1
cosmópolis
FUTEBOL

Na TV com Maradona
Por Denise Mota

Ex-jogador estréia programa na Argentina; analistas falam sobre a força do mito de “El Diez”

Como tudo em sua vida, a volta de Diego Armando Maradona à superfície é extravagante, barulhenta e acompanhada, como uma novela, por toda a Argentina. Depois do atoleiro de drogas, problemas familiares e profissionais, agravamentos de saúde e internações sucessivas que inundaram de controvérsia e espanto a meteórica carreira do ex-jogador de futebol, “El Diez” estreará como apresentador de televisão no dia 15 de agosto.

“A idéia é divertir as pessoas e reunir amigos para que falem de suas coisas”, explicou o ex-jogador a respeito de “La Noche del 10 (Siempre Vuelve)”, que irá ao ar todas as segunda feiras, às 22h. O programa também será conduzido pelo ex-goleiro Sergio Goycochea, 42 anos, e consistirá em jogos, “surpresas” e conversas com convidados, que vão ainda jogar com Maradona. A ex-mulher de Maradona, Claudia Villafañe, e suas filhas Dalma e Giannina participam da produção do programa, que será exibido pelo Canal 13, a segunda emissora mais vista do país-

Vinte e sete quilos mais magro, cabelos negríssimos, terno prateado com nuanças furta-cor e orelhas cintilando pequenos brincos de brilhantes, Maradona, 44 anos, fez o mais detalhado anúncio de sua nova empreitada no programa de sua amiga e apresentadora Susana Giménez, o mesmo lugar onde, tempos atrás, ele confessou para toda a Argentina as agruras da superação do vício em cocaína.

O principal convidado da estréia de “La Noche del 10” será Pelé, desafeto clássico de Maradona, contra quem o argentino chegou a dizer, nos dias de incontáveis dribles, que não gostaria de dividir uma partida, “caso morresse e fosse possível jogar futebol no céu”. Os primeiros programas de Maradona deverão ter também outras estrelas dos esportes, como o campeão de Fórmula 1 Michael Schumacher e os jogadores Ronaldinho, Ronaldo e Roberto Carlos. A apresentadora Xuxa -que talvez volte a apresentar um programa infantil na Argentina e está no país no momento para lançar seu CD “Xuxa Solamente para Bajitos”- também estaria entre as celebridades a saudar o “Pelusa” em sua nova fase na TV, mas acabou aceitando o convite de Marcelo Tinelli, um dos apresentadores mais populares da Argentina, para participar de seu “Show Match” (canal 9), programa líder de audiência no horário, justamente o mesmo em que chega o programa de Maradona.

Definido no início do ano como “um palhaço obeso e exibicionista” pelo respeitado diário esportivo “L’Equipe” -numa vasta reportagem que tentava refletir por que um homem “da estatura de Mozart e Nietzsche” entrara numa fase de vida patética, entremeada por relações fraternas com figuras como Menem e Fidel Castro, e fora dominado por um turbilhão de excessos até a crise cardíaco-respiratória que o levou à beira da morte em abril de 2004-, Maradona é ao mesmo tempo a imagem que continua a ser erguida com orgulho pelos milhares de fãs.

Mesmo a Igreja Maradoniana já teria recebido convite para participar do programa, segundo informa Julián Chavero, um dos representantes da instituição em Mar del Plata. Trata-se de uma espécie de fã-clube de pendor religioso criado em 2001 em Rosário (a 310 km de Buenos Aires) pelos jornalistas esportivos Hernán Amez e Alejandro Verón, que já se reuniu em oração seus “fiéis” nos tempos difíceis de internação do ex-jogador e agora os conclama para saudar a volta do ídolo. Estima-se que tenha atualmente 30 mil filiados, inclusive em Buenos Aires e Madri.

A chegada “del Diego” à televisão (e ao cinema, se for concretizado o projeto do diretor Marco Risi de contar a vida do ex-capitão da seleção argentina) não é só a parte mais visível da recuperação de um ícone. De ascendência italiana e indígena, ousado, polêmico, com a língua afiada e pés outrora ligeiros, o ex-jogador simboliza a própria Argentina, na visão de alguns autores que se dedicam a refletir sobre o papel do jogador nessa sociedade. Eis por que “La Noche del 10” é hoje o programa mais esperado do país.

“A melhor definição sobre Maradona e a Argentina deu uma vez o escritor Osvaldo Soriano: ‘Maradona é a pátria de calção’. Diego representa no imaginário a grandeza sempre presumida na Argentina e as misérias que muitas vezes padecemos e que desejamos que sejam perdoadas pelos outros. Maradona ofereceu alegrias e ofensas em diferentes momentos e pediu clemência em outros. Os argentinos, às vezes nos amamos e às vezes nos detestamos, sofremos. Ninguém como Maradona concentrou tantos sentimentos numa só ‘garrafa’”, diz a Trópico o escritor Marcelo Gantman, autor do recentemente lançado “Diego Dijo” (Diego disse), pela ed. Distal, livro em que compilou, ao lado do jornalista Andrés Burgo, mil frases ditas pelo ou sobre o ex-atleta.

Maradona é mito, para Gantman, “porque jogou futebol como ninguém e porque quase todo o mundo pôde vê-lo ao mesmo tempo, a partir do auge dos esportes televisionados”. Além disso, simbolizou o enfrentamento aos poderosos, desde o seu primeiro clube, o modesto Argentinos Juniors, e depois com a própria seleção argentina, que ainda não tinha consolidada sua condição de potência futebolística, e fundamentalmente jogando pelo Nápoli, o time que venceu os gigantes do norte da Itália. “É mito porque ele mesmo alimenta sua lenda quando dá declarações ou quando se encontra com grandes nomes do futebol de hoje, como Ronaldo”, afirma.

Para o escritor, estamos assistindo a uma nova etapa na vida de Maradona. “Desde as melhoras evidentes de saúde no começo deste ano, o jogador vem encontrando um respaldo muito grande em todo o mundo, graças a uma atitude menos conflituosa. Como apresentador, pode ser que chegue a se reinventar e que leve seu mito a uma altura até hoje desconhecida. Mas um risco é que sua figura, institucionalizada, possa não ter o mesmo impacto que suas aparições ocasionais e implacáveis”, pondera Gantman, que agora prepara um livro sobre o papel do esporte, especialmente o futebol, na vida popular.

O sociólogo Pablo Alabarces é menos otimista sobre a carreira televisiva de Maradona: sua força diluirá, a TV reduzirá o já combalido interesse pelo ex-jogador. “O que se vê não é uma reinvenção, e sim uma tentativa de reutilização mercantil do mito (tentativa a que o mito se presta com gosto, por razões também mercantis). E é provável que, submetido à lógica efêmera da mercadoria dos meios, o mito Maradona se dilua ainda mais”, observa. E explica: “Se minha hipótese é que Maradona funciona como mito do passado, da memória, o fato de que apareça todas as semanas na televisão pode contribuir para sua saturação. Estará demasiadamente presente para um mito histórico”. Alabarces é titular da cátedra Seminário de Cultura Popular na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires e autor de “Fútbol y Patria - El Fútbol y las Narrativas de la Nación en la Argentina” (ed. Prometeolibros). Tem uma série de trabalhos sobre Maradona e o papel do futebol como instrumento político, social e cultural para a construção da identidade argentina.

No artigo “Santa Maradona, Ascenso y Caida de un Mito Futbolístico” (São Maradona, ascensão e queda de um mito futebolístico), publicado recentemente, o sociólogo discute de que forma o ex-jogador configurou-se num símbolo flexível da “pátria”, fonte para usos moldáveis a diversas situações e objetivos. Enumera e discorre sobre as peças fundamentais sobre as quais se construiu o mito: “A qualidade esportiva excepcional, a condição heróica, as origens, o contexto global de atuação, o novo papel dos meios de comunicação, centrais e que focalizaram o jogador quando viviam um momento de expansão ininterrupta, os fluxos e refluxos de ascensão e queda do atleta, e também as condições exógenas políticas de produção do mito, que encontraram em Maradona um herói ‘à disposição’ para que, em determinado momento da história argentina, tais elementos se encarnassem nele... e somente nele”.

Nascido num entorno pobre, a origem humilde acentuou a “narrativa heróica” da qual foi protagonista, segundo analisa Alabarces. “Maradona não se afasta do clássico épico esportivo da ascensão social, antes o leva à sua máxima síntese: é o ‘pibe’ (garoto) de (Villa) Fiorito e, ao mesmo tempo -ou como ponto culminante-, chega a ser o nome mais conhecido do mundo.”

A intimidade com a bola, os lances tão brincalhões quanto desafiadores, a superação de vários obstáculos só fez aumentar o alcance da vitória de Maradona, entendido a princípio como redentor para seu país e depois mundialmente reconhecido e idolatrado, definitivamente após ser protagonista do futebol-espetáculo planetariamente televisionado da Copa do México de 86, da qual a Argentina saiu campeã invicta.

Depois dos primeiros escândalos com drogas, o ídolo, prossegue Alabarces, assume mais uma faceta, “a da vítima que se rebela contra o poder”, setor difusamente definido por ele e que teria articulado um complô para fazê-lo cair. Entre os anos 80 e 90 se investirá cada vez mais do papel de “porta-voz autorizado dos deslocados”, como descreve o professor, citando texto da revista “La Maga” que classificara o então jogador como “um Perón” e “uma Evita dos anos 90”, um “descamisado de Versace”.

Com as sucessivas evidências de doping e as conseqüentes suspensões, vem a “morte simbólica da relação entre o ídolo e a pátria”, segundo o sociólogo. “Maradona representava com desenvoltura a nação enquanto jogava na Europa e vestia a camisa argentina. Quando desceu ao mundo regional, a camisa do Boca Juniors ancorou uma localização exacerbada”, escreve. “Daí que minha interpretação gire em torno das distâncias do símbolo quando é colocado em relação ao global e ao local: a carga simbólica nacionalista associada a Maradona se ampliou no circuito global e se diluiu no contexto local.”

A televisão posicionará Maradona mais ainda nesse terreno excessivamente doméstico, algo que acabará por destruir a inalcançabilidade necessária para que a adoração se mantenha, de acordo com Alabarces. “Sua anulação como produtor de novos épicos implicou também que o novo lugar de Maradona é um espaço meramente indicativo: assinala o passado, significa aquilo que poderia ter sido, aponta para o momento em que seu nome podia ser símbolo. Congelado como símbolo, fica reduzido à memória.”

.

Denise Mota
É jornalista. Vive em Montevidéu.

 
1