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TRÓPICO NA PINACOTECA
A arte política de León Ferrari Saiba como foi o evento que reuniu o artista argentino e as críticas Lisette Lagnado e Aracy Amaral A edição do “Trópico na Pinacoteca” com e sobre León Ferrari foi atípica. No lugar de um debate, como costuma ser o evento mensal realizado por esta revista eletrônica e pela Pinacoteca do Estado, foi realizada uma entrevista com o artista plástico argentino, de 84 anos. As questões foram inicialmente colocadas pelos participantes da mesa e, em seguida, pelo público que lotou o auditório do museu paulista. Estavam presentes à mesa a crítica de arte Lisette Lagnado, curadora da Bienal de São Paulo e co-editora de Trópico, e a historiadora da arte Aracy Amaral, responsável pela apresentação do artista. “Embora seja um artista plástico, um escritor de erudição extraordinária, León sempre foi um agitador cultural. É um homem, hoje, com mais de 80 anos e que continua sendo um mobilizador de jovens. Aqui, em São Paulo, entre os anos 1970 e 1980, ele se articulava com artistas novos e experimentais, com pessoas que tinham uma especulação profunda a ser feita”, disse a historiadora. Entre os artistas mencionados por estabelecerem contato com Ferrari no Brasil, Aracy Amaral destacou Julio Plaza, Regina Silveira e Donato Ferreira que, junto com o curador e historiador da arte Walter Zanini, coordenavam o Centro de Estudos e Artes Visuais Aster. O espaço manteve atividades na zona oeste de São Paulo, entre 1978 e 1981, dedicado a pesquisas com gravura. Neste período, abrigou mostras como “Aster expõe artes” (1980) e “Gerox - Exposição de gravura em xerox” (1979), esta com curadoria de León Ferrari e xerografias de Rafael França e Carmela Gross, entre outros artistas. Na primeira parte do encontro, Ferrari passou em revista sua trajetória, numa fala combinada com projeção de imagens em telão. O percurso começou na segunda metade da década de 1950, com fotografias de seu ateliê em Roma, onde começou a trabalhar esculturas figurativas em cerâmica. O panorama chegou até o começo deste ano, quando se encerrou a sua exposição retrospectiva no Centro Cultural da Recoleta, em Buenos Aires, após uma série de contratempos que envolveu desde a suspensão da mostra pelo poder jurídico da Argentina até a quebra de obras por manifestantes católicos, furiosos com o que consideraram “vilipendioso a imagens sagradas”.
De volta a Buenos Aires, cidade natal, depois de uma temporada na Europa, León Ferrari concebeu suas primeiras esculturas abstratas em 1960. São peças feitas com arame de aço inoxidável, formadas por “linhas” soldadas umas às outras, que se emendam e se cruzam, geralmente em estruturas verticais, mas sempre a partir de uma organização geométrica cuja luminosidade torna difuso o rigor construtivo. Dentre esses “desenhos aéreos”, consta “Gagárin”, de 1961, tributo ao cosmonauta russo Yuri Gagárin, o primeiro homem a orbitar a Terra. No ano seguinte, em 1962, Ferrari dá início a uma série de manuscritos com nanquim sobre papel, em que os traços da caligrafia são desenho e escritura a um só tempo. Para o artista, os manuscritos marcam a primeira experiência do processo de “politização do conteúdo” em sua produção. “Eu comecei, em Milão, a fazer desenhos que eram escritos, ou desenhos que continham textos. Fiz, nesta época, as primeiras coisas com um caráter político, que eu chamei de ‘Cartas a um general’. Eram escrituras com letras deformadas, em que eu falava coisas que agora não posso compreender. E não sei se o general as compreendia ou se eu fazia desta forma para que os generais não pudessem compreender o que eu pensava deles”, contou o artista, arrancando gargalhadas do auditório. Nos comentários, Ferrari distinguia os próprios trabalhos entre os que “têm” e os que “não têm mensagem”. Num grupo, estariam as peças figurativas dotadas de um discurso “direto” contra agentes do circuito de artes visuais, contra a igreja, contra fatos políticos etc. No outro grupo, ficariam os projetos de arte abstrata, em que prevalece a pesquisa “formalista”, nos termos do artista, preocupada com o que ele chama de “evolução das formas”. Como se forma e conteúdo fossem dissociáveis... “No fim de 1964, o crítico de arte Romero Brest, que tinha um prêmio num salão (promovido pelo Instituto Torcuato Di Tella) todos os anos, convidou-me a participar da edição do ano seguinte, pensando que eu faria essas esculturas de arame. Mas a Guerra do Vietnã começou a fazer-se mais dura, com mais bombardeios, mais mortes, mais torturas... Então, eu mudei completamente. Deixei de fazer arte abstrata, sem mensagem direta, e comecei a fazer arte política, embora não goste muito dessa definição”, explicou. Para o salão do instituto Di Tella de 1965, Ferrari propôs o objeto “Civilização ocidental e cristã”, em que uma imagem de Jesus Cristo aparece crucificada nas asas de um bombardeiro norte-americano. “Romero Brest ficou pálido quando viu a peça, e disse que eu não poderia apresentá-la porque o pessoal religioso poderia protestar. Por causa disso, a peça ficou guardada durante muito tempo num depósito. Depois a recuperei e comecei a expô-la”, contou o artista.
No final dos anos 1960, León Ferrari participou do projeto coletivo de artistas “Tucumán arde”, composto também por Graciela Carnevale, Roberto Jacoby, Martha Greiner e Norberto Puzzolo, entre outros. O grupo é visto pela historiografia latino-americana como um dos precursores da arte conceitual no continente. Isso por tomar o trabalho de arte como um processo, realizá-lo longe do circuito de exibição e mostrá-lo, depois, em forma de documentos e registros, dentro e fora dos museus e galerias. O projeto “Tucumán arde” foi pensado como um ciclo de três fases: primeiro, estabelecer contato com lideranças políticas e organizações culturais nas províncias de Tucumán e de Santa Fé, no interior da Argentina; segundo, documentar as regiões por meio de entrevistas com a população, filmes e fotos de plantações de cana-de-açúcar, fábricas abandonadas, hospitais etc.; e, por fim, realizar exposições nas cidades de Rosário e Buenos Aires, em espaços consagrados à arte, mas também em sindicatos. “Na Argentina, havia, na década de 1960, uma tradição muito forte de arte política feita por coletivos. Fizemos com o “Tucumán arde” uma mostra (“Homenaje a latinoamérica”) dedicada a Che Guevara, em 1967. Fizemos uma outra mostra em 1968, na Sociedade Argentina de Artistas Plásticos, também em homenagem a Che. Depois, em 1968, fizemos uma mostra chamada ‘1ª Bienal de Arte de Vanguarda’, e a idéia era usar a arte para fazer política. Tínhamos uma grande confiança em que a arte podia fazer muito politicamente, mas essa mostra foi censurada e, por isso, fizemos uma outra exposição em Rosário. Esta também não teve êxito político, mas é considerada de grande importância para a história da arte argentina por ser uma das primeiras manifestações do ‘conceitualismo’”, disse Ferrari, já adotando a expressão “arte política”, antes maldita. O artista se encarregou de colocar o problema à mesa: “É possível fazer política com a arte ou não? Há quem pense que arte não tem nada a ver com política e outros pensam que sim. Eu pensava que seria muito difícil ligar as duas coisas hoje em dia, mas depois do que aconteceu na retrospectiva que fiz na Recoleta, estou certo de que isso é possível. Com a ajuda da igreja, com a igreja como diretora de publicidade, a arte pode ser politicamente muito eficaz”, brincou, sem considerar que o pilar das manifestações contrárias a sua exposição era um assunto religioso, e não político -embora as duas esferas ainda mantenham ligações perigosas. Salman Rushdie (“Os versos satânicos”), Dan Brown (“O código Da Vinci”), Andrés Serrano (“Piss Christ”) e Mel Gibson (“A paixão de Cristo”) também enfrentaram protestos recentes pela autoria de obras que causaram furor entre representantes da igreja, não só católica. E, mal comparando, as peças de Ferrari e de tantos outros artistas que se dirigem contra o poder militar, político e econômico norte-americano não são capazes sequer de incomodar Washington. Essa impotência nada tem a ver com qualidade, mas é, sem dúvida, uma das questões candentes da arte contemporânea. Ou, quem sabe, Karlheinz Stockhausen esteja certo ao dizer que a última “obra de arte” a promover verdadeiro estrago político foi a série de ataques aos Estados Unidos em 11 de Setembro de 2001.
Para fugir da onda de repressão instaurada pela ditadura militar argentina (1976-1983), León Ferrari se auto-exila em 1976 em São Paulo, onde retoma as esculturas de aço abstratas. Em paralelo, desenvolve experiências com técnicas e suportes variados, desde o xerox até o videotexto, passando pela arte postal, pelas microfichas, pelos livros de artista, pela heliografia, pelo uso da letra-set, pelas instalações sonoras etc. Depois de mostrar e comentar alguns dos trabalhos realizados em seu “período brasileiro”, Ferrari descreveu alguns dos contratempos em foi enredado por causa de sua retrospectiva no Centro Cultural Recoleta. Em resumo, a exposição que reunia cerca de 400 obras, produzidas entre 1954 e 2004, mobilizou grupos contrários e favoráveis à obra de Ferrari. Primeiro, um grupo de católicos invadiu a instituição e destruiu 10 das peças em exposição. Um mês depois de inaugurada, a mostra foi censurada por “blasfêmia” e fechada por decisão judicial. A medida gerou manifestações -inclusive virtuais, pela internet-, lideradas por intelectuais e artistas, até que a exposição foi reaberta 10 dias depois. “Antes de começar a mostra, o pároco da igreja vizinha à Recoleta foi ao espaço expositivo e, depois, conversou com o cardeal Jorge Bergolio, o arcebispo de Buenos Aires. Os dois começaram uma campanha contra a mostra, pedindo um dia de oração. Até que os católicos começaram a quebrar algumas obras. Tudo isso parecia ser uma campanha publicitária minha, para que o pessoal se interessasse pela exposição. Uma mostra que possivelmente teria visitação de duas ou três mil pessoas, acabou recebendo 70, 80 mil. Além disso, era muito estranho que a igreja se preocupasse com um dia de oração por mim, e não por todos seus pobres”, comentou Ferrari. A curadora da 27ª Bienal de São Paulo, Lisette Lagnado, deu início, em seguida, à entrevista “aberta” com o artista. A primeira pergunta: “Como você consegue explicar a possibilidade de a arte, ainda hoje, depois da dissolução das categorias estéticas, conseguir incomodar um segmento da sociedade? Isso é um alento, para mim, saber da possibilidade de a arte realmente incomodar”. Para Ferrari, a arte incomoda “por causa de um conteúdo sexual, por exemplo”: “Quando a gente mostra ou mostrava o que chamam de pornografia na arte, isto incomodava e ainda incomoda. A arte também incomoda quando revoluciona as formas: quando começou o dadá, a arte abstrata ou quando do retorno da figuração... Essas mudanças na arte provocam reações. Com essa exposição na Recoleta, muita gente falou de coisas que não estão em pauta o tempo todo. Além da liberdade de expressão, da liberdade do artista, falou-se das intolerâncias do Ocidente, do anti-semitismo, da discriminação da mulher, da proibição dos preservativos pela Igreja... Enfim, muitos temas que estão desvinculados da religião”. Lagnado deu continuidade ao tema e lembrou a acusação de “incentivo à pedofilia” contra a série de desenhos eróticos de Nelson Leirner, feitos com caneta hidrográfica preta sobre fotografias de bebês e crianças de Anne Guedes, expostas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1998. “No seu caso, assim como no de Leirner, há o erotismo e a igreja na base dos escândalos”, comparou, antes de lançar a seguinte questão: “Eu também não consigo deixar de refazer, agora em tom formal, a pergunta que a Aracy faz em um texto sobre seu trabalho: como teria sido sua produção, caso você tivesse optado por ficar no Brasil e não tivesse regressado a Buenos Aires? Queria saber se você concorda que o entorno sócio-político foi determinante para a passagem de obras de cunho mais espaciais, mais aéreas, para obras declaradamente mais políticas, contra a repressão do Estado militar”. A resposta de Ferrari: “Eu fiz política, ou arte política, um pouco antes de vir ao Brasil. Aqui, em São Paulo, eu fiquei muitos anos sem fazer arte com intenção crítica. Só em 1985 eu fiz pela primeira vez, no MAM, uma peça contra o juízo final. Era uma instalação com pombas presas em uma gaiola, que faziam uma cruz de excrementos sobre uma reprodução da obra ‘Juízo Final’ de Michelangelo”. |