3

A ação se passa na casa de um casal que vive junto com o sogro escritor. Bill (James Woods) recebe a visita de três ex-companheiros do Vietnã que ele havia delatado a uma comissão militar de investigação que os conduzira à corte marcial por estupro, depois da invasão de uma aldeia do Vietnã do Sul, quando soldados americanos cometeram atrocidades contra civis (trata-se de uma alusão ao episódio de Mi-Lai, em 1968).

Durante a visita, os três rapazes se aproximam do escritor, Harry Wayne (Patrick McKey) -em alusão a John Wayne-, que é autor de “westerns” e histórias populares. Ele alonga seu contato com os rapazes para aproveitar suas histórias. Todos acham Bill um fraco, pois ele se opõe à guerra. A moça, Martha (Patricia Joyce), tem um filho com Bill, mas não quer se casar com ele e se sente atraída pelo grupo e sobretudo pelo líder, Mike (Steve Railsback), que é o oposto do seu companheiro: violento, machista, a favor da força e ligado à idéia de que os Estados Unidos são um país poderoso enquanto forem fortes militarmente e duros com seus adversários.

Durante o filme, o delator Bill passa agora por seu julgamento. Tem que suportar as gozações e ameaças dos rapazes e do próprio escritor, que condenam a sua fraqueza, além de ver sua companheira também atraída pelo grupo e questionando sua atuação no passado. No final, num jogo de sedução a princípio ambíguo entre a moça e Mike, os três rapazes a estupram, imobilizando Bill, que, enquanto é capaz, torna-se também violento.

Neste ato todas as crenças no poder da verdade parecem cair por terra, cedendo lugar à opressão pela força. Neste momento se defrontam dois modelos americanos, que convivem e são questionados durante a Guerra do Vietnã. Na situação limite, não haverá mudanças ou conversão dos indivíduos, como se viu em "Sindicato de ladrões". "Os visitantes" fala de um país em que tudo pode ser feito em nome da força e do progresso. Aqui se confrontam o país dos "duros" e um país que tem que se humanizar.

O filme não trata de uma gangue que oprime trabalhadores ou de comunistas infiltrados que poriam em risco a integridade do país, mas de soldados americanos que cometem atrocidades numa guerra na qual eles estão presentes como "libertadores". E todos, indistintamente, saem machucados e enfraquecidos. O delator não se torna um herói. Ao contrário, o seu ato necessário, é visto como um sinal de fraqueza. Termina machucado e sozinho.

Aqui não há heróis, nem mesmo vencedores. Só há sobreviventes de um mundo em extinção, que tem que mudar e ser revisto. Neste sentido, Kazan já mostra o conflito no Vietnã como uma verdadeira guerra interna, onde o que está realmente em jogo é a concepção e a condução do que seja a própria América.

.

Sheila Schvarzman
É historiadora, professora visitante do Instituto de Artes da Unicamp. Atualmente desenvolve pesquisa sobre Octávio Gabus Mendes (diretor de "Mulher", 1931, e roteirista de "Ganga Bruta", de Humberto Mauro).

1 - Este artigo é parte da dissertação de mestrado “Como o cinema escreve a história: Elia Kazan e a América”, defendida no Departamento de História do IFCH- Unicamp.

 
3