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política
BRASIL
Lula assume a Presidência Crise tira o presidente do reino da publicidade, obrigando-o a operar diretamente o seu governo Já é mais do que tempo de tentar tirar pelo menos a cabeça do lamaçal, limpar os olhos como der e ensaiar ver um pouco mais longe do que a próxima falcatrua. Não falo da história da roubalheira, porque essa exige talentos e informações de que não disponho. Falo da lógica de gerenciamento político instalada desde o início do mandato de Lula, que já dá sinais de estar mudando de maneira importante em função da crise. Não costuma dar muito certo analisar política a partir do comportamento de indivíduos. Mas, no caso de Lula, isso é quase uma necessidade, porque faz parte da própria lógica do seu governo. Isso não significa de maneira alguma tentar entender Lula como “messiânico”, “líder carismático” ou “populista”. Ou, resvalando para o patético de estilo Regina Duarte (“Eu tenho medo”), como o próximo Hugo Chavéz. Lula não é nenhuma dessas coisas. Lula é um Sílvio Santos da política, um comunicador de enorme talento, cujo objetivo primeiro é a administração de sua própria imagem. O que inclui, antes de mais nada, garantir que os negócios continuem muito bem, obrigado. Até o momento, o que há de mais próximo de Lula é, por incrível que pareça, Ronald Reagan, chamado pelos norte-americanos de “presidente teflon” porque nenhum escândalo, nenhuma falcatrua em seu governo era capaz de grudar nele. Daí ter sido até agora inútil a tentativa de PSDB e de PFL de colar Lula ao seu próprio governo. Basta consultar qualquer pesquisa de opinião para perceber que a imagem de Lula tem pouco a ver com a de seu governo. No momento em que as duas coisas se aproximaram perigosamente, Lula imediatamente tomou medidas de distanciamento. Em tudo o mais, as diferenças em relação a Reagan são gigantescas, evidentemente. A começar pela capacidade de formulação e de ação do Partido Republicano e do sólido suporte dado pelo conservadorismo norte-americano, muito maior e mais enraizado na sociedade do que qualquer partido político. Seja como for, é interessante notar, por contraste, que, no caso de Lula, a chegada ao poder federal simplesmente estralhaçou o PT e, com ele, qualquer possibilidade de formulação de um discurso de governo relativamente unitário. Ocorre que isso não foi um acidente. Foi exatamente o que pretendeu Lula desde o início. Não por acaso, desde o primeiro dia Lula colocou todas as fichas em propaganda como substituto de um discurso de governo coerente e unitário. Se há coerência em seu governo, ela não é ideológica, é publicitária. Lula trouxe para o poder federal o jeito de governar que sempre praticou no sindicato e no partido. Loteou seu governo entre forças do próprio PT e de neoaliados, manteve sempre separadas a sua imagem e a de seu governo, e deixou correrem soltas as dissensões internas. No meio da pancadaria, sempre enxerga algo que pode interessar à construção de sua própria imagem e a pinça da confusão, dando-lhe o tratamento publicitário típico de Duda Mendonça. Nesse momento, distingue o responsável, cobrindo-o de elogios. É por isso que variam tanto os “preferidos” do presidente. São, na verdade, “preferidos do momento”. Daí também não fazer sentido falar em “núcleo duro” no governo Lula. Não há um ministério ou conjunto de ministérios que Lula coloque sob sua influência e direção e procure a partir deles formular um discurso e um rumo para o governo em seu conjunto. Por isso, o pior engano que alguém pode cometer é acreditar que fala de fato em nome de Lula. Os emissários e negociadores de Lula só são autorizados por ele a posteriori, se ele considerar que o resultado da negociação lhe foi favorável. José Dirceu, por exemplo, passou semanas negociando em nome do presidente uma reforma ministerial (a primeira) que o próprio Lula abortou com um simples telefonema. É surpreendente que, até a atual crise, Lula jamais tenha operado diretamente em seu próprio governo. Deixou tudo nas mãos de negociadores “autorizados até segunda ordem”, sendo que tal segunda ordem dependia unicamente do arbítrio de Lula. É surpreendente, mas explicável, se essa maneira de operar for compreendida em função do objetivo primeiro de manutenção da própria imagem. Ocorre que essa maneira de operar não operando, colocando a própria imagem antes e acima de qualquer outra coisa, mostrou-se destrutiva do ponto de vista institucional. Pode ser que funcione em um sindicato ou em um partido, mas produziu um verdadeiro caos quando se tratou da tarefa complexa de governar o país. Se o presidente não opera diretamente e se não se sabe mais quem é negociador autorizado ou não (só se sabe depois de concluída a negociação, dependendo do arbítrio do presidente), as instituições simplesmente travam. A política já é desde sempre um campo minado pela desconfiança mútua permanente. Mas há salvaguardas e limites que permitem o diálogo e a negociação. O peculiar modo de operar de Lula simplesmente destruiu essas salvaguardas e limites, instituindo uma desconfiança irrestrita. E o resultado mais evidente disso é justamente Roberto Jefferson. Já se vê que a única saída para esse travamento é a negociação direta com Lula. E foi justamente isso o que aconteceu. A novidade que veio com a crise e que provavelmente significará um divisor de águas está em que Lula começou a operar diretamente. Tanto em seu governo como no próprio PT. A partir de agora, Lula vai se empenhar diretamente em três importantes operações simultâneas: diminuir o peso do PT no seu governo e na sua estratégia de reeleição; tornar o governo mais eficiente; e reorganizar o próprio PT como um partido de governo. Tudo indica que Lula finalmente irá assumir a partir de agora a responsabilidade pelo seu próprio governo. Mesmo passada a crise, Lula dificilmente poderá voltar ao antigo modo de operar não operando. E isso pode significar que, pela primeira vez, a sua imagem passe a acompanhar de perto a de seu governo. Mas, para evitar os possíveis efeitos colaterais dessa nova situação, Lula irá distanciar-se o quanto possível do PT e procurará tornar o governo o quanto possível eficiente e realizador. No âmbito da reorganização de forças no governo, a novidade é a entrada do PMDB, ou melhor, o pedaço dele (leia-se: os senadores) que resolveu aproveitar a “janela de oportunidade” da crise para montar máquinas eleitorais pessoais para 2006 dentro dos ministérios recebidos. O acordo com o PMDB tem menos a ver com “ter base no Congresso” e “governabilidade” do que com o fato de que a nova aliança permite a Lula diminuir o tamanho do PT no seu governo e se colocar cada vez mais como homem acima de partidos, pavimentando o caminho para a reeleição. A entrada do PP no governo e a manutenção dos demais partidos no ministério tem o mesmo sentido. Do ponto de vista da eficiência, Lula dependerá de maneira aguda de Dilma Rousseff, escalada justamente para gerenciar de maneira eficaz os projetos já em andamento. Mas seu principal trunfo será mesmo o provável bom desempenho da economia, o que indica que o trio Palocci, Rodrigues e Furlan permanecerá mesmo o mais importante do governo. E, simultaneamente, Lula vai se empenhar por fazer do PT um partido de governo, o que ele só foi até o momento de maneira relutante e relativamente pouco confiável. Mesmo que o custo dessa operação seja muito alto. Essa é a tarefa que coube ao verdadeiro ministério que Lula enxertou no PT, a começar por Tarso Genro, mas sem esquecer de Humberto Costa e de Ricardo Berzoini. Não conheço exemplo sequer semelhante de uma intervenção dessa magnitude em um partido. Nunca vi os dois ministros com os maiores orçamentos da União (educação e saúde) deixarem seus postos para ocupar cargos na máquina partidária. Para o PT, a cartada final se joga agora. Para fazer do PT um partido de governo, como um PSDB ou um PFL, Tarso Genro vai usar a própria crise a seu favor, tanto contra os bodes expiatórios já disponíveis, como contra uma oposição interna que nada tem a ver com essa crise, muito pelo contrário. Seu maior aliado nessa tarefa será o imenso desânimo da militância e de boa parte dos quadros históricos do partido. Se a estratégia vai funcionar ou não, vai depender muito do grau de resistência interna que Tarso Genro encontrar. Se funcionar, é bem possível que o PT enquanto tal diminua de tamanho. Mas vai ganhar em coesão. A coesão necessária para governar, nos termos em que esse verbo será a partir de agora conjugado por Lula. Muita coisa mudou com a crise, portanto. Mas o fundamental continua ausente das preocupações de Lula. Nada parece indicar que sua tardia entrada em cena como operador direto signifique que ele vá negociar uma saída para a crise atual, tarefa que é hoje de fato a mais premente e necessária para o país. Dificilmente o mais urgente, um conjunto de medidas e de reformas institucionais como as de uma “operação mãos limpas” italiana, mesmo que em uma versão tupiniquim, será capitaneado por Lula. Lamentavelmente, parece que a única chance de isso vir a acontecer será, uma vez mais, se sua imagem (e, agora, também a de seu governo) vier a ser de fato ameaçada pelo lamaçal. . Marcos Nobre
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