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novo mundo
CINEMA

A favor de "Sin city"
Por Malu Tavares


Cena do filme "Sin city"
Divulgação

Na era do digital e da interface, filme de Roberto Rodriguez e Frank Miller é um banquete sampleado

”Sin city” é um filme que vem dividindo a opinião tanto do público, quanto da crítica, e recebendo declarações de amor e ódio ao redor do mundo. Assassinato, prostituição, traição, estupro, castração, mutilação, decapitação e muitos outros temperos violentos foram mesclados a uma certa dose de humor negro e servidos como um prato, hora quente, hora frio, mas, sobretudo, apimentado, para o espectador.

Na culinária de “Sin city” há de tudo: filmes-noir da década de 40, expressionismo alemão, novelas policiais americanas, “pulp fiction”, os quadrinhos de Frank Miller, claro, e uma câmera tremida no prólogo que indica que o filme bebe também na fonte da cultura trash.

Nesse banquete sampleado, não podemos deixar de mencionar os games com seus heróis-bandidos, que morrem apenas quando querem. Na Cidade do Pecado, os destemidos personagens são baleados, atropelados, eletrocutados e, após sangrarem branco, lançam mão de uma vida extra e continuam as missões de salvamento de suas mocinhas, prostitutas muito pouco indefesas.

No meio de todo esse remix, o que mais seduz no filme é a maneira absolutamente fiel com que Robert Rodriguez transpõe para a tela os cultuados quadrinhos de Frank Miller. É nesse ponto que as críticas positivas e negativas concordam. O filme é um primor técnico.

Há quem acredite estar de diante de uma revolução cinematográfica, da reinvenção do filme-noir. Outros reconhecem o esmero com que a transposição dos quadrinhos para o cinema foi realizada, mas consideram a narrativa -leia-se, aqui, condução da história- uma mera repetição de “Pulp fiction” e criticam o filme exatamente pelas razões que os primeiros o amam: seu tecnicismo exacerbado, um cinema feito por máquinas, captado digitalmente com atores contracenando numa sala verde. Um cinema pouco pensado, ou apenas tecnicamente pensado.

Para além, ou talvez seja melhor dizer, para aquém das opiniões de que o filme é bom ou ruim, se revoluciona ou não a história do cinema, uma reflexão me parece anterior. “Sin city” é mesmo cinema?

Levanto essa questão porque, apesar das imagens em movimento e da exibição em tela grande, os elementos narrativos do cinema me parecem menos importantes que os dos quadrinhos. Cinematograficamente temos um filme dividido em quatro episódios, quatro histórias que se desenrolam numa mesma noite e que têm como ponto de convergência um bordel na Cidade Proibida.

Lá trabalha Nancy (Jessica Alba), uma mulher estonteante que, no segundo prólogo do filme, ambientado oito anos antes da cena que relaciona os quatro episódios, é seqüestrada e salva por Hartigan (Bruce Willis), o policial que leva a culpa pelo crime. No dia em que o Hartigan sai da cadeia, ele procura Nancy, agora com 19 anos e trabalhando no bordel. Lá ele acaba cruzando com heróis dos outros episódios da trama: Marv (Mickey Rourke) e Dwight (Clive Owen) e o filme segue para o fim.

Qualquer semelhança com “Pulp fiction” -narrativas entrelaçadas que se desenrolam no espaço de um dia e são construídas em episódios que se encontram em um momento determinado da trama- não é mera coincidência. Rodriguez e Miller incorporam no roteiro de “Sin city” uma fórmula de sucesso já testada e legitimada por Tarantino, diretor convidado do filme, explicitando seu caráter de remix.

A grande preocupação de ambos era libertar os quadrinhos do papel e usar os quadros, nesse caso, os “frames” do cinema digital, para colocar movimento dentro das molduras dos HQS, ou para tirar os HQS da moldura da página. Nesse contexto, surgem as perguntas: será que “Sin city”, ao invés de cinema, é HQ em movimento? Isso existe?

No filme, para cada seqüência dramática, Rodriguez e Miller recorrem não só à estética dos quadrinhos, mas também à organização da informação dentro das páginas e aos cortes rápidos que dão a impressão de que folhas estão sendo viradas diante dos olhos do leitor/espectador.

Para obter tal efeito, foi necessário um trabalho meticuloso usando como “storyboard” os desenhos originais de Miller. Foram eles que determinaram a posição dos atores e o jogo de luz, sombra e volume construído em cada cena.

Outro recurso narrativo que nos levaria a crer que “Sin city”, o filme, é quadrinhos em movimento, e não cinema, é a presença do narrador. O herói de cada um dos quatro episódios, como acontece no alto da página dos quadrinhos impressos, sempre enuncia a história sob seu ponto de vista. No restante da página, e no filme, nas cenas posteriores da seqüência, diálogos curtos e certeiros que parecem extraídos dos balões dos quadrinhos conduzem o espectador na trama.

Porém, apesar de todas essas características, não é possível afirmar que “Sin city” seja HQ em movimento. Quadrinhos flutuantes cujas páginas são viradas automaticamente numa grande tela não existem no universo dos gibis. Para que os personagens e cenários de Miller pudessem ser libertados do livro, pudessem deixar o suporte do papel para serem transpostos para o cinema, tiveram de sofrer um processo de reconfiguração e se transformar em pixels, perdendo sua identidade primeira.

“Sin city” foi inteiramente processado por computador e gravado com câmeras digitais de alta definição, sem que nem um centímetro de celulóide sequer tenha sido utilizado no processo. Além disso, a virtualidade é um recurso sempre presente na feitura do filme. Nos estúdios de “Sin city”, os únicos elementos reais, além dos atores, eram as armas e os carros. Tudo mais já nasceu algoritmo.

Olhando sob essa ótica, talvez estejamos próximos de encontrar uma resposta para a questão que enuncia este artigo. Que tipo de obra é “Sin city”? Aqui, voltamos ao início para concluir que as críticas que consideram as questões técnicas como de menor importância e o remix, uma solução preguiçosa, talvez estejam procurando em “Sin City” uma cinematografia que o filme definitivamente não tem.

Se partirmos da hipótese de que a imagem digital traz consigo o fenômeno do “original de segunda mão” e de que o paradigma desse tipo de criação cultural é o da reciclagem em que as interfaces vão mimetizando, agregando e recompondo os atributos uma das outras, podemos dizer que “Sin city” oferece a mesa ideal para se servir um banquete sampler.

Como afirmou Lev Manovich (“The langage of new media”, MIT Press, 2000), a partir dos anos 1990, com a popularização da internet, a mídia digital deixou de ser uma tecnologia específica para se tornar um filtro cultural, uma forma através da qual todos os tipos de produção cultural e artística estão sendo mediadas.

Toda a cultura, passada ou futura, está sendo filtrada pelo computador, pela interface homem-computador. Olhando por esse ponto de vista, tendo a acreditar que “Sin city” é uma interface que armazena elementos remixados das mais variadas mídias, tornando-os disponíveis para serem acessados pela memória do espectador segundo suas referências e seu repertório. Assim, dependendo do direcionamento do olhar e do repertório do espectador, um sistema prepondera sobre outro, numa constante alternância.

Convém citar Vladimir Propp (1928-1970), teórico russo que estudou a narrativa dos contos maravilhosos e afirmou, muito apropriadamente, que “as premissas básicas dos autores freqüentemente são produto da época em que viveram. Também nossa época elabora suas premissas, que devem servir de base ao estudo crítico dos fenômenos culturais”.

Colocando o filme em perspectiva e olhando para ele como um fenômeno cultural de nosso tempo, o que Robert Rodriguez e Frank Miller fizeram em “Sin city” não foi uma revolução, mas sim um filme conectado com o nosso tempo. O tempo da cultura digital, do remix, da cópia original, do clonável, enfim, o tempo da interface.

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Malu Tavares
É roteirista de vídeo e produtos multimídia. Faz pós-gradução em Comunicação e Semiótica na PUC-SP.

 
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