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novo mundo
PÂNICO

O pai da mídia tática
Por Giselle Beiguelman

Ouça a encenação radiofônica de Orson Welles de "A Guerra dos Mundos", feita em 1938

A Guerra dos Mundos estréia no cinema, cercado da pompa que faz jus aos milhões de dólares investidos em mais um espetacular filme de Spielberg. Baseado no romance de H. G. Wells, publicado em 1898, a história foi imortalizada pela célebre transmissão radiofônica de Orson Welles com o Mercury Theater, em 1938.

Era véspera de Halloween, 30 de outubro, e os prenúncios da eclosão da 2 ª Guerra Mundial, fundados no pacto de Munique, firmado um mês antes, criavam um cenário de tensão nada desprezível. Afinal, Inglaterra e França entregavam a Tchecoslováquia a Hitler e vários analistas do período alertavam que esse acordo não estancaria o expansionismo nazista.

As notícias sobre a situação européia interrompiam a programação das rádios continuamente, e a incerteza sobre a postura norte-americana deixava apreensivos os ouvintes.

Nesse contexto é que o grupo de teatro Mercury, liderado por Orson Welles, então com 23 anos, entrou no ar e levou ao pânico mais de 1 milhão de pessoas nos EUA, provocando fugas, abandonos de lares e umas tantas quebradeiras.

Welles virou notícia no país todo e, diante das pressões e resultados, declarou que nada havia sido intencional. Em 1955, contudo, em uma especial da BBC (“Orson Welles Sketchbook”), assumiria que o programa não foi tão inocente assim.

O mundo lhes parecia ser alimentado por tudo que sai daquela “caixa mágica”, e nesse sentido a transmissão era, nas palavras de Welles, “um assalto à credibilidade daquela máquina” e um alerta para que as pessoas deixassem de se orientar por opiniões pré-formatadas, “viessem elas do rádio ou não”.

Se mídia tática é o uso da mídia e de seu potencial até o seu limite extremo, a incorporação intencional do seus protocolos, em um nível tão radical, que leva à própria quebra desses protocolos, conforme definiu Alex Galloway em “Protocol - How Control Exists After Decentralization” (The MIT Press, 2004), então sua certidão de nascimento precede o hacktivismo em algumas décadas.

Acesse a transmissão de “Guerra dos Mundos” feita por Orson Welles no link-se abaixo e confira o pioneirismo do diretor de “Cidadão Kane”.


link-se
Ouça “A Guerra dos Mundos” na versão radiofônica de Orson Welles (em inglês) - http://netart.incubadora.fapesp.br/portal/midias


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Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Criadora dos premiados "O Livro depois do Livro" e e "egoscópio" e de projetos artísticos que envolvem o acesso público a painéis eletrônicos via Internet, SMS e MMS. É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico. Site: www.desvirtual.com

 
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