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Na televisão, o comerciante discorre, indignado, sobre a barbárie dos pichadores na avenida Santo Amaro. Diz que o valor dos imóveis na região caiu cerca de 30%. Os pichadores apareceram e descaracterizaram a avenida a partir da implantação do corredor de ônibus. É uma espécie de decadência privada da avenida, pois ninguém contestaria o caráter público dos ônibus. E corredor é uma coisa que liga dois pontos, não um lugar para estar.

Como a infecção de uma ferida, os pichadores são os sintomas de que o poder público perdeu o controle sobre o espaço, começou a vertigem da deterioração. Lembro-me da modinha infantil: “Se essa rua fosse minha/ eu mandava ladrilhar”. Mas gente que “bate uma laje” desde pequeno, não tem infância. Não ouviu nem cantou modinhas. Sabe, sim, que o pichador é uma espécie de herói anônimo cujo valor se mede pela ousadia. Ele não mostra a sua ousadia para a cidade, mas para a “galera” que o conhece muito bem. A “rainha do frango assado” de Alex Vallauri foi uma arte que se perdeu, sufocada pelo eu-sozinho que se espraiou pelas ruas. Há também muitos assaltos a carros nos cruzamentos da Santo Amaro. Não se deve andar de Cherokee por lá. Dá muito na vista. Mais seguro ir ao “mercadão” nesses carrões.

A avenida Nove de Julho, ao menos no trecho dos “jardins”, foi transformada num corredor-boulevard. As pichações são logo apagadas, há iluminação de qualidade, tudo é cuidado. Custa uma grana, mas é um cartão-postal. Um “padrão Curitiba” dentro de São Paulo. O nosso metrô também é limpo. Mais que o de Londres, Paris ou Nova York. Bacana como o de Barcelona. Dizem que custa caro essa sua integridade. Há, então, como salvar a Santo Amaro?


Calçada

As vezes deterioram-se as palavras: calçada e passeio público são coisas passadas. Nos chamados “Jardins” (de onde vem esse plural?) a calçada não é pública. Cada morador faz de “sua” calçada o que bem entende. João Sayad já escreveu que, ali, um sujeito em cadeira de rodas não consegue andar meia quadra sobre a calçada. As calçadas também estão coalhadas de casinhas para os seguranças se abrigarem do frio e da chuva. “O terreiro lá de casa/ não se varre com vassoura/ varre com ponta de sabre/bala de metralhadora.”


Meditação dolorosa

Certa vez ouvi um discurso de Darcy Ribeiro, no qual ele disse: “Não consigo compreender como, num país onde não se encontra um frango abandonado, um leitão sem dono, pode haver tanta criança abandonada. Alguma coisa anda muito errada”. É.


Cena final

Sempre que vou para o aeroporto de Congonhas vejo os painéis destruídos de Clóvis Graciano na Rubem Berta. Já me informei com quem reclamar. Asseguraram que era com a Emurb. Escrevi um e-mail. Não obtive resposta, a não ser os painéis continuarem lá, vitimas do vandalismo.

Sempre pensei que Clovis Graciano fosse cultura, identidade, prioridade para recuperar. Pelo jeito não é cultura ou, por azar, está no lugar errado. Devia estar na cracolândia.


O sujinho que vira limpinho

Vejo na avenida Consolação que, antigo “Bar das Putas”, o bar “Sujinho” (agora limpinho, família) anda de vento em popa. Atravessou a rua e tem dois endereços frente a frente, nas esquinas. De cada esquina, ao longo da sua extensão, tomou dois terços da calçada. Construiu amuradas no meio do passeio, botou um toldo. Incorporou dois terços da rua ao seu espaço de faturamento.

Já não cabem duas pessoas lado a lado na calçada. Faz mais de ano. Os comerciantes da vizinhança acham que eles “molham a mão” dos fiscais. Duvido. Era um governo do PT, que se elegeu em defesa da moralidade pública. É que não há heliporto por perto, ninguém vê. Só isso explica que nem o novo governo veja o óbvio. De novo o martírio das palavras, a morte do “passeio público”.

A Consolação está na encruzilhada: ou vira uma Nove de Julho, ou uma Santo Amaro.

Detesto ler ou ver socialite, ou artista carioca, que declara, se referindo a São Paulo: “Eu amo esta cidade”. Não sabem o que estão falando. Nós, que a amamos tanto, já temos tantos motivos para odiá-la que é absolutamente dispensável a opinião dos outros. Proponho uma détente: socialites e artistas paulistanos também se absterão de elogiar a inútil paisagem carioca.

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Carlos Alberto Dória
É sociólogo e ensaísta, autor, entre outros livros, de "Ensaios Enveredados", "Bordado da Fama" e o recém-lançado "Os Federais da Cultura" (ed. Biruta).

 
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