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dossiê
CINEMA E SOCIEDADE

Samuel Fuller, entre o bem e o mal
Por Fernando Masini


Lee Marvin em "Agonia e Glória", de Samuel Fuller
Reprodução

Saem em DVD no Brasil “O beijo amargo” e “Agonia e glória”, duas obras fundamentais do diretor americano

Pouco se viu e muito se falou sobre os filmes de Samuel Fuller. Georges Sadoul, o célebre historiador de cinema francês, depreciou-o a ponto de insinuar uma possível colaboração de Fuller com a política de caça aos comunistas liderada pelo senador republicano Joseph McCarthy. Em carta aos diretores de redação da revista “Cahiers du Cinema”, em setembro de 1955, Sadoul mostrou-se indignado: “Samuel Fuller é o McCarthy do cinema. Além do papel eminente que teve na caça às bruxas, tornou-se realizador, depois de 1950, de uma série de filmes exclusivamente consagrados à Guerra da Coréia e à cruzada antivermelha”.

O tiro exasperado de Sadoul contra Fuller obteve, no entanto, efeito contrário. Poucos anos depois, a trupe de jovens críticos da mesma revista, encabeçada por François Truffaut, revelou ao mundo do cinema o talento indiscutível e bastante peculiar de Samuel Fuller.

Durante as décadas de 50 e 60, Fuller dirigiu 17 filmes e criou uma estética própria na esteira de proeminentes diretores do pós-guerra nos EUA. Junto a grandes nomes, como Elia Kazan e Robert Aldrich, desmascarou a aparente harmonia da sociedade americana e revelou com suas lentes os becos mais sórdidos das grandes cidades.

Olhou para os rejeitados de forma meticulosa e buscou desconstruir a noção de herói e vilão facilmente delineados que dominava o cinema clássico. Por buscar a complexidade de cada personagem e distanciar-se de arquétipos, como fez com o batedor de carteiras Skip McCoy, em “Anjo do mal” (“Pickup on South Street”), de 1953, muitas vezes Fuller foi equivocadamente julgado. Na tentativa menos dispendiosa de entendê-lo, foi tachado de reacionário, fascista, primitivo e xenófobo.

Em artigo para a revista “MovieMaker”, Rus Thompson escreveu que o tema favorito de Fuller sempre foi “borrar a linha existente entre os homens bons e os homens maus” e que “normalmente ele encontrava mais integridade nas aspirações do homem ordinário”. Assim como seus personagens são concebidos sob a sombra de emoções arrebatadoras e atitudes aparentemente imorais, a iluminação e o cenário obedecem também a essa desordem estrutural repleta de ambigüidade e mistério.

Apesar de se esquivar de rótulos, o cinema de Samuel Fuller, especialmente dos anos 50 e 60, flerta diretamente com o gênero “noir”, cujo surgimento aconteceu em 1941, com o filme “O falcão maltês”, de John Huston. Ao menos cinco filmes do diretor podem ser assim classificados: “Pickup on South Street” (1953), “House of bamboo” (1955), “The crimson kimono” (1959), “Underworld USA” (1961) e “The naked kiss” (1965). Este último foi lançado recentemente em DVD, pela distribuidora Aurora, com o título de “O beijo amargo”.

Desde sua estréia em longa-metragem, com o filme “I shot Jesse James”, de 1949, até sua última obra, “Uma rua sem volta” (1989), disponível em vídeo, Sam Fuller dirigiu um total de 22 filmes para cinema e outros projetos para televisão. Passou dez anos sem filmar, até 1980, quando retornou à ativa com o filme “Agonia e glória” (“The Big Red One”), lançado em DVD no país neste mês, numa edição reconstruída -o disco extra traz entrevistas e um documentário sobre a vida e a obra do cineasta.

Ajudado pelo amigo e fã incondicional Peter Bogdanovich a capitanear fundos para seu novo e ambicioso projeto, Fuller pôde enfim trazer a luz uma obsessão que lhe atormentava há 30 anos: filmar as experiências que havia vivido como soldado durante a Segunda Guerra Mundial. Fuller fez parte do 16º regimento da 1ª Divisão de Infantaria e participou de campanhas militares na Sicília, França e no Norte da África.

O ator Lee Marvin interpreta, no filme, um sargento que, junto com outros combatentes -os “quatro cavaleiros”-, formam o pelotão que vai lutar na costa argelina contra as tropas alemãs e desembarcar na Normandia, no episódio que ficou conhecido como Dia D. John Wayne havia sido cotado para o papel de sargento, mas foi descartado por Fuller. “Eu queria fazer um filme sobre um cara que se mistura com os outros, não um herói. Eu queria um homem cansado, macilento, ossudo”, justificou. Nesta versão lançada no Brasil pela Warner houve acréscimo de cenas que estavam guardadas no estúdio. Uma delas mostra o perambular de um cinegrafista amador, interpretado pelo próprio Fuller, em meio a soldados extenuados após uma batalha.

“Agonia e glória” não foi o seu primeiro filme de guerra -antes filmara “The steel helmet” (1951), “Fixed bayonets” (1951), “Hell and high water” (1954) e “China gate” (1957)-, mas é certamente o melhor deles. Do total de três horas e meia originais e pretendidas por Fuller, havia restado, na primeira versão de 1980, duas horas enxugadas a mando do produtor. O trabalho de reconstrução da nova versão, exibida em Cannes numa sessão especial no ano passado, levou em conta o roteiro original escrito por Fuller e a opinião de parentes e amigos próximos do diretor.

Além de filmes de guerra e dramas suburbanos, Fuller dirigiu também westerns, como “Renegando o meu sangue” (“Run of the arrow”), de 1957, sobre um soldado sulista confederado que se refugia na terra dos índios Sioux após o fim da Guerra Civil nos EUA, e “Quando os homens são maus” (“The meanest men in the West”), este último originalmente parte de uma série televisiva de que foram alinhavados dois episódios.

Nos anos 80, já no fim de sua carreira, tratou da questão racial em “Cão branco” (1981), a história de um animal treinado para atacar vítimas negras, e “Uma rua sem volta” (1989). Independentemente do gênero em que embarcava, Fuller deixou à sua maneira um legado indelével, recheado de personagens cujo vigor de sobrevivência a qualquer custo incomodou os observadores mais antiquados. “Fuller adorava as sombras do filme ‘noir’, a selvageria do Oeste, o caos da batalha”, escreveu Rus Thompson.


A “estética do tablóide”

“O poder da câmera é como uma fonte em negrito” (Samuel Fuller)

Sam Fuller sempre falava orgulhoso do tempo em que saía em busca de histórias envolvendo criminosos para estampá-las nos jornais sensacionalistas da época. Foi repórter policial desde os 17 anos, no “San Diego Sun”. Na década de 30, começou a escrever “pulp fiction” e colaborou com roteiros de filmes B para diversos diretores.

Como ele mesmo admite, viveu intensamente este período e aproveitou cada reportagem que fez para, mais tarde, recriar o seu mundo no cinema. “Meu amor era a linha onde aparece o autor da matéria. Foi a maior emoção que tive na vida”, disse o diretor. Revendo seus filmes, principalmente sua produção entre 1950 e 1964, nota-se uma simbiose expressiva da sua carreira jornalística e de seu trabalho como cineasta -desde os personagens marginais retratados em seus filmes até a forma como narra cada história, como se fosse a leitura de manchetes bombásticas.

O crítico de cinema e editor da “Literary Magazine Review”, Grant Tracey, discorreu sobre o estilo de filmar de Fuller, identificando-o como a “estética do tablóide”. Para ele, em cada obra do diretor, a facilidade com que Fuller passa de um momento de romance para uma explosão de violência ou para uma intensa cena de ação acaba por surpreender o espectador, assim como o leitor de jornal fica surpreso ao ler as chamadas na primeira página e de repente deparar-se com algo devastador. “As mudanças radicais de tom refletem a irracionalidade do universo de Fuller”, escreveu Tracey.

Em “Anjo do mal”, uma seqüência que se passa dentro do casebre do assaltante Skip McCoy é um exemplo sintomático dessa técnica. Candy, enquanto acaricia os dedos de McCoy, fala: “Você tem dedos de artista: suaves e macios”. Uma relação terna sucede-se com troca de olhares graciosos entre ambos. Uma música suave acentua o clima de tranqüilidade no casebre. Candy então lhe pergunta: “Como você virou assaltante?”. McCoy afasta o braço dela num gesto enérgico e rebate: “Como virei? Como você virou o que é?”. Um efeito sonoro subseqüente à investida de McCoy contra a garota intensifica o desvairamento súbito.

A utilização do relato objetivo nas falas de seus personagens é outra característica marcante do diretor. O que não deve ser tomado como um discurso totalmente imparcial, já que, por trás de cada diálogo, Fuller busca transmitir uma mensagem política a fim de tabular seu ponto de vista. Assim como nos jornais, sua narrativa é em linguagem direta, com poucos adjetivos, algo como uma voz documental. Para Tracey, “as narrativas de Fuller reproduzem esse paradoxo: a aparente neutralidade retratada com julgamentos”.

Da sua passagem pelos cadernos de polícia enquanto trabalhava como repórter, Sam Fuller não apenas absorveu a forma de contar as histórias, mas também aproveitou cada trama e situação para recriar a sua ambientação lúgubre e sórdida nos filmes. Um desenrolar de enredo que parece constantemente na obra de Fuller é o amor destrutivo entre os personagens.

A consolidação ordenada e harmoniosa de uma comunhão romântica inexiste no universo de Fuller. Ele empenha-se em “enfatizar o excesso, a irracionalidade e o realismo para negar a possibilidade do amor”, escreveu Tracey em artigo publicado no “Images Journal”. “Sua preferência é por marginais, repórteres imorais, loucos no asilo, investigadores infiltrados em quadrilha de bandidos.”

Fuller viveu no meio deles por muito tempo e os retratou como poucos nas telas de cinema. Foi várias vezes mal visto e chegou a ser execrado por isso. Por frases do tipo “para mim um batedor de carteiras não é um criminoso, mas um artista”, criou discórdias e ganhou uma leva incontável de inimigos. Mesmo assim, sempre falava entusiasmado quando o papo era fazer cinema.

O crítico Joseph McBride, autor de livros sobre Orson Welles e John Ford e amigo pessoal do cineasta, atestou como foi em vão sua tentativa de fazer uma longa entrevista, aos moldes do livro “Hitchcock/Truffaut”, com Fuller. Desistiu da idéia ao perceber que depois de 18 horas de fita cassete gravada, eles haviam chegado apenas até 1928. Seria impossível.

Sam Fuller falava longamente com os braços em movimento numa espécie de monólogo interminável, gesticulando, fazendo caretas, soltando baforadas de seu charuto e incorporando cada personagem em frases emblemáticas. Mudava o tom de voz para interpretá-los. Ousou, de forma precoce, fazer filmes modernos ainda na era clássica e serviu de modelo para uma geração subseqüente de diretores. Sua obra sobreviveu como seus personagens, renegada por muito tempo à margem do cinema.

No dia 30 de outubro de 1997, aos 86 anos, Sam Fuller morreu na sua casa, em Los Angeles. Antes disso, deixou a seguinte impressão: “Esse é o ponto a que chegamos na civilização. Querem selecionar você e seu passado antes que você ouse profanar este solo”.

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Fernando Masini
É jornalista.

 
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