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dossiê
MEMÓRIA DA ESCRAVIDÃO

A rede social do tráfico negreiro
Por Ilana Goldstein


Gravura do século 19 representa africano vendendo os próprios pais
Reprodução

No livro “De costa a costa”, o historiador Jaime Rodrigues aborda os africanos como sujeitos históricos e não como meras vítimas passivas do comércio de escravos

O tráfico negreiro era uma atividade complexa, que envolvia uma vasta rede de intermediários. Estruturava-se sobre dois pilares: a lógica do lucro e a profissionalização. Se não fosse para enriquecer, poucos teriam se envolvido numa viagem tão arriscada, cheia de imponderáveis: rebeliões, epidemias, mortes, piratas e tempestades. Para garantir o sucesso da empreitada, as tripulações precisavam se especializar, percorrendo as mesmas rotas ao longo dos anos e desenvolvendo estratégias de defesa.

Esse é o tão curioso, quanto sombrio universo que o historiador Jaime Rodrigues reconstrói em detalhes, no recém-lançado “De costa a costa - Escravos, marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1789 – 1860)”. Doutor em história social pela Unicamp (Universidade de Campinas) e professor de história da África contemporânea na PUC-SP, Jaime Rodrigues tem outras publicações sobre o tema, como “O infame comércio: propostas e experiências no final do tráfico de africanos para o Brasil (1800-1850)”.

Em “De costa a costa”, que examina o tráfico de escravos sob novos ângulos, o autor se debruça sobre relatos de viajantes a bordo dos navios, processos contra embarcações apreendidas, mapeamentos da potencialidade comercial das colônias, queixas de colonos e cartas dos governadores locais às autoridades centrais. Aliás, trata-se da primeira análise brasileira da correspondência entre as autoridades de Angola e a Corte lisboeta, assim como é inédita a utilização dos relatos de viajantes estrangeiros para conhecer a vida no mar e as travessias do oceano -até hoje, tais relatos só haviam sido utilizados para tratar de aspectos urbanos e rurais do Brasil novecentista.

O livro é fruto de cinco anos de trabalho e de uma boa dose de coragem, persistência e imaginação, pois os documentos encontram-se dispersos por três continentes, em arquivos tão desorganizados que, muitas vezes, não disponibilizam inventários, nem catálogos. Trópico conversou com Jaime Rodrigues sobre o cotidiano a bordo de um navio negreiro, as experiências concretas das pessoas envolvidas no tráfico e sua abordagem histórica particular, que valoriza o ponto de vista dos africanos.

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“De costa a costa” se propõe a considerar os africanos como sujeitos históricos e não meras vítimas passivas. Quais as implicações diretas desta postura na confecção do livro?

Jaime Rodrigues: A implicação mais direta é que o tráfico deixa de ser visto apenas como negócio, em que importa contabilizar “mercadorias” humanas, ganhos financeiros e o vai-e-vem dos navios. Se encaramos os africanos como sujeitos históricos, o tráfico ganha a dimensão de uma rede de relações sociais.

Para abordar o tráfico do ponto de vista africano, baseei-me em narrativas de escravos que passaram por essa experiência, em especial na autobiografia de Mahomah Bacquaqua, publicada em inglês, em 1853. Ele conta da captura no lugar onde vivia (África ocidental), do percurso entre o interior e o litoral, da espera no porto de embarque, do impacto que foi ver gente branca pela primeira vez, das agruras da travessia, das possibilidades de revolta a bordo e da alegria ao chegar em terra firme.

Essa seqüência acabou virando meu roteiro de elaboração do livro. Tomei, no entanto, o cuidado de procurar pistas que possibilitassem ampliar uma experiência pessoal para o conjunto dos africanos que vieram dos portos angolanos para o Rio de Janeiro. Um pouco de imaginação, verossimilhança e recursos narrativos também não fazem mal a ninguém... Muitos historiadores se valem disso tudo em seu trabalho, entre eles Carlo Ginzburg, que trabalha com as “possibilidades” prováveis da história.


Como atribuir papel ativo às sociedades africanas dos séculos XVIII e XIX no processo de captura e comercialização de escravos, sem acabar atribuindo a elas grande parte da responsabilidade pelos horrores do tráfico e da servidão?

Rodrigues: Agindo com cautela. A escravidão não era algo estranho às sociedades africanas. Na escravidão tradicional, baseada no sistema de linhagem ou parentesco, o cativo não era uma mercadoria e sua condição era geralmente transitória. Além disso, mulheres e crianças eram as mais visadas. O trabalho forçado na África pré-colonial não se destinava a gerar riquezas, nem excedentes para exportação, mas agregava prestígio e poder ao senhor -proporcionais ao número de dependentes que ele podia sustentar.

Se houve mudanças na escravidão de linhagem e se muitos soberanos africanos passaram a utilizar a guerra para, ao vencer o inimigo, criar um contingente de escravos para exportação, isso se deveu à intervenção européia. Para defender seus interesses comerciais, os europeus não hesitaram em fomentar divergências étnicas no continente africano e em introduzir armas de fogo e pólvora nas guerras tradicionais. Europeus não são sempre vilões, nem africanos sempre vítimas, mas atribuir aos africanos a responsabilidade pela destruição de suas próprias sociedades é um erro de foco.


Por que não foram mais freqüentes os movimentos de resistência e rebelião ao tráfico negreiro por parte dos africanos? Houve mesmo poucos casos ou apenas não se têm registro deles?

Rodrigues: Penso que esses movimentos foram mais freqüentes do que os registros nos informam. Tenho uma hipótese, que discuto no livro, de que quando uma revolta de escravos era bem-sucedida, ou seja, quando os amotinados conseguiam tomar o comando do navio, não necessariamente conseguiam chegar a algum porto, morrendo possivelmente no mar (de fome, em virtude de naufrágios ou calmarias). Afinal, a maioria dos homens e mulheres feitos cativos não eram marinheiros: podiam ser bons guerreiros e, mesmo em desvantagem em relação às armas, poderiam até vencer uma tripulação pequena. Mas não tinham como conhecer técnicas de navegação.


Como era um dia típico na vida a bordo de um navio negreiro?

Rodrigues: Em primeiro lugar, envolvia muito trabalho e precisão no desempenho das tarefas. Um erro no manejo dos equipamentos podia colocar tudo a perder. Uma vela rasgada ou um leme partido punham em risco a vida de todos. Também ocorriam rebeliões, virando o cotidiano de ponta-cabeça. E as calmarias, apesar de serem motivo de tensão, davam espaço para festas e bebedeiras, em rituais pagãos em que um marinheiro fantasiado de Netuno fazia brincadeiras -algumas violentas- com os tripulantes, não poupando nem os oficiais, que eram ofendidos com palavras de baixo calão.

Sem mencionar que às vezes faltava comida, surgiam epidemias, inundações nas dispensas e manifestações de desprezo pelos odiados cozinheiros dos navios. Portanto, é difícil pensar num dia típico. Um dia típico seria, talvez, um dia sem nenhum desses eventos. Os diários náuticos nos dão uma idéia do que ia pela cabeça dos marinheiros quando eles se permitiam registrar algo além da longitude e da latitude: anotavam que o tempo estava “bonançoso”, que sentiam saudades de suas esposas amadas, que queriam se vingar de alguém ou ainda que iriam mandar rezar uma missa se superassem a tempestade.


Os navios negreiros eram universos multiculturais. Quais as nacionalidades mais freqüentes entre os comerciantes? Como funcionava a comunicação entre as pessoas?

Rodrigues: Pensando no universo das tripulações, que foi o meu objeto de análise, os portugueses eram a maioria. Em seguida, vinham os marinheiros africanos, de diferentes etnias (da África ocidental e de Angola, principalmente). Depois, os “brasileiros” de várias capitanias. Quanto à comunicação entre universos culturais tão diversos, minha hipótese é que uns aprendiam rudimentos da língua dos outros, criando uma espécie de “pidgin” ou língua franca do tráfico.

Isso era possível devido aos meses de convivência no litoral africano e nas longas idas e vindas pelo Atlântico. Às vezes se valiam de intérpretes que conheciam a língua específica de um determinado carregamento de escravos. Funcionava, também, a “linguagem da disciplina”: mesmo sem saber o significado das palavras, entendemos o que significa um homem com um chicote, um instrumento cortante ou um fuzil nas mãos esbravejando em nossa direção.


Falando de comunicação, uma das revelações surpreendentes do livro é o fato de que já se ensinava português aos africanos antes de embarcarem, para camuflar sua “feição boçal”. Poderia comentar um pouco este aspecto?

Rodrigues: Esse era um estratagema dos traficantes. Depois de 1831, quando o tráfico para o Brasil foi proibido pela primeira vez, uma das provas cabais de que um navio trazia africanos de contrabando era o fato de ninguém no porão falar português. O ensino de rudimentos da língua portuguesa era uma tentativa de driblar a investigação judicial, fazendo os africanos parecerem “ladinos” (conhecedores do idioma português vindos de uma capitania do Brasil para outra, modalidade de comércio permitida). Dificilmente a artimanha dava certo, mas os traficantes eram incansáveis em criar novidades.


Você dedica várias páginas à tipologia das embarcações. Poderia mencionar uma inovação técnica nos navios que tenha tido impacto no tráfico de escravos da África para o Brasil?

Rodrigues: O tamanho dos navios. Quando a repressão ao tráfico ficou mais intensa (a partir de 1840), muitos traficantes optaram por transportar os africanos em navios menores, mais ágeis e fáceis de manobrar, facilitando a fuga das patrulhas inglesas e brasileiras. A agilidade e o menor peso diminuíram o tempo das viagens, mas o impacto disso foi relativo: os africanos sofriam menos numa viagem mais curta, mas os traficantes aumentavam a lotação dos navios e, talvez, mais gente tenha adoecido ou passado fome em função disso.


Por que os conhecimentos da medicina tradicional não eram utilizados a bordo? Quais eram as principais doenças e como eram curadas?

Rodrigues: A medicina tradicional não era muito utilizada a bordo porque quem detinha esse conhecimento não estava disposto a correr os riscos de viagens como essas. Mas penso que o conhecimento médico europeu, rudimentar na época, não seria mesmo capaz de salvar muitas vidas. Por outro lado, algumas culturas africanas eram sofisticadas no trato das doenças. O conhecimento médico não era separado por elas dos rituais religiosos, o que nos permite pensar como culturas diferentes encaram a doença e a saúde.

As doenças mais comuns nos navios eram cólera, escorbuto e varíola, além de uma infinidade de distúrbios gastro-intestinais e verminoses. Para tudo, os doutores europeus -quando havia- aplicavam os mesmos métodos de cura: sangrias e vomitórios. Higiene, do jeito que concebemos hoje, não existia. A noção de microorganismo era impensável. Para o escorbuto, embora a medicina ensinada na Europa não reconhecesse a eficácia, os marinheiros usavam suco de limão e laranja e legumes frescos, receita que aprenderam no contato com navegadores árabes e indianos.


Como se sentia e o que pensava um africano recém-chegado ao mercado de Valongo, no Rio de Janeiro?

Rodrigues: Suponho que sentisse uma fadiga tremenda. Estava faminto, doente, abatido, desnutrido e sem esperança. Alcançar a terra, porém -e estou usando um pouco de imaginação- era motivo de festa. Inicialmente, um dos capítulos do meu livro chamava-se “Festa na chegada”, mas acabei optando pelo genérico “O mercado do Valongo”. Menciono a palavra “festa” porque havia motivo para isso: segundo as crenças de muitas civilizações da África central e ocidental, os brancos eram canibais que iam buscar carne de negros para abastecer seus mercados de filé.

Ora, se você acredita nisso e, ao final de um mês ou mais de viagem em péssimas condições, você sobrevive e constata que não será transformado em filé, pode ter vontade de cantar e dançar. Pois era isso que viajantes estrangeiros presenciavam, perplexos, no mercado de Valongo: música, dança e alegria. O encontro com outros homens e mulheres que tiveram experiências similares e viviam havia anos no Brasil revelava a possibilidade de sobrevivência, mesmo que na escravidão. Portanto, o mercado do Valongo, apesar das adversidades, representava a vitória sobre a morte e o início de uma nova vida.


Seu livro anterior (“O infame comércio”., de 2000) e o que você acaba de lançar têm, em comum, o tema do tráfico negreiro. Qual a relação entre os dois? Trata-se agora de uma verticalização ou de um novo enfoque sobre o mesmo fenômeno?

 
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