesquisa tem que ser bem fundamentada e ampla. Não há teoria que resista à preguiça. A melhor historiografia construiu teoria e pesquisa ao mesmo tempo.


Existem pesquisas na África similares ou complementares à sua?

Rodrigues: A verdade é que conhecemos pouco os historiadores africanos e seus trabalhos. O intercâmbio com as universidades africanas não é priorizado pelas universidades brasileiras, certamente porque as relações de poder na universidade apontam para outros caminhos. Mas há historiadores preocupados com as questões que dizem respeito àquelas sociedades, e gostaria de mencionar Boubacar Barry, do Senegal, e Elisée Soumoni, do Benin.

Não que sejam autores de trabalhos similares ou complementares ao meu, mas exemplificam a pujança da historiografia africana e o desafio de trabalhar com a história em sociedades nas quais a transmissão do conhecimento se dá oralmente. Os dois autores que citei estão entre os raros pesquisadores africanos aos quais o leitor brasileiro pode ter acesso por meio de traduções. Temos muito o que aprender com eles e deveríamos disponibilizar mais pesquisas africanas em língua portuguesa.

.

O livro:

“De costa a costa - Escravos, marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1789 – 1860)”, de Jaime Rodrigues. Companhia das Letras. 420 págs. R$ 53.

.

Ilana Goldstein
É mestre em antropologia social na USP e em mediação cultural na Sorbonne, autora de "O Brasil - Best Seller de Jorge Amado" (ed. Senac).

 
2