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prosa.poesia
MEMÓRIA

Seu mundo está pronto
Por Ruy Vasconcelos

A morte de Robert Creeley, uma das vozes mais originais da poesia americana, passou quase em branco no Brasil

Três antecipações para falar de Robert Creeley.

Em 1996, por ocasião de sua visita ao Brasil, uma plaqueta editada pelo poeta Régis Bonvicino. Na capa, curiosa ilustração de Guto Lacaz, ao modo dos quadrinhos: homem, com uma espécie de mochila em turbina, alçando vôo. Alguns exemplares desta plaqueta pousaram em minha caixa de correio. E, em um deles, uma dedicatória de Creeley. Minúscula caligrafia, onde se lê: “Your world is ready” (“seu mundo está pronto”).

“Seu mundo está pronto”. Engraçado, nunca tomei isto de forma individual. Mas no senso de: “Há espaço suficiente, garantido pela cultura brasileira para alguém desenvolver-(se)”. “Seu mundo está pronto” empata dizer: há Aleijadinho, Gonçalves Dias, Euclides da Cunha, Machado de Assis, os poetas modernistas, Graciliano, Rosa, Cardozo, Lispector, Lúcio Cardoso, João Gilberto, Edu Lobo... Mas, sobretudo, há um país para os sentidos.

Momento dois. Dois anos depois. Breve troca de e-mails. Ele, na gelada Búfalo, quase fronteira com o Canadá, onde lecionou poesia na Universidade do Estado de Nova York, no quadrante final da vida; eu, na imensidão indissipável, sem rosto, de São Paulo, tentando aprender alguma coisa e lecionando na Universidade Paulista (Unip). Mote da conversa: a poesia de George Oppen. E falamos dessa admiração em comum pelo autor de “De Sermos Numerosos”.

1985. Fortaleza. Momento três. Uma antologia de poetas americanos encontrada ao acaso nas estantes da biblioteca da Universidade Estadual -quem a teria trazido? Foi botar o olho, e amor. Creeley, que era caolho como Camões, criou -ele não aprovaria este conceito- um estilo. Compresso, nevroso, retorcido, de um humor sutilíssimo e, por vezes, corrosivo. Mas também tratando com indizível graça de vida doméstica, de história, das estranhezas entranhadas no cotidiano, da incomunicabilidade, de uma abstração captada na trívia, no relevo dado às partículas expletivas, preposições, artigos, conectivos sintáticos (“mas”, “de”, “que”, “um”, “tão”, “se”, “a”, “à”). Poesia não retórica, aberta à experiência de vida, à fertilidade dos sentidos.

Há pouco mais de um mês, somos menos numerosos. Morreu, no último dia 30 de março, de complicações pulmonares, o poeta Robert Creeley, numa isolada comunidade do deserto texano. Manuel Bandeira, por ocasião de seus 80 anos, sentiu-se ameaçado de morte pelo excesso de homenagem. Do mesmo modo, os 70 anos de Creeley foram uma gala. Todo o alto clero da literatura americana acorreu a Búfalo -e isto incluiu uma leitura-homenagem de John Ashbery. De fato, excessos de prêmios, homenagens e títulos são, senão ameaças, sinais de morte.

Em um poema chamado “Bresson’s Movies” (“Filmes de Bresson”) ele tece uma loa ao cineasta francês. Bresson, o estilista exemplar. E olha que não há artistas mais distintos que Robert Bresson e Robert Creeley. O aristocrata francês católico-jansenista, o poeta experimental americano que vivenciou a turbulência dos confusos anos 60. E, no entanto, quanto ao estilo, são inimitáveis. Legiões de poetas, nos Estados Unidos, no Brasil e por onde mais, trataram de imitar Creeley. Mas Creeley, como Bresson, é um estilista. E, diante de um estilista, há quatro atitudes não sincrônicas: deter-se, admirar, deliciar-se, aprender e seguir adiante.

É fato que o vigor maior da poesia de Creeley vai de seus primeiros livros, “For Love” (Por Amor) reunindo sua produção da década de 50 a “Words” (Palavras) e “Pieces” (Peças), para chegar ao excelente “Later” (Depois), volumes onde seu estilo de linhas breves, quebras abruptas, encadeamentos, flertes com o abstrato, desorientação sintática se faz presente com todo o seu pendor para a serialidade. Descrever a poesia de Creeley é como o quê? É como encontrar na rua, apressadamente, com um conhecido que não se via há muito e tentar contar a ele, em detalhes, algo sobre alguém que ele não conhece.

Para “achar” seu estilo, Creeley conhecia a fundo a experiência americana. Sua transgressão nunca é gratuita e ele jamais se rendeu à espontaneidade verbosa dos beats. Quer dizer, jamais se rendeu inteiramente. Pois a amizade com Allen Gisnberg lhe fez mais mal que bem -uma vez que, para Ginsberg, não havia maus ou bons poemas: havia poemas.

Desde então, Creeley, este rigoroso estilista, nunca mais foi o mesmo. Pode até ter se tornado um homem “mais feliz”, como ele afirma, mas certamente a felicidade não deve ser o critério maior de um homem, pois está abaixo da verdade. E foi assim que Creeley tornou-se mais copioso. E publicou compulsivamente. Coisas boas, e nem tanto. Sem embargo, radicadas em sua obsessiva experiência para conhecer mundos e seguir acompanhando o percurso de seu próprio pensamento. Solipsismos.

Poderíamos editar Creeley em planos de videoclipe: abandonou Harvard -após haver sido suspenso por ter roubado a porta do dormitório; guiou ambulâncias em Burma e na Índia; morou na Provença e nas Ilhas Baleares em condições precárias; obteve o grau de mestre apenas porque Charles Olson, reitor de uma faculdade experimental de artes lhe concedeu o título; passou um tempo na companhia de Ginsberg, Rexroth (com cuja mulher manteve um caso amoroso que quase finda em tragédia), Snyder, Corso, Mclure e Ferlingetthi no auge da propalada Renascença de San Francisco; casou e descasou várias vezes (prole de sete); enfurnou-se no Piauí americano (o Estado do Novo México) para lecionar poesia; teve livros traduzidos em mais de 30 idiomas; habitou lugares tão díspares quanto Helsinck e uma colônia agrícola nos cafundós da Guatemala. Nos últimos dois anos era professor da Universidade Brown. Que mais se pode dizer de um homem assim, a não ser que, evidentemente, viveu? Ou seja, não passou a vida trancado num estúdio, cercado de livro e miopia?

Creeley esteve com Pound, Williams e Olson. Com Pound e Williams de forma mais reverente. Com Olson trocando intensa correspondência -que hoje corresponde à nova “bíblia” dos jovens poetas americanos. Creeley esteve com o pessoal do Black Mountain College, editando sua revista.

Creeley esteve com o jazz e com os pintores expressionista-abstratos dos 50, bebendo na mesma fonte furiosa e aleatória. Com os beats e com os Beatles nos 60. Servindo de inspiração para e conhecendo um desdobramento criativo entre os poetas do grupo L=A=N=G=U=A=G=E. Tornando-se cidadão do mundo a partir da New England, que tanto amou. Quando no Brasil, por exemplo, perguntou se Euclides da Cunha, de quem lera “Os Sertões”, na esplêndida tradução de Samuel Putnam, também era poeta. Pergunta, de resto, de uma intuição pertinente.

Somo a este obituário a tradução de um poema, que nem está entre os mais notáveis do autor de "Later", mas que sempre me tocou de um modo próprio. E devolvo a Creeley, em memento, a saudação enviada: “Seu mundo está pronto”.

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Lugar

Essa paisagem vazia,
apesar da luz,
ar, água -
gente andando ruas.

Me sinto fraco aqui.
Bem longe, bem
fechado em mim,
sem fazer do amor uma saída.

Preciso dos densos velhos tempos,
o sujo, o frio,
o ruído sobre o piso -
meu amor comigo.


Place

This is an empty landscape,
in spite of its light,
air, water -
the people walking the streets.

I feel faint here,
too far off, too
enclosed in myself,
can’t make love a way out.

I need the old time density,
the dirt, the cold,
the noise through the floor -
my love in company.

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Ruy Vasconcelos
É tradutor, roteirista e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor).

 
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