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novo mundo
CINEMA

"Sin city": contra
Por Juliana Monachesi


Cena do filme "Sin city"
Divulgação

Filme é uma aposta no pior na cultura de massas: as relações de consumo e a descartabilidade

Assemblage, apropriação, readymade, remix, sampleagem e ecologia midiática são termos que se confundem no âmbito da crítica de novas mídias. Enquanto os dois primeiros pertencem ao horizonte do discurso pós-moderno, e se referem a uma mudança na ordem da significação -o que antes tinha um significado é tomado por um segundo sistema de significação e ganha um outro sentido-, os três últimos termos implicam numa reafirmação de significados.

A arbitrariedade da prática do readymade dialoga melhor com as obras da “chance art” (ou arte do acaso, em tradução livre), segundo a definição de Remko Scha, do que com obras que se utilizam do remix ou da sampleagem.

O readymade consiste em simples transposição de um objeto qualquer de um sistema de significação para outro. A relação possível entre estas duas práticas é a do empréstimo: cada qual toma de outros universos o material que servirá de base à produção de uma nova obra. O remix pressupõe uma escolha e uma filtragem, uma astúcia ao estabelecer relações segundo uma lógica de cultura de rede.

Neste sentido, “Kill Bill” e “Sin city”, apesar de parecerem partilhar das mesmas preocupações estéticas, se diferenciam. Se do primeiro filme, de Quentin Tarrantino, se pode dizer que se inscreve neste horizonte de “criação desautorizada”, que é o da cultura do remix ou da ecologia midiática, sobre o filme de Frank Miller-Roberto Rodriguez-Tarantino não se pode afirmar o mesmo. O que há de desautorizado em “Sin city”? A interface cultural com que a obra dialoga é a da cultura da apropriação e da citação. Trata-se, quando muito, de um readymade retificado.

“Sin city” não trabalha com refugos culturais e sim com uma obra autoral, tendo sido sua adaptação não apenas avalizada pelo autor dos quadrinhos como co-assinada pelo próprio. É na medida em que reforça criação e leitura pós-modernas que o filme aponta para certa estagnação cultural, inclusive pelo uso comercial que faz da lógica da remediação, entendida como “repurposing”. Em sentido estrito, qualquer adaptação para o cinema de uma HQ é um produto de ecologia midiática.

Mas, no caso de “Sin city”, trata-se de uma ecologia midiática entendida como “repurposing”, termo comum no campo do jornalismo on-line, que significa uma transposição ligeiramente modificada de matéria de jornal ou TV para o meio digital. “O entendimento pela indústria do entretenimento da remediação como ‘repurposing’ revela a inseparabilidade do aspecto econômico em relação ao social e material. A indústria do entretenimento define ‘repurposing’ como despejar um conteúdo familiar em uma outra forma de mídia”, afirmam Bolter e Grusin em seu “Remediation” (MIT Press, 1999).

A idéia é que, espalhando determinado conteúdo pelo maior número possível de mercados, mobilizam-se todos os sentidos dos consumidores, que -depois de assistir a um filme do Batman, por exemplo- vão procurar brinquedos, trilha sonora e demais produtos promocionais da série. “Cada uma destas formas toma parte de seu significado dos outros produtos em um processo de remediação honorífica, e ao mesmo tempo reivindica tacitamente estar oferecendo uma experiência que as demais formas não podem oferecer”, concluem os autores.

A aposta de um “Kill Bill” é na consolidação da interface como espuma porque seu pressuposto é o do compartilhamento de um banco de dados universal, de agenciamento entre estes dados e o repertório do público, de diluição de autoria. “Sin city”, por outro lado, é uma aposta estéril na velha interface como membrana, na linha divisória muito clara entre produto cultural e usuário. É uma aposta na cultura de massas naquilo que tem de pior: as relações de consumo e a descartabilidade.

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Juliana Monachesi
É jornalista, especializada em artes visuais e faz pós-graduação em Comunicação e Semiótica na PUC-SP. Foi curadora de "afotodissolvida" (2004), entre outras exposições. É colaboradora do jornal "Folha de S. Paulo".

 
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