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prosa.poesia
PAÍS IMPREVISTO

Poesia presente: Ricardo Domeneck
Por Heitor Ferraz


O poeta Ricardo Domeneck
Foto de Roberto Borges/Divulgação

“Carta aos anfíbios”, o livro de estréia do poeta e DJ, cria no leitor uma sensação de deslocamento contínuo

“Trabalho como professor de inglês para crianças e passo grande parte do meu dia viajando pela cidade em ônibus e metrôs para dar aulas de uma hora de duração aqui e ali. Uso o tempo para ler e escrever. Aliás, grande parte do meu “Carta aos anfíbios” foi escrito assim: em ônibus de São Paulo, no metrô de Berlim. À noite me jogo na escuridão dos clubes subterrâneos berlinenses, onde trabalho como DJ. Já desisti de dormir.”

Morando na Alemanha há cinco anos, o poeta Ricardo Domeneck esteve no Brasil, no começo de julho, para lançar seu primeiro livro, rever os amigos e, principalmente, ficar com seu pai, que sofreu um derrame cerebral em Bebebouro, onde mora e onde Domeneck nasceu, em 1977. Primeiro filho do segundo casamento de seus pais, o poeta foi educado no fogo cruzado de duas religiões. Por parte pai, o catolicismo -“meu pai é um católico fervoroso, que recebe o padre para almoçar em casa”. Por parte de mãe, o protestantismo. “Nossa casa era uma espécie de Irlanda do Norte”, diz o poeta.

A poesia chegou primeiro através de manuais escolares de literatura brasileira. “Eu cheguei a pensar que poesia só aparecia nestes tipos de livros, pois em casa tínhamos apenas uma enciclopédia e o famoso ‘Diário de Anne Frank’”, conta ele. Na adolescência, porém, Domeneck, que estudava numa escola pública, trabalhava de office-boy na Faculdade de Bebedouro e estudava inglês, resolveu fazer um concurso que havia para intercâmbio cultural. Fez os exames, passou e foi terminar o colegial em Louisiana, nos Estados Unidos.

“Lá, eu tive a sorte de encontrar uma ótima professora de literatura, que abriu minha cabeça, apresentando a poesia de Whitman, de Poe, de Emily Dickinson. Ela também dava um curso optativo de romance, não só o americano. A gente lia e destrinchava um romance por mês.”

Desde essa época, ele já fazia alguns poemas. Ainda nos Estados Unidos, percebeu que conhecia pouco da literatura brasileira. Quando voltou para cá, fez um plano metódico de leitura: “Resolvi ler as principais obras de cada um dos nossos grandes escritores. Depois, li os livros mais obscuros, ou menos conhecidos, de cada um deles. Fiz a mesma coisa com a literatura portuguesa, espanhola, inglesa. E foi essa formação que me levou a estudar filosofia na USP”, lembra.

Durante a faculdade, Domeneck se ligou a um grupo de teatro, chamado Tribo de Teatro Tumutupuga (hoje, algumas das atrizes deste grupo formaram o Grupo de Pesquisa e Criação Obara, que está preparando um espetáculo com alguns de seus poemas). Foi quando começou a participar ativamente dos ensaios. “Com eles, eu virei ator e abandonei a filosofia.” Depois dessa experiência, que foi fundamental, como ele mesmo diz, pois o ajudou a quebrar a dicotomia corpo e mente, embarcou para a Alemanha. “E foi lá que tudo fermentou, que deu liga e voltei a fazer poesia”, conta.

A trajetória tortuosa do poeta fez com que seu universo de referência seja bastante diferente daquele dos poetas de sua geração no Brasil. Em sua bagagem, há muito Murilo Mendes, a paixão declarada por Hilda Hilst, algum Jorge de Lima e, com grande peso, a poesia americana, como a de Frank O’Hara, Jack Spicer, Rosmarie Waldrop e muitos outros. Sua procura, como ele mesmo diz, é por uma poesia lírica, mas uma poesia lírica tensionada, questionadora, quase sem repouso ou espaços apaziguadores para o leitor. “Neste livro, eu tomei o partido claro do lirismo, do sujeito, quase que obsessivamente. Nos poemas que venho fazendo agora, tento, na verdade, borrar as fronteiras entre o objetivo e o subjetivo”, comenta.

Seu livro de estréia não é dos mais fáceis. Antes de tudo, por que obriga a uma leitura exigente. O poeta parece não querer facilitar a vida do leitor. Antonio Candido, ao comentar a poesia de Murilo Mendes, falava de um “efeito surpresa” que, segundo ele, “desde muito é visto como um dos fatores de constituição da linguagem poética”. O crítico ainda dizia: “A surpresa consiste na ocorrência de algo inesperado, que o leitor não previa e lhe parece fora da expectativa possível, mas que graças a isso o introduz num outro país da sensibilidade e do conhecimento. País onde ele se sente pronto a aceitar uma realidade nova. Aliás, tanto a tensão quanto a surpresa decorrem da própria natureza da linguagem figurada, tão importante na caracterização do discurso literário em geral, do poético em particular”. Domeneck parece levar o leitor para este “país”, para este lugar muitas vezes estranho, deslocado, cujas referências, mesmo que reconhecíveis, criam uma outra atmosfera e pedem mais e mais de nossa sensibilidade e atenção.

Não é, como disse, um livro fácil. Mas é preciso dizer logo que se trata de um livro com belíssimos poemas, quase todos ocupando mais de uma página, o que já o difere da produção atual, que procura privilegiar a contenção, a economia de meios, como se diz no jargão técnico-literário. Quanto a isso, Domeneck, inclusive, não poupa críticas, como se pode perceber na entrevista que ele deu a revista “Inimigo Rumor 17”: “Além disso, por toda a parte a repetição ininterrupta daqueles preceitos mais manjados e batidos de João Cabral de Melo Neto, o parâmetro quase-único da crítica das últimas décadas: economia, concisão, secura, objetividade, repetidos à exaustão, a ponto de não se saber mais se a discussão gira em torno de poesia ou do que fazer com o orçamento do mês”.

Por onde, então, abordar sua poesia, que foge das caracterizações mais usuais? O livro é divido em duas partes simplesmente numeradas (1 e 2). Entre elas, há, de fato, uma diferença no tom, no ritmo e no andamento dos poemas. Na primeira, há algo de mais programático, quase como uma idéia obsessiva que persegue o poeta. Na segunda, o programa se abre e se transforma, permitindo uma maior ventilação das imagens que se cruzam, se chocam e criam uma musicalidade muito própria.

Na entrevista a “Inimigo Rumor”, ele chegou a deixar algumas pistas. É importante citar este trecho para compreender o caminho que o poeta vem trilhando: “O duplo percorre todo o livro, mas na imagem do anfíbio, habitante do duplo em unidade. Este anfíbio é informado pela leitura de Mircea Eliade e sua defesa de que mesmo no mundo moderno aparentemente mais dessacralizado o ritual, o mítico e o sagrado sobrevivem, ainda que nas formas mais confusas. Além de Eliade, o poema sonoro ‘Amphibian’, da Björk, com sua modulação de vozes, sugeriu o título. A primeira parte está imersa na água das origens, eu estava completamente tomado pela procura do mítico escondido nos escombros. Essa crença na Simpatia do Todo, na ligação cósmica entre as coisas é o arcabouço cultural que gerou e fundamentou a metáfora ao longo dos séculos. O corpo entra não como personagem, mas como veículo na minha insistência na tentativa de quebrar o logocentrismo da poesia brasileira principal, além da rejeição de qualquer forma de transcendência que implique em sublimação”.

O que se pode dizer dos poemas de “Carta aos anfíbios” é que desde o começo ele cria, no leitor, uma sensação de deslocamento, um deslocamento contínuo, sem ponto de parada, como se o poeta quisesse ressaltar esse movimento. Logo no primeiro poema do livro, cuja forma é bastante visual e faz com que as frases se desloquem pela página, ele aponta para essa intenção: “uma primeira esfera/ de ar impele/ outra ao movimento”. Pouco depois, ele diz: “só a lucidez abre caminho/ para o imaginário// mas a carne insiste/ no contínuo”. A dualidade por ele referida na entrevista vem de fato à tona: mente e corpo seguindo caminhos diversos, mas de alguma forma unidos.

Essas dualidades, essas fragmentações do sujeito compõem um campo fértil de exploração para Domeneck por meio de suas imagens -que, nesta primeira parte do livro, são bastante telúricas, referindo-se sempre à natureza, ao corpo, numa fusão impossível e desejada. Uma fusão que não se dá e deixa cicatrizes abertas ou, como ele mesmo registra, no poema “Tecido”, “O campo é contínuo/ e erode;// o sulco não o separa/ de si na nágua/ que ali corre/ e desce.// Corpo sob a pele/ como arado no solo”. Esse desejo pelo “único”, um desejo frustrante, o poeta chamará, em outro poema, de “tentação do homogêneo” -como se essa “tentação” perdurasse, “assediando os fragmentos”.

Em dois momentos, pelo menos, o poeta procura imagens mais cotidianas, menos elevadas, para falar dos deslocamentos que ele cria, com este jogo entre um e outro, entre a dualidade e a unidade (ou “totalidade”). Em “A pele medrosa cicatriza-se: e recomeça”, um simples garfo “não encaixa na boca/ e a comida cai”, o copo d’água “vai de encontro ao dente”. A única possibilidade de um todo mesmo que precário vem no simples ato de vestir a roupa do ser amado: “Visto o casaco alheio/ e me perco no cheiro,/ um instante,/ um instante”. Inclusive, a terceira parte deste poema (que é divido em quatro partes) é de uma delicadeza perturbadora:

Timidez
de pés

em casa
entranha,

que ao
ensaio
da distribuição nova
do peso descobrem

a levitação.


O segundo poema é “Sempre o exílio”, onde ele recupera inclusive algumas imagens usadas no poema anterior.


a.

Surpreso a quanta terra
não me pertence, que
engraçado descobrir (mais
uma vez) que trocar de país
não significa trocar de corpo
e a mudança
de língua
é acompanhada pela permanência
da produção da
mesma saliva.


b.

esta ilegalidade do meu corpo
desaloja-me a comida no
estômago
que permanece em ângulo
suspeito, a boca
arqueia-se, tesa -
e o barbante frouxo dos braços
a nenhum peito estreita-me,
esta pele estrangeira,
este cheiro novo.


c.

a certeza finalmente
de que mão é incapaz
da linha reta,
os ouvidos mais atentos,
as pontas dos dedos
mais ativas, despertas,
os ombros caídos, menos
por cansaço que por pesos
acumulados ao longo
de outros sonos;
quando as noções
de segurança
e cidadania
desaparecem e resta-nos
a condição.


Este poema também já aponta para a fragmentação e desmetaforização que tomará conta da segunda parte do livro, mais aberta aos ventos dos acontecimentos pessoais, à justaposição de imagens e cenas, que também guardam o impulso inicial de “deslocamento”, de constituição de uma paisagem que mais desorienta do que orienta. Domeneck entra por assuntos amorosos, pela separação, passa pelo comentário de anotações que alguém deixou numa edição recente de “Perto do coração selvagem”, de Clarice Lispector, numa biblioteca alemã, pela descrição (não objetiva) de um corpo que começa a se movimentar, o registro de situações diárias, mas tudo isso filtrado por um corpo que pensa.

Esta segunda parte poderia funcionar como um exemplo da impossibilidade apresentada na primeira parte, ou seja, se lá havia uma procura da permanência de algo sagrado na vida moderna, a constatação negativa dessa permanência entra de sola nos acontecimentos multifacetados dos poemas da parte 2. A própria metáfora parece não encontrar repercussão maior, como ele anota no poema “Breviário de secreções”, quando diz: “Mas esta imagem não/ encontra equivalência/ em meu organismo e/ volto a olhar/ meus pés”. Este é o primeiro poema da nova seção do livro -certamente a opção por colocá-lo neste lugar no livro é bastante significativo: o olhar se volta para si mesmo, para um mundo rasteiro, das experiências banais.

A mistura de elementos, de uma cotidianização do registro poético (que não significa jamais alguma perda), é resumida nos seguintes versos, de um poema sem título (vários poemas desta parte não têm títulos): “há coisas incertas o bastante/ na esfera da minha atenção”. A falta de certezas faz com que o poema passe a funcionar como uma caixa de ressonância de várias situações, de vozes, de trechos de poemas, de colagens, de músicas, de partes do corpo etc. É como se o DJ Ricardo Domeneck entrasse no campo da poesia e fosse “mixando” as sonoridade, unindo uma música a outra. Um exemplo desta poesia é o poema “Ao ver Adriano Costa atravessar a Augusta”:

 
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