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Depois de contar que reatou contato com Ferrari por receber mensagens de mail art do argentino, Lagnado perguntou a ele sobre a “força revolucionária” da internet. De acordo com o artista, “se um meio, não importa qual, serve para dizer com arte uma forma e um discurso novo, se pode servir como veículo para uma idéia que quero transmitir, eu vou usá-lo. Uso uma técnica ou um suporte tratando sempre de renovar a linguagem. Porque penso que as velhas coisas -a fome, por exemplo, que é uma coisa tão velha- pode ser expressa numa forma nova e chegar com mais eficácia ao público”.
A entrevistadora trouxe à pauta as plantas heliográficas de arquitetura ou com cenas urbanas que representam parte significativa da produção de Ferrari no Brasil, ao longo da década de 1980, dizendo que os trabalhos são como “uma previsão do mundo globalizado”. “Essas imagens têm uma ironia afiada, antes mesmo do termo ‘globalização’”, emendou Lagnado, com mais duas perguntas: se o artista continua a pensar “o assunto das grandes cidades” em plantas heliográficas e se “é possível constituir blocos políticos contrários aos Estados Unidos”. “Com respeito às heliografias, eu não as continuo fazendo. Agora, o problema do Mercosul e da Europa... Eu acho que, para fazer frente aos EUA, teria que haver um bloco do hemisfério sul. Porque Europa tem lá suas diferenças com os Estados Unidos, mas tem muitas coisas afins. Grande parte da riqueza produzida pelo sul vai para o norte, e aí há um desequilíbrio difícil de reverter”, disse Ferrari no encontro, realizado em junho. Depois, foi a vez de o público presente ao debate fazer perguntas. A primeira questão veio de Leonora Amarante, que pediu a Ferrari para avaliar o compromisso político da arte recente na Argentina: “Como é hoje a participação político dos artistas argentino, 40 anos depois de uma geração muito politizada como a sua e da qual você é um ícone?”. Na resposta, Ferrari afirmou que “essa linha de arte política na Argentina continua, como muitos anos atrás”. Mencionou os “escraches” (escrachos), quando artistas se juntam a membros de movimentos sociais, para promover ações e protestos diante da residência de um colaborador da ditadura militar argentina. Citou também o trabalho de grupos de artistas como o Etcetera, o Arte Callejero, dedicado a interferências visuais em Buenos Aires, e o Escombros, “que tem um braço de forte militância política”. O discurso foi uma “deixa” para que surgisse a pergunta, vinda da platéia: “Por que você não gosta do termo ‘arte política’?” Para responder, Ferrari fez mais uma menção à igreja católica: “Política é uma coisa que procura o poder. ‘Arte política’ em geral critica, ataca o poder. Embora a maior expressão de ‘arte política’ tenha apoiado o poder. Refiro-me à arte religiosa que apoiou e ajudou a igreja a alcançar o poder que ela tem. Os maiores artistas, os que mais admiramos, foram a força publicitária da igreja. A Capela Sistina (com afrescos de Michelangelo) é uma mobilização publicitária maravilhosa, que conseguiu milhões de crentes durante 2000 anos. Ninguém, nem o Macdonald’s nem a Coca-Cola, podem chegar aos pés das instituições que organizaram essa extraordinária campanha publicitária”. Um “amém” às palavras do artista tomou o auditório na forma de aplausos. . José Augusto Ribeiro |