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estante

Ugo Giorgetti

Os livros que se seguem não são os melhores que li. Também não sei se estariam catalogados entre as leituras fundamentais, aqueles livros obrigatórios que devem ser lidos nos anos de formação. São apenas livros que ou me interessam neste momento da vida, o que é o caso da maioria deles, ou que me vieram à mente por misteriosas e inexplicáveis razões.

1. Romance da pedra do reino e o principe do vai-e-volta, de Ariano Suassuna

A história do Cronista-Fidalgo-Rapsodo-Acadêmico e Poeta Escrivão Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, ilustre descendente de Dom João Ferreira-Quaderna ou Dom João, o Execrável. O Brasil visto pelo viés do maravilhoso, do mítico e do mágico. Suassuna, com espantosa imaginação, inventa uma Idade Média brasileira e dela salta para a modernidade, sempre com elegância e inesgotável ironia. Talvez o melhor romance já escrito no Brasil.


2. The aspern papers, de Henry James

Um artista à procura de algumas cartas, despojos de outro artista há muito morto, guardadas como um tesouro pela destinatária. É com esta guardiã, agora velha e decrépita, que o pesquisador tem que se haver, num solitário e também decrépito palácio em Veneza. Parece pouco, mas é sempre de pouco que Henry James precisa para tecer suas histórias feitas de atmosferas, situações inconclusas, reticências e seres imprecisos, como suas frases errantes, longas, quase sem destino e final.


3. Paranóia, de Roberto Piva

O poeta Roberto Piva inventou em 1963 uma cidade que parecia saída de um pesadelo. Em seus poemas, lugares como a praça da República, o parque Trianon, Santa Cecília, a avenida Rio Branco etc. apareciam deformados, perturbadores, quase sinistros, como visões num sonho de ópio. Na realidade, o que Piva estava vendo não era um sonho particular, uma cidade imaginária. Como todo grande poeta, ele apenas antecipava o que estava por vir. E o que ele via era a São Paulo de hoje.


4. Scritti corsari, de Pier Paolo Pasolini

O livro é uma coletânea de artigos em jornais e revistas e de palestras publicados entre 1973 e 1975. Dessa leitura me ficou a certeza de que Pasolini foi o grande intelectual do século 20, pois, mais até do que Sartre, ele se lançou à ação, às ruas e às polêmicas, enquanto a maioria ficava confinada em suas confortáveis salas de aula. Do livro, me ficou ainda o espanto diante de sua incrível lucidez, como ao descrever, quase em detalhes, as transformações globais que viriam e que vieram, destruindo os valores anteriores e reduzindo todos, principalmente os jovens, a meros consumidores idênticos.



5. The dying animal, de Phillip Roth

Um homem contemplando a morte dos corpos. Que é só o que agora nos foi deixado para morrer. O corpo. Contempla a destruição dos corpos, dos outros e dele mesmo, enquanto compulsivamente recorre a todo seu arsenal de cultura, de Schubert a Kafka para atrair suas jovens alunas ao seu apartamento e, se possível, fazer sexo e mais sexo. No contundente, e muitas vezes hilariante, estilo de Roth esse livro oferece algumas páginas impressionantes, como a visita ao poeta moribundo ou a noite da passagem do ano de 1999 para 2000 na solidão de um apartamento em Nova York. Um livro terrível e perturbador.


6. Baú de ossos (até Círio perfeito), de Pedro Nava

Para o meu gosto, a melhor prosa jamais escrita em língua portuguesa. Nos momentos inspirados, Nava é maior do que Eça, maior do que Machado de Assis. Num estilo caudaloso, sem medo de longas frases e extensos parágrafos, cheio de lirismo, mas nunca piegas, temperado sempre com um humor particular, Pedro Nava, nos seus volumes de memórias, faz uma soberba reconstrução não só do tempo perdido, mas de um Brasil perdido. Uma das poucas obras da literatura brasileira monumentais pelo tamanho e pela amplidão do horizonte que alcança.


7. O vôo da madrugada, de Sergio Sant’anna

Você embarcaria num vôo noturno, num vôo da madrugada, de uma cidade remota para São Paulo, num avião que transportasse apenas cadáveres de um recente acidente aéreo e os parentes enlutados que acompanhavam os corpos? É assim que começa o conto que dá título a esse livro de Sergio Sant’anna. Se o que se espera de alguém que escreve é sobretudo imaginação e capacidade de surpreender, “O vôo da madrugada” preenche essas condições, do primeiro conto ao último.


8. O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati

Um homem encerrado numa fortaleza espera por uma batalha decisiva, quando os tártaros chegarem. Em meio à monotonia da vida de quartel, a pequenos incidentes inócuos, a um lento escorrer do tempo, a vida vai passando. E os tártaros nunca chegam. Os olhos agora velhos ainda espreitam através do binóculo o lugar ao longe onde um dia os tártaros deveriam surgir. A vida finalmente passa e o homem morre. Esse romance que é, na síntese de um ensaísta italiano, “o tema da vida como espera, renúncia e derrota” é uma das obras mais inquietantes do século 20.

9. Antes do fim, de Ernesto Sabato

O próprio Sabato define magistralmente seu livro: “Envolto na penumbra que vislumbro, em meio do abatimento e da desgraça, como um desses anciões da tribo que, acomodado junto ao calor do fogo, rememoram seus antigos mitos e lendas, me disponho a contar alguns acontecimentos, misturados, difusos, que fazem parte de tensões profundas e contraditórias, de uma vida cheia de equívocos, desorganizada, caótica, em sua busca desesperada da verdade”.


10. Ravelstein, de Saul Bellow

Abe Ravelstein, acadêmico erudito, sarcástico, quase cínico, por pura casualidade aumenta substancialmente seus rendimentos com a presença totalmente inesperada de um livro seu entre os best-sellers. Aparentemente, Saul Bellow trata Ravelstein com simpatia e benevolência, mas permite uma segunda leitura, na qual, ao contrário, surge a figura de um intelectual vazio, narcisista, que perdeu qualquer capacidade de critica e de ação sobre o mundo que o rodeia. Essa dupla leitura é o que fascina neste livro, cujo objetivo talvez seja tirar o sono de muito intelectual.

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Ugo Giorgetti
É cineasta, diretor de "Sábado" e "Boleiros", entre outros filmes.

 
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