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cosmópolis
URBANISMO

Reflexões de sarjeta
Por Carlos Alberto Dória

Notas de um caderno pessoal sobre a decadência de São Paulo

Saudades do Conde

Estou perdido na avenida Rio Branco. Abro a janela do carro e pergunto a um passante onde fica um determinado estabelecimento comercial. Aponto uma direção: “Não! Para lá é a cracolândia! O senhor não deve ir para lá!”. Agradeço a informação, mas sigo assim mesmo. Estou no meio da cracolândia. É domingo e posso ouvir, nítido, o silêncio sinistro de um pedaço da cidade que está prestes a desaparecer.

Lembro-me da sinfonia das britadeiras que faziam fundo sonoro ao “Casamento de Maria Braun” (Rainer W. Fassbinder, 1978). Impressionou-me muito na primeira vez que assisti ao filme. Era uma metáfora sobre a reconstrução da Alemanha no pós-guerra, uma reflexão sobre a possibilidade de felicidade com aquele passado todo. E sempre que ouço esse som em São Paulo fico me perguntando que sorte de guerra destruiu a cidade.

São Paulo foi construida e destruida várias vezes, pois tem 450 anos, mas provavelmente não possui meia dúzia de edificações com mais de 150 anos. Os “paulistas quatrocentões” não moravam aqui. Estavam ocupados em exterminar índios e plantar café no interior. A última contribuição que deram à civilização foi por volta de 1912, em Bauru, com o massacre dos kaingang. Depois, vieram morar na avenida Paulista e construíram grandes casarões com o dinheiro do café e da indústria nascente.

Os Matarazzo estavam no último caso. Não tinham as mãos sujas no sangue indígena. O patriarca era conde. “Carcamanos” mãos limpas desse tipo fizeram a beleza da avenida. Mas, na calada de uma certa noite, no final do século XX, Matarazzos puseram abaixo, em horas, o magnífico casarão, antes que o tombamento do imóvel pelo patrimônio histórico produzisse os seus efeitos sobre o sagrado direito de propriedade. Quando a cidade acordou, diante do fato consumado, só podia lamentar. E tomar consciência de que, nem sempre, a sinfonia das britadeiras evoca a reconstrução. Ela pode ser a própria guerra urbana.

Curioso que alguém da mesma família se ocupe, hoje, do projeto de revitalização do centro de São Paulo, sendo uma das suas diretrizes a recuperação e preservação da memória, especialmente arquitetônica. Mais curioso ainda que o prefeito de São Paulo, mal assumiu e estendeu a jurisdição da Regional da Sé até aquela margem da avenida Paulista onde, outrora, esteve o casarão dos Matarazzo. São as contradições da vida.


O bota-abaixo

É impossível deixar de pensar em guerra quando lemos o senhor Romeu Chap Chap, principal porta-voz dos interesses imobiliários em São Paulo, dizer que “há regiões que se mostram irrecuperáveis, a menos que (seja possível) desapropriar o que existe, implodir, projetar e desenvolver um novo bairro”. E ele, que se diz “ávido por encontrar oportunidades de novas iniciativas”, mira a cracolândia, “uma das áreas de maior deterioração da cidade". "Não recuperar o centro de São Paulo é uma opção anti-social, antieconômica, anticultural”, disse.

É preciso destruir porque “raramente um empresário irá investir na recuperação de um prédio deteriorado (...) e ficar ilhado por uma vizinhança em ruínas”. E também porque, ali, existe uma infra-estrutura urbana de valor, sub-aproveitada. Finalmente, nem dá para aproveitar os prédios, pois “a lei proíbe escadas em caracol, características da maioria dos prédios da região”.

Fico confuso: e se Londres, Paris, Madrid forem obrigadas a se conformarem às legislações modernas que estabelecem como devem ser as escadas? Será muito pior que Bagdá. Mas as primeiras divisões do exército de recuperação do centro de São Paulo já tomam posição na região. O senhor Chap Chap é um bota-abaixo.


Meditação gratuita

A burguesia paulistana deixou de pensar a cidade como “sua” depois da Segunda Guerra. Ela virou um terreno de negócios, “paisagem” antiga, cartão postal, vida em cor sépia. Convocaram Prestes Maia para esboçar a nova paisagem desejada. Urbanistas ainda gostam de acreditar que ele desenhou uma “utopia urbana”. Era mesmo diferente de Ramos de Azevedo, que só via o edifício isolado. Prestes Maia foi um Hausmann tardio, um Pereira Passos paulistano.

Houve, porém, um descompasso (sem trocadilho com o Pereira...): enquanto Perreira Passos redesenhava o Rio ao modelo parisiense, São Paulo também era feita ao modo da “capital do século XIX” na velha avenida Paulista. Depois da guerra, Paris só queria ser como era antes; já os paulistas queriam ser como os norte-americanos, e não como os franceses. Era o peso da vitória aliada sobre a cidade.

E se a cidade não foi reduzida a paisagem, como explicar que essa mesma burguesia deixou Maluf construir o minhocão? Hoje é Júlio Neves quem desenha a São Paulo do futuro. Ele não gosta do Masp, pois não há jeito de ele funcionar em suas mãos. Outras sim, ele gosta. Foi ele o arquiteto da nova sede da Daslu. Foi ele quem convenceu o governo a fazer a “Nova” Faria Lima.. Será que irá convencê-lo a fazer o “pirocão” da avenida Paulista (de onde se poderá ver o mar!), conforme denunciou Emanoel Araujo, apelidado “o breve”, na sua carta-renúncia? Ou a cidadania resistirá e formará uma ONG de nome “Vítimas de Júlio Neves”, como ouvi dizer que existe a das vítimas do cantor Fagner?


Cena um

“- Cidadão! Por obséquio, o senhor pode me informar onde fica o setor dos peixes?”

Aquele “cidadão” soa como uma ordem unida. É preciso bater os calcanhares e se apresentar, solícito, ao burguês de cabelo gomalinado e camisa pólo, estranho ali. Mas é o “setor dos peixes” -mais do que o culto “obséquio”- que faz os carregadores e vendedores dos boxes trocarem olhares cúmplices, gozadores. Que coisa é essa do mercadão organizado por “setores”?

Todo mundo sabe onde fica tudo, inclusive as peixarias. Nunca houve “setor”, que é uma forma sintética de organizar o mundo para quem não lhe conhece as entranhas. Brasília é assim: setor residencial norte, setor das embaixadas... Agora o Mercado Municipal de São Paulo também foi setorializado.

Lá fora, nos estacionamentos que circundam o prédio, se vê grandes mudanças. Onde antes praticamente só havia Kombis de restaurantes que se abasteciam no Mercado, regurgitam Cherokees e Pathfinder. O preço por hora saltou de R$ 4 para R$ 15. Filas de pessoas se formam, serpenteando pelos corredores apertados do mercadão, em direção a um único lugar: a lanchonete que vende pastel de bacalhau.

Para quem é, bacalhau basta.


Cena Dois

No centro, na rua Augusta, há o que restou do Grande Hotel Ca`D´oro. Fundado em 1953, foi, à época, o que o complexo Fasano é hoje para a cidade. Lugar de exibição de poder e, claro, de boa comida. “Casoncelli Bergamaschi”, por exemplo. Mas se você pede o “Gran Bollito Misto dal Carrello” já não comerá aquela maravilha do passado. Os legumes ultracozidos, a língua defumada um tanto quanto salgada; porém os molhos continuam maravilhosos. Nas mesas, é raro, mas ainda se vê Antonio Ermírio de Morais, ou João Sayad. Eles também têm algo de anacrônico em relação aos padrões e gostos da burguesia pós-moderna aninhada na avenida Berrini.

Na hora da conta, você, que levou um vinho muito especial para tomar, fica surpreso com a cobrança da “rolha”. Protesta. E o maître diz: “A nova administração do hotel resolveu introduzir modificações. No tempo do Ático não era assim!”. Você lembra que o maître Ático foi levado pelo Fasano... É o anticlimax. O hotel-símbolo da burguesia desenvolvimentista dos anos JK mercantiliza tudo na sua decadência, mesmo o gesto generoso de lhe abrir uma garrafa de vinho e servir em copos dignos. Não quer se afogar, e se agarra aos fios de cabelos que flutuam sobre as águas, como se fossem tábuas de salvação. Ironia das ironias: na conta vem discriminada uma taxa chamada de “conservação”. Você paga e deixa o centro para trás.


Cena três

No corpo, há veias e artérias. Nas cidades também. Em São Paulo, uma delas gangrenou: a rua Augusta. A “rua” faz parte do nome, como “boulevard” faz de Saint-Germain. Mas são poucas as “ruas” de São Paulo e ainda muitos os boulevards de Paris.

Anos 60: “A rua era feia, com as casas velhas, paredes amarelas. As butiques elegantes se enfiavam dentro de casinholas quase em ruínas. Vitrinas explodiam em luz com vestidos, suéteres, meias, tecidos, jóias, discos, livros, perfumes, peles. Importados, fabricados a mão, feitas em série. Luminosos insignificantes, mais discretos e apagados quanto mais elegante e cara a butique”. A rua era augusta.

Quando esta “rua” ficou famosa, a burguesia ainda assumia a cidade como sua e ousou plantar nela o Conjunto Nacional. Antes de entregar o espaço público ao crime, à prostituição, ao desemprego. Antes de olhar do alto do elevador panorâmico do shopping a anticidade que se formou. Sim, porque cidade é lugar de cidadãos, não de lúmpen. Hoje o cidadão trocou a cidade pela cidadela-shopping.


Cena Quatro

Finalmente a obra tão esperada está concluída. São 20 mil metros quadrados, 45 mil clientes, heliporto, luxo por todo lado e em todas as formas. A nova loja Daslu abre suas portas. Reverteu a decadência da área, entregue ao deus-dará desde que terminou o governo que pretendia colocar ali a sede da Eletropaulo. Hoje o templo paulistano do luxo está ao lado do esqueleto monstruoso e abandonado, na avenida Juscelino Kubitschek, e promete à cidade um espetáculo nunca visto. Mas não se poderá chegar a ele a pé. Somente de carro. O estacionamento custará R$ 30 por hora. Há também um heliporto. São Paulo possui mais heliportos do que Nova York (temos 200, eles tem 4). Aqui há mais contradições a sobrevoar, enquanto o rio de cocô faz as vezes de margens plácidas sem brado ou gemido heróico.

Acho que a inauguração do Mappin foi mais ou menos assim como a Daslu. Seria interessante se a Daslu tivesse recuperado o fausto do Mappin. Mas a burguesia que quer recuperar o centro (ou será outra?) decidiu entregá-lo ao populacho. Por isso, essa necessidade de recuperar outra área degradada. Vai ver uma degradação moderna tem mais charme que uma degradação antiga.


Cena Cinco

Um amigo suíço me sugeriu um livro: “Você precisa conhecer São Paulo de um ângulo que nem imaginamos”. É “São Paulo: uma aventura radical”, de Eduardo Emílio Felianos, dito “O Urbenauta”. O sujeito ficou andando quatro meses dentro de São Paulo sem voltar para casa. Percorreu 6.700 quilômetros, permanecendo ao menos um dia em cada distrito da cidade. Das 120 noites que dormiu fora de sua casa, apenas 6 foram em pensões. As demais, como convidado de gente que morava no local. Uma autêntica expedição. Levou o olhar classe média onde ele nunca havia ido. Mais do que ninguém, acho que o prefeito deveria ler este livro, obra-prima de uma nova etnografia sobre São Paulo.

“Vacas perambulam entre os automóveis” no Jardim Helena. “Muito novos, os garotos já sabem bater uma laje, preparar uma gambiarra para a luz, concertar um encanamento (...). As famílias ou a desagregação delas começa muito cedo (...). A periferia só sobrevive graças à própria periferia. Aqui se olha o futuro de uma maneira diferente e se corta o cabelo por R$ 3,00. Em outros lugares de São Paulo se corta por R$ 30,00, R$ 300,00.”

Quando ele fala de Marsillac é impressionante. “Não, isso não é São Paulo”, é a primeira reação do leitor. De certo modo o autor também pensa assim, porque diz no prefácio “a minha São Paulo, cada um tem a sua”. É isso. Não existe uma São Paulo geral.

A cidade brota do livro de um modo novo. Gente que a faz de costas para o poder público, que “bate uma laje” e não quer saber de posturas municipais. O poder público de costas para eles. Então, o que une a “cidade” a esses moradores das periferias?

Depois, se a região se valoriza -como Água Espraiada- é fácil entender: vêm os senhores Chap Chap com suas teorias urbanísticas e tudo se resolve de alguma forma que não se sabe bem qual é. Digamos que existem pessoas que moram além das “fronteiras da cidade” (aonde, da cidadania, só chega o IPTU) e, depois, elas são expulsas e o avanço da cidade se dá sobre uma área “deteriorada”.

Lembro-me de um diálogo de “Dodeskaden” (Kurosawa, 1970), onde o filho pergunta ao pai por que os japoneses moram em lugares deteriorados e o pai responde que os japoneses gostam de lugares baixos, ao passo que os norte-americanos gostam de lugares altos.

Entendo que haja “alto” dos Pinheiros, embora seja mais baixo do que Pinheiros simplesmente. Antes era um brejo só. Foi a companhia City, de loteamentos, que introduziu em São Paulo o conceito espacial de “high-society”.


Cena seis

1 - Romeu Chap Chap, “Não recuperar o centro é um desperdício”, "Folha de S. Paulo", 24 de maio de 2005.


2 - Ignácio de Loyola Brandão, “Bebel que a Cidade Comeu”, São Paulo, Global, 2001.


3 - Eduardo Emilio Fenianos, “São Paulo: uma aventura radical”, São Paulo, Editora UniverCidade, 2002

 
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